[RESENHA #866] Felicidade clandestina, de Clarice Lispector


 Desde o início, Clarice Lispector recusou a escravidão dos gêneros. Escrevia por fragmentos que depois montava. Escrevia aos arrancos, transcrevendo um ditado interior. As estruturas clássicas não faziam parte desse ditado. Seu olhar passava por cima das regras, quase voraz em sua busca da essência. Este livro bem o demonstra. É composto por contos escritos em épocas diversas da vida de Clarice. E por não contos. Muitos deles – como "Felicidade clandestina", que dá título ao livro – foram publicados no Caderno B do Jornal do Brasil. Como crônicas. Que também não eram crônicas. Convidada em 1967 para escrever no JB, Clarice deparou-se com um fazer literário novo. Logo negou os padrões vigentes: "Vamos falar a verdade: isto aqui não é crônica coisa nenhuma. Isto é apenas. Não entra em gêneros. Gêneros não me interessam mais."E "isto" era a mais pura e rica literatura. Nos contos / crônicas / textos – que eu, como subeditora do Caderno recebia semanalmente, Clarice se expunha em recordações familiares e de infância. Sua irmã Tania ainda se lembra da menina, filha de livreiro, que encontramos em "Felicidade clandestina", atormentando Clarice por conta do empréstimo de um livro. O professor de "Os desastres de Sofia" realmente percebeu o tesouro que Clarice menina escondia. E "Come, meu filho" é um claro diálogo entre a autora e seu filho. Nada diferencia esses contos, escritos para serem crônicas, de outros contos que aqui estão, escritos para serem contos e publicados anteriormente no livro A legião estrangeira. Seus textos podem ser desmontados, desfeitos em pedaços – até mesmo diferentes dos fragmentos originais – sem que se perca sua intensidade. Cada palavra ou frase dessa escritora sem igual origina-se em camadas tão fundas do ser, que traz consigo, mais do que um testemunho, a própria voltagem da vida. ― MARINA COLASANTI, Jornalista e escritora. Prêmio Jabuti para Eu sei, mas não devia e Rota de colisão.

RESENHA

Felicidade Clandestina é uma coletânea de contos da escritora brasileira Clarice Lispector, publicada pela primeira vez em 1971. A obra reúne 25 textos que foram escritos em diferentes fases da vida da autora, alguns dos quais já haviam sido publicados anteriormente como crônicas no Jornal do Brasil. Os contos abordam temas variados, como a infância, a adolescência, a família, o amor e as questões da alma, com um estilo marcado pela subjetividade, pelo fluxo de consciência e pela busca de epifanias.

Clarice Lispector nasceu em 1920 na Ucrânia, mas veio para o Brasil com a família aos dois anos de idade, fugindo da perseguição aos judeus. Viveu em Recife, Rio de Janeiro, Belém e Brasília, além de ter morado em vários países como esposa de um diplomata. Foi uma das mais importantes e originais escritoras da literatura brasileira, com uma obra que inclui romances, contos, crônicas, ensaios e literatura infantil. Morreu em 1977, vítima de câncer.

Felicidade Clandestina é uma obra que revela muito da personalidade e da experiência de Clarice Lispector, pois muitos dos contos têm um caráter autobiográfico, trazendo lembranças da infância da autora em Recife, personagens que marcaram seu passado, situações que vivenciou ou testemunhou. Através da recordação de fatos do seu passado, Clarice Lispector faz uma investigação psicológica de autoanálise, tentando compreender a essência das coisas e das pessoas, e também a sua própria.

Um dos contos mais representativos da obra é o que dá título ao livro, Felicidade Clandestina, em que a narradora em primeira pessoa conta sua primeira experiência com um livro. Porém, esse livro é de uma menina má que o oferece emprestado para a narradora, mas sempre inventa uma desculpa para não entregar o livro a ela. Até que a mãe da menina má descobre isso e entrega o livro para a narradora, que passa a saborear o livro como se fosse um amante. Esse conto mostra a paixão de Clarice Lispector pela leitura e pela escrita, e também a sua capacidade de transformar uma situação simples em uma metáfora da vida.

Outros contos que se destacam na obra são: A Criada, em que uma mulher rica se depara com a morte de sua empregada e se sente culpada por não ter percebido a sua existência; O Grande Passeio, em que uma senhora solitária decide sair de casa e se aventurar pelas ruas do Rio de Janeiro, descobrindo novas sensações e pessoas; Restos do Carnaval, em que uma menina narra suas impressões sobre a festa popular e a sua relação com a família; Uma Amizade Sincera, em que um homem e uma mulher mantêm uma relação de amizade baseada na sinceridade absoluta, até que um dia ele lhe diz algo que a magoa profundamente; e A Fuga, em que uma mulher casada decide fugir com o amante, mas se arrepende no meio do caminho e volta para o marido.

Os contos de Felicidade Clandestina são narrados em primeira ou terceira pessoa, com um tom intimista e confessional, que aproxima o leitor das personagens e de seus dilemas existenciais. As personagens são em sua maioria mulheres, que enfrentam conflitos internos e externos, como a solidão, a angústia, o medo, o desejo, a frustração, a rebeldia, a felicidade. Clarice Lispector explora a complexidade da alma humana, sem dar respostas definitivas, mas provocando reflexões e questionamentos.

A obra de Clarice Lispector se insere no contexto do pós-modernismo, um movimento literário que surgiu na segunda metade do século XX, caracterizado pela ruptura com as formas tradicionais de narrativa, pela experimentação estilística, pela fragmentação, pela ironia, pela intertextualidade e pela valorização do subjetivo. Clarice Lispector é considerada uma das precursoras desse movimento no Brasil, junto com outros autores como João Guimarães Rosa, João Cabral de Melo Neto e Lygia Fagundes Telles.

Felicidade Clandestina é uma obra que mostra a originalidade e a genialidade de Clarice Lispector, uma escritora que soube criar uma linguagem própria, capaz de expressar as nuances e as contradições do ser humano. É uma obra que convida o leitor a mergulhar no universo da autora, que é ao mesmo tempo familiar e estranho, real e fantástico, simples e profundo. É uma obra que oferece ao leitor a possibilidade de experimentar uma felicidade clandestina, aquela que se esconde nas pequenas coisas, nas entrelinhas, nos silêncios.

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