[RESENHA #862] A paixão segundo G.H, de Clarice Lispector

Clarice, me dá tua mão.

Tudo parece de novo impossível nesse frêmito de eternidade que é o presente, mas confio na nossa aproximação: aconteceu daquela vez o impensável; adaptar A paixão segundo G.H. para o teatro. Não fui sozinha como você, embora quando estive ali, cara a cara com a barata, era eu mesma, sozinha como um caco de vidro, um cachorro e uma galinha estão sós e cara a cara.

Com o quê?

Consigo.

Eu fui, ao encarnar durante mais de dois anos a G.H. num monólogo para o teatro – adaptado por Fauzi Arap e dirigido por Enrique Díaz –, uma pessoa sem a pessoa que eu era antes para fazer companhia para mim mesma. Fui perdendo as cascas, o invólucro, mergulhando em águas cada vez mais densas e profundas, perdendo o contorno humano, transladei para outra, outro lugar, desconhecido, terrível e maravilhoso, que não eu.

Mas houve as mãos que me ajudaram na travessia.

As suas mãos, Clarice.

As suas mãos de escritora que tantas vezes anseiam as nossas para irmos contigo, nessa grande odisseia de uma mulher que viaja para dentro de si e se despersonaliza. Ela desvira o Eu. Ela se te revira. Não é brincadeira o que acontece aqui, é coisa que se lê e se toma e entra no próprio sangue, é saber xamânico, potente, destruidor e revivificador. Nada se cria sem desfazer essas camadas de noções fossilizadas sobre nós mesmos e o mundo. Tuas palavras agem sobre mim, ainda e sempre.

Agora, neste ano de 2020, é seu aniversário de 100 anos.

A paixão foi escrito em 1964. Imagino você aqui escrevendo sobre o agora, o momento presente atravessando as paredes de sua casa e de seu corpo e se metamorfoseando em palavras que você escreve e essas palavras agem, transformam a vida.

Nós estamos olhando a vida que se nos olha, Clarice.

A vida se nos é, e se me é, tão radicalmente agora, que voltei a andar com teu livro colado em mim. Livro que é registro desse tempo eterno onde fracassamos e vamos de novo, com o fracasso das nossas existências e palavras.

Das milhares de apresentações possíveis que eu poderia fazer, eu escolho dizer sim; sim, leia este livro como experiência que se vive. Entrar pelo corpo, e ir com as palavras mais "pelo que elas fazem do que pelo que elas falam", ir com G.H., atravessando esses portais e ir se perdendo nas paredes, nos hieróglifos da casa, nas marcas deixadas pelo outro, e ir indo, parando e recuperando o fôlego até mergulhar completamente nesta obra extraordinária que nunca mais vai parar de acontecer.

― Mariana Lima,  Atriz e produtora

RESENHA

A paixão segundo G.H. é um romance da escritora brasileira Clarice Lispector, publicado em 1964. A obra narra a experiência existencial de uma mulher, identificada apenas pelas iniciais G.H., que decide arrumar o quarto de serviço de seu apartamento após a saída da empregada doméstica. Ao se deparar com uma barata na porta do armário, ela a esmaga e, num impulso, prova o seu interior branco. Esse gesto desencadeia uma série de reflexões sobre a vida, a morte, a arte, a linguagem, a identidade, a sexualidade e o divino.

A paixão segundo G.H. é considerado um dos romances mais originais e complexos de Clarice Lispector, que explora as possibilidades da prosa poética e do fluxo de consciência para expressar a angústia e a revelação da protagonista. O livro é dividido em seis partes, sem capítulos ou parágrafos, e apresenta um monólogo interior que mistura memórias, imagens, sensações e pensamentos. A narrativa é marcada por uma linguagem fragmentada, repleta de neologismos, metáforas e repetições, que busca traduzir o indizível e o inominável.

