[RESENHA #865] Laços de família, de Clarice Lispector



O texto de Clarice Lispector costuma apresentar ilusória facilidade. Seu vocabulário é simples, as imagens voltam-se para animais e plantas, quando não para objetos domésticos e situações da vida diária, com frequência numa voltagem de intenso lirismo. Mas que não se engane o leitor. Em poucas linhas, será posto em contato com um mundo em que o insólito acontece e invade o cotidiano mais costumeiro, minando e corroendo a repetição monótona do universo de homens e mulheres de classe média ou mesmo o de seres marginais. Desse modo, o leitor defronta-se com a experiência de Laura com as rosas e o impacto de Ana ao ver o cego no Jardim Botânico. Pequenos detalhes do cotidiano deflagram o entrechoque de mundos e fronteiras que se tornam fluidos e erradios, como o que é dado ao leitor a compreender acerca da relação de Ana, seu fogão e seus filhos, ou das peregrinações de uma galinha no domingo de uma família com fome, ou do assalto noturno de misteriosos mascarados num jardim de São Cristóvão. E, como se pouco a pouco se desnudasse uma estratégia, o cotidiano dos personagens de Laços de família, cuja primeira edição data de 1960, vai-se desnudando como um ambiente falsamente estável, em que vidas aparentemente sólidas se desestabilizam de súbito, justo quando o dia a dia parecia estar sendo marcado pela ameaça de nada acontecer.

RESENHA

Laços de Família é uma obra da escritora brasileira Clarice Lispector, publicada em 1960, que reúne treze contos sobre a vida cotidiana de personagens que se deparam com situações de conflito, revelação, angústia e solidão. Os contos exploram os temas dos laços familiares, do papel da mulher na sociedade, da busca pela identidade e da relação entre o humano e o animal. A obra é considerada uma das mais importantes da autora e da literatura brasileira, pela sua originalidade, profundidade e estilo inconfundível.

Clarice Lispector nasceu em 1920 na Ucrânia e veio para o Brasil com a família aos dois anos de idade, fugindo da perseguição aos judeus. Viveu em Recife, Rio de Janeiro, Belém e Brasília, além de ter morado em vários países como diplomata. Estreou na literatura em 1943 com o romance Perto do Coração Selvagem, que recebeu o Prêmio Graça Aranha. Escreveu outros romances, contos, crônicas, ensaios, livros infantis e traduções. Foi uma das escritoras mais influentes e admiradas do século XX, sendo reconhecida por sua linguagem inovadora, seu olhar agudo sobre a condição humana e sua capacidade de expressar sentimentos universais. Morreu em 1977, no Rio de Janeiro, vítima de um câncer.

Laços de Família é composto pelos seguintes contos: Devaneio e Embriaguez de uma Rapariga, Amor, Uma Galinha, A Imitação da Rosa, Feliz Aniversário, A Menor Mulher do Mundo, O Jantar, Preciosidade, Mistério em São Cristóvão, O Crime do Professor de Matemática, O Búfalo, Começos de uma Fortuna e Laços de Família. Cada um deles apresenta uma personagem feminina que vive um momento de crise existencial, de confronto com a realidade ou de ruptura com as convenções sociais. As histórias são narradas em terceira pessoa, mas com um forte uso do fluxo de consciência, que permite ao leitor acompanhar os pensamentos, as emoções e as sensações das personagens. A autora utiliza uma linguagem poética, simbólica e metafórica, que cria imagens e sugestões que vão além do sentido literal das palavras.

Um dos aspectos mais interessantes da obra é a forma como Clarice Lispector retrata o universo feminino, mostrando as contradições, os desejos, as frustrações e as aspirações das mulheres em uma sociedade patriarcal e conservadora. As personagens são, em sua maioria, donas de casa, mães, esposas, filhas ou amigas, que se sentem oprimidas, insatisfeitas ou incompletas com seus papéis sociais. Elas buscam, de alguma forma, se libertar das amarras que as prendem, seja por meio de um devaneio, de uma embriaguez, de uma imitação, de um crime ou de um ódio. Elas também procuram se conhecer, se afirmar, se realizar e se comunicar, mas encontram dificuldades, obstáculos e resistências. Clarice Lispector revela, assim, a complexidade e a riqueza da alma feminina, que não se conforma com a superficialidade e a mediocridade da vida cotidiana.

Outro aspecto relevante da obra é a presença constante de animais, que funcionam como símbolos, metáforas ou contrapontos das personagens humanas. Em Uma Galinha, por exemplo, a ave que escapa do abate e se torna a heroína da família representa a fragilidade e a resistência da mulher, que luta pela sobrevivência e pela maternidade. Em A Menor Mulher do Mundo, a pigmeia grávida que é descoberta por um explorador francês simboliza a inocência, a pureza e a liberdade da natureza, que contrasta com a hipocrisia, a falsidade e a opressão da civilização. Em O Búfalo, a mulher que procura o ódio nos olhos dos animais do zoológico reflete a sua própria dor, solidão e incompreensão, que a levam a se identificar com o búfalo, que a ataca e a mata.

Laços de Família é uma obra que provoca, questiona, emociona e surpreende o leitor, pela sua força, sua beleza e sua originalidade. Clarice Lispector demonstra, nesses contos, a sua maestria na arte de contar histórias, que transcendem o tempo e o espaço e tocam o essencial da condição humana. A obra é um convite à reflexão, à sensibilidade e à imaginação, que nos faz ver o mundo com outros olhos e nos faz sentir a vida com mais intensidade.

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