[RESENHA #860] Um sopro de vida, de Clarice Lispector

Eu escrevo como se fosse para salvar a vida de alguém. Provavelmente a minha própria vida." Com essas palavras, Clarice Lispector convida o leitor para uma viagem única. Um sopro de vida e A hora da estrela foram escritos simultaneamente, movidos pela mesma pergunta. "Estou com a impressão de que ando me imitando um pouco. O pior plágio é o que se faz de si mesmo." Questionamento agravado pela constatação: "E há também os meus imitadores (…) algumas pessoas que tiveram o mau gosto de serem eu." Entre elas, os críticos são os que com maior impertinência e constância tentam imitá-la, reduplicando, em suas análises, a ambiguidade radical atribuída à pessoa Clarice Lispector. Com isso, seus livros se transformam sempre num mergulho no infinito de uma identidade à deriva. Um sopro de vida (e A hora da estrela) deveria(m) ter encerrado essa monótona romaria. Por que não imaginar que a pessoa Clarice foi pretexto para que a persona da escritora, em sua pluralidade, pudesse triunfar?

Hipótese que responde à convocação: "Se alguém me ler será por conta própria e autorrisco." E, correndo riscos, Um sopro de vida sugere instigante paralelo. Em 1914, Miguel de Unamuno publicou Niebla, desconcertante romance no qual o protagonista, Augusto Pérez, resolve virar autor de seu destino. Em Um sopro de vida, Clarice imagina uma personagem, Ângela Pralini, através da qual dialoga consigo mesma e, sobretudo, ensaia afastar-se de seu estilo. Isto é, afastar-se de si mesma para evitar o "pior plágio". E, bem ao contrário de Unamuno – que mantém Augusto Pérez em rédeas curtas –, Clarice é transformada pelo contato com Ângela Pralini. Claro que, em A hora da estrela, a personagem Macabéa levará esse gesto ao extremo.

RESENHA

Um sopro de vida é o último romance de Clarice Lispector, publicado postumamente em 1978. A obra é uma espécie de diálogo entre um autor sem nome e sua personagem, Angela Pralini, que representa o seu alter-ego. O autor cria Angela para expressar seus conflitos existenciais