O romance foi escrito em um período de crise pessoal e criativa da autora, que enfrentava problemas de saúde, financeiros e afetivos. Clarice Lispector afirmou que A paixão segundo G.H. foi o livro que mais lhe custou escrever, pois exigiu um grande esforço de concentração e de entrega. Ela também declarou que se identificava com a personagem e que o livro era uma espécie de confissão. A obra recebeu críticas variadas, desde elogios entusiasmados até rejeições radicais, mas foi reconhecida como uma das mais importantes da literatura brasileira e mundial.

Algumas citações marcantes do livro são:

- "Mas tenho medo do que é novo e tenho medo de viver o que não entendo – quero sempre ter a garantia de pelo menos estar pensando que entendo, não sei me entregar à desorientação."

- "Por te falar eu te assustarei e te perderei? mas se eu não falar eu me perderei, e por me perder eu te perderia."

- "Toda compreensão súbita é finalmente a revelação de uma aguda incompreensão."

- "Eu sou antes, eu sou quase, eu sou nunca. E tudo isso ganhei ao deixar de te amar."

- "Eu sou uma pergunta."

A paixão segundo G.H. apresenta algumas diferenças e semelhanças com outras obras de Clarice Lispector. Diferentemente de seus primeiros romances, como Perto do coração selvagem e A cidade sitiada, que possuem uma estrutura mais convencional e linear, A paixão segundo G.H. rompe com as características do gênero e se aproxima de uma forma mais experimental e filosófica. Por outro lado, o livro mantém alguns temas recorrentes na obra da autora, como a busca pela essência, a relação entre o humano e o animal, a tensão entre o eu e o outro, a crise da linguagem e a transcendência do cotidiano.

A obra também pode ser relacionada com o contexto histórico e cultural em que foi escrita, marcado pela ditadura militar no Brasil, pela Guerra Fria, pelo movimento feminista, pelo existencialismo e pela arte moderna. A paixão segundo G.H. reflete, de forma crítica e subversiva, sobre as questões sociais, políticas, éticas e estéticas de sua época, desafiando as convenções e as normas vigentes.

A leitura de A paixão segundo G.H. pode proporcionar diversos ensinamentos e aprendizados para os leitores, como:

- A importância de questionar as certezas e os valores impostos pela sociedade e pela cultura, e de buscar o autoconhecimento e a autenticidade.

- A necessidade de enfrentar os medos e as angústias que acompanham a existência humana, e de encontrar um sentido e um propósito para a vida.

- A possibilidade de experimentar o mistério e o sagrado na realidade mais simples e banal, e de se conectar com o outro e com o todo.

- A consciência de que a linguagem é limitada e insuficiente para expressar a complexidade e a diversidade do ser, e de que é preciso criar novas formas de comunicação e de arte.

A única personagem do livro é G.H., uma mulher branca, de classe média alta, que vive sozinha em um apartamento de luxo no Rio de Janeiro. Ela é uma escultora amadora, que abandonou a profissão de engenheira, e uma mãe divorciada, que raramente vê os filhos. Ela representa a típica mulher burguesa da sociedade brasileira dos anos 1960, que vive uma vida confortável, mas vazia e alienada. Através de sua experiência com a barata, ela entra em contato com uma dimensão desconhecida e perturbadora de si mesma e do mundo, que a faz questionar sua identidade e sua existência.

Clarice Lispector nasceu em 1920 na Ucrânia, mas veio para o Brasil com a família aos dois anos de idade, fugindo da perseguição aos judeus. Ela cresceu em Recife, onde começou a escrever desde cedo, e se mudou para o Rio de Janeiro aos 15 anos. Ela se formou em direito, trabalhou como jornalista e se casou com um diplomata, com quem teve dois filhos e viveu em vários países. Ela se separou em 1959 e voltou ao Brasil, onde se dedicou à literatura e à pintura. Ela publicou romances, contos, crônicas, ensaios e livros infantis, sendo considerada uma das maiores escritoras brasileiras e uma das mais importantes vozes femininas da literatura mundial. Ela morreu em 1977, vítima de um câncer.

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