[RESENHA #864] Perto do coração selvagem, de Clarice Lispector

Houve quem encontrasse no livro a influência de Virginia Woolf, ao passo que outros apostavam em Joyce, seguindo a falsa pista da epígrafe da qual Clarice pinçou seu título: "Ele estava só. Estava abandonado, feliz, perto do coração selvagem da vida." Ambos os grupos estavam errados, apesar do uso do fluxo de consciência pela escritora estreante a justificar tais correlações. Ocorre, no entanto, que esse havia sido um achado natural e espontâneo para Clarice Lispector, que admitiu como única influência neste caso O lobo da estepe, de Hermann Hesse. Não em termos estilísticos tampouco por se identificar com o caráter do protagonista, mas sim por compartilhar com ele e, sobretudo, com Hesse, o desejo imperioso de romper todas as barreiras e ultrapassar todos os limites na busca da própria verdade interior. Anseio personificado pela personagem central, Joana, com uma expressão que se tornou célebre: "Liberdade é pouco. O que desejo ainda não tem nome."

Íntima e universal, destemida e secreta, Joana "sentia o mundo palpitar docemente em seu peito, doía-lhe o corpo como se nele suportasse a feminilidade de todas as mulheres" e ela destoava do sistema patriarcal em que se encontrava inserida da mesma forma que Clarice se distanciava da literatura de seu tempo, ainda dominada pelo regionalismo e o realismo. Ambas, autora e protagonista, eram forças divergentes, porém não dissonantes, já que introduziam uma nova musicalidade, uma harmonia própria, poética e triunfal, na aspereza circundante, enquanto buscavam "o centro luminoso das coisas" sem hesitar em "mergulhar em águas desconhecidas", deixando o silêncio e partindo para a luta. Deste embate à beira do íntimo abismo, Joana torna-se uma mulher completa e Clarice, uma escritora singular e inimitável.

RESENHA

Perto do Coração Selvagem é o romance de estreia de Clarice Lispector, uma das mais importantes escritoras brasileiras do século XX. O livro narra a trajetória existencial de Joana, uma mulher que busca incessantemente o sentido da vida e da liberdade, através de suas memórias, sentimentos e reflexões. A obra é marcada pelo estilo introspectivo e inovador de Clarice, que utiliza a técnica do fluxo de consciência para revelar a complexidade psicológica de sua protagonista.

O livro foi publicado originalmente em dezembro de 1943, quando Clarice tinha apenas 23 anos. Recebeu muitas críticas positivas na época, tendo sido premiado como melhor romance de estreia pela Fundação Graça Aranha, em outubro de 1944¹. Desde então, o livro teve várias edições e traduções, sendo considerado um clássico da literatura brasileira e mundial.

O período histórico em que o livro foi escrito corresponde à Segunda Guerra Mundial e ao Estado Novo, regime autoritário instaurado por Getúlio Vargas no Brasil. No entanto, esses acontecimentos não são abordados diretamente na obra, que se concentra na dimensão interior de Joana. A autora, que nasceu na Ucrânia e veio para o Brasil com a família aos dois anos de idade, também não faz referências explícitas à sua origem judaica, embora alguns críticos apontem elementos simbólicos que remetem à sua cultura.


Algumas citações marcantes do livro são:

- "Ela queria ser. Mas não sabia o que ser. E a vida passava e ela tinha que ser. Então não sendo, era a vida que era ela." (p. 13)

- "Sim, ela sentia dentro de si um animal perfeito. Repugnava-lhe deixar um dia esse animal solto. Por medo talvez da falta de estética. Ou receio de alguma revelação... Não, não - repetia-se ela -, é preciso não ter medo de criar. No fundo de tudo possivelmente o animal repugnava-lhe porque ainda havia nela o desejo de agradar e de ser amada por alguém poderoso como a tia morta." (p. 31)

- "Ela não sabia o que fazer com o que sentia. A vida lhe parecia tão rica, tão interessante, que tinha medo de morrer antes de viver tudo. Queria ao mesmo tempo amar e se libertar, penetrar nos mistérios do outro e guardar para sempre o seu próprio segredo." (p. 87)

O livro apresenta diferenças e igualdades em relação aos outros títulos da autora. Por ser o seu primeiro romance, Perto do Coração Selvagem mostra uma Clarice ainda em formação, influenciada por autores como Virginia Woolf, James Joyce e Marcel Proust, mas já revelando sua originalidade e sua voz singular. A obra também antecipa alguns temas e características que se repetirão em seus livros posteriores, como a busca pela identidade, a solidão, a angústia, a linguagem poética, a ruptura com a linearidade narrativa, a preferência pelo feminino e o questionamento da realidade.

Os ensinamentos e aprendizados que a obra fornece são diversos e dependem da interpretação de cada leitor. No entanto, é possível destacar alguns aspectos que podem ser considerados universais, como a valorização da liberdade, da criatividade, da sensibilidade, da autenticidade e da coragem de enfrentar os desafios da existência. O livro também convida o leitor a refletir sobre si mesmo, sobre suas relações com os outros e com o mundo, sobre seus sonhos e seus medos, sobre suas contradições e suas possibilidades.

A lista de personagens do livro é composta por:

- Joana: a protagonista, uma mulher que vive em busca de si mesma e de seu lugar no mundo.

- Pedro: o pai de Joana, um homem carinhoso e compreensivo, que morre quando ela é criança.

- Elza: a mãe de Joana, uma mulher frágil e doente, que morre no parto.

- Tia: a irmã de Pedro, uma mulher severa e amarga, que cria Joana após a morte do pai.

- Lídia: a ex-noiva de Otávio, uma mulher doce e submissa, que engravida dele e o reconquista.

- Otávio: o marido de Joana, um homem indeciso e infiel, que se casa com ela por conveniência e depois a abandona.

- Professor: o primeiro amor de Joana, um homem mais velho e casado, que leciona no internato onde ela estuda.

O período histórico em que se passa a história de Joana não é especificado pela autora, mas pode ser inferido pelo contexto social e cultural em que ela vive. A obra abrange desde a infância até a idade adulta de Joana, que provavelmente nasceu no início do século XX e viveu até meados da década de 1940. O cenário é predominantemente urbano, com algumas passagens no campo e no litoral. A classe social de Joana é média-alta, com acesso à educação, à cultura e ao lazer.

A importância e a relevância cultural da obra são inquestionáveis, tanto pela qualidade literária quanto pela influência que exerceu sobre as gerações posteriores de escritores e leitores. Perto do Coração Selvagem é um marco na literatura brasileira, por inaugurar uma nova forma de narrar, que rompe com os padrões tradicionais e explora as profundezas da subjetividade humana. O livro também é um exemplo de literatura feminista, por apresentar uma personagem que desafia os papéis impostos pela sociedade patriarcal e busca sua autonomia e sua felicidade.

A biografia da autora é breve, mas intensa. Clarice Lispector nasceu em 10 de dezembro de 1920, em Tchetchelnik, na Ucrânia, e se chamava Haia Pinkhasovna Lispector. Seus pais eram judeus que fugiram da perseguição dos pogroms durante a Guerra Civil Russa. Em 1922, a família emigrou para o Brasil, fixando-se em Maceió, Alagoas, e depois no Recife, Pernambuco. Clarice adotou o português como sua língua materna e se naturalizou brasileira. Em 1935, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde concluiu o curso de Direito. Em 1943, casou-se com o diplomata Maury Gurgel Valente, com quem teve dois filhos, Pedro e Paulo. Viveu em vários países, como Itália, Suíça, Inglaterra e Estados Unidos, acompanhando o marido em suas missões. Em 1959, separou-se do marido e voltou a morar no Rio de Janeiro, onde se dedicou à literatura e ao jornalismo. Escreveu romances, contos, crônicas, ensaios, cartas e livros infantis, sendo reconhecida como uma das maiores escritoras da língua portuguesa. Morreu em 9 de dezembro de 1977, vítima de um câncer de ovário, um dia antes de completar 57 anos.

Postar um comentário

Comentários