[RESENHA #861] A legião estrangeira, de Clarice Lispector

 

Há neste livro uma parte significativa da ampla poética de Clarice Lispector.


Conforme afirma quem conduz a narração no primeiro dos admiráveis e extasiantes contos aqui dispostos por orgânica sabedoria – "as palavras me antecedem e ultrapassam, elas me tentam e me modificam, e se não tomo cuidado será tarde demais: as coisas serão ditas sem eu as ter dito".

Dessa prova de poder e de relativa independência da língua, extrai-se a própria substância de uma arte verbal capaz de articular diferentes tipos de registros, que obedecem à variedade e mutação dos estados de espírito, bem como à variedade e mutação das experiências (observadas ou imaginadas, sempre intensamente vividas).

Precaver-se ante a palavra e a ela entregar-se, eis o modo possível e laborioso de escrita – ajustar língua, conhecimento, percepção e disponibilidade. Infiltrar, assim, no espaço do habitual, orações complexas, desdobráveis, provocadoras de grandes distúrbios de rumos e de expectativas, ao lado de frases retas, curtas, certeiras e velozes. Feitas, por vezes, de um fervor só encontrável nos grandes textos místicos. Todo um mundo de segredos e de revelações. Aqui está a vida – pela palavra – sendo gerada aos nossos olhos, com seus contrastes de forças, seu regredir e avançar, a conquista da soberania e da humildade. Com o esforço e a destreza exigidos, surpreende-se o que se processa com inteligência arqueológica até surgir como se nascesse do puramente espontâneo, acompanhando, portanto, os inúmeros cálculos necessários para que se construa a longa e quase atemporal história dos corpos. Esculpe-se, nas sentenças, a alma.

RESENHA

A Legião Estrangeira é uma coletânea de contos da escritora brasileira Clarice Lispector, publicada em 1964 pela Editora do Autor. A obra reúne 13 narrativas que exploram temas como a solidão, a infância, a família, a perversidade, a relação entre o homem e os animais, o cotidiano e o extraordinário. Os contos são marcados pela linguagem poética, pela introspecção psicológica e pela busca de sentido na existência humana.

A obra foi a segunda coletânea de contos de Clarice Lispector, após Laços de Família, de 1960. Alguns dos contos já haviam sido publicados anteriormente em jornais e revistas, como “Os Desastres de Sofia”, “O Ovo e a Galinha” e “A Legião Estrangeira”. Outros foram escritos especialmente para o livro, como “Os Obedientes”, “Evolução de uma Miopia” e “Quinta História”. A edição original contou com ilustrações de Carlos Scliar, amigo da autora. Em 1971, a obra foi reeditada pela Editora Sabiá, com algumas modificações nos textos e na ordem dos contos. Em 1998, a Editora Rocco lançou uma edição com base na primeira, restaurando as ilustrações de Scliar e o prefácio de Affonso Romano de Sant’Anna.

Os contos de A Legião Estrangeira foram escritos em um período de intensa produção literária de Clarice Lispector, que também publicou nessa época os romances A Maçã no Escuro (1961), A Paixão Segundo G.H. (1964) e Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres (1969). A obra reflete as influências do existencialismo, do surrealismo e da psicanálise na escrita da autora, que se caracteriza pela experimentação formal, pela ruptura com as convenções narrativas e pela expressão de uma subjetividade fragmentada e angustiada. Os contos também revelam a sensibilidade de Clarice Lispector para captar os detalhes do cotidiano, as sutilezas das relações humanas e as contradições da condição feminina.

Algumas citações marcantes da obra são:

  • “As palavras me antecedem e ultrapassam, elas me tentam e me modificam, e se não tomo cuidado será tarde demais: as coisas serão ditas sem eu as ter dito.” (“Os Desastres de Sofia”)
  • “Ela era uma pessoa que se esquecia de si mesma, e que só se lembrava de si quando alguém lhe falava.” (“Viagem a Petrópolis”)
  • “Era como se eu tivesse cometido um erro grave, e esse erro fosse o que de mais importante me acontecera na vida.” (“A Legião Estrangeira”)

A obra pode ser comparada com outras coletâneas de contos de Clarice Lispector, como Laços de Família, Felicidade Clandestina, A Via Crucis do Corpo e A Bela e a Fera. Em todas elas, a autora explora temas semelhantes, como a infância, a maternidade, a morte, o amor, a violência e a transcendência. No entanto, cada obra apresenta uma evolução estilística e temática, que acompanha as mudanças na vida e na visão de mundo da autora. Em A Legião Estrangeira, por exemplo, nota-se uma maior liberdade criativa, uma maior diversidade de formas e de vozes narrativas e uma maior ousadia na abordagem de temas polêmicos, como a sexualidade, a loucura e a crueldade.

A leitura de A Legião Estrangeira pode proporcionar ao leitor diversos ensinamentos e aprendizados, como:

  • A valorização da imaginação, da fantasia e da criatividade como formas de lidar com a realidade e de se conhecer melhor.
  • A compreensão da complexidade e da ambiguidade da natureza humana, que abriga tanto o bem quanto o mal, tanto a razão quanto a emoção, tanto a lucidez quanto a loucura.
  • A reflexão sobre o sentido da vida, da morte, do amor, da arte e da religião, sem a pretensão de oferecer respostas definitivas, mas sim de provocar questionamentos e dúvidas.
  • A apreciação da beleza e da poesia que se escondem nas coisas simples, nos gestos cotidianos, nos objetos inanimados e nos seres vivos.

A lista de personagens da obra é extensa e variada, incluindo crianças, adultos, idosos, homens, mulheres, animais e objetos. Alguns dos personagens mais importantes são:

  • Sofia, a menina inteligente e travessa que protagoniza o conto “Os Desastres de Sofia”.
  • Dona Anita, a velha senhora que vive sozinha e é abandonada pela família no conto “Viagem a Petrópolis”.
  • O pinto, o animal que desperta na protagonista do conto “A Legião Estrangeira” lembranças de sua infância e de sua família.
  • G.H., a mulher que vive uma experiência mística e assustadora ao esmagar uma barata no conto “O Ovo e a Galinha”.
  • Ulisses, o rapaz que seduz e abandona várias mulheres no conto “Uma Amizade Sincera”.

O período histórico em que a obra foi escrita corresponde aos anos 1960, uma década marcada por grandes transformações sociais, políticas, culturais e artísticas no Brasil e no mundo. No Brasil, o golpe militar de 1964 instaurou uma ditadura que reprimiu as liberdades civis, a oposição política e as manifestações populares. No mundo, ocorreram eventos como a Guerra Fria, a Guerra do Vietnã, a Revolução Cubana, a Crise dos Mísseis, o Movimento dos Direitos Civis, o Movimento Feminista, o Movimento Hippie, o Maio de 68, entre outros. No campo da cultura e da arte, surgiram movimentos como o Cinema Novo, a Bossa Nova, o Tropicalismo, o Concretismo, o Pop Art, o Rock, a Psicodelia, entre outros. A obra de Clarice Lispector reflete, de forma indireta e sutil, esse contexto histórico, ao abordar temas como a alienação, a rebeldia, a contestação, a liberação, a inovação e a experimentação.

A importância e a relevância cultural da obra são inegáveis, pois se trata de uma das obras mais representativas e originais da literatura brasileira do século XX. A obra revela o talento e a genialidade de Clarice Lispector, considerada uma das maiores escritoras da língua portuguesa e uma das mais influentes da literatura universal. A obra também contribui para a renovação e a diversificação do gênero conto, ao apresentar narrativas que fogem dos padrões tradicionais e que desafiam os limites entre a prosa e a poesia, entre o real e o fantástico, entre o lógico e o ilógico. A obra ainda oferece ao leitor uma experiência estética e existencial única, que o convida a mergulhar no universo íntimo e misterioso da autora e de suas personagens.

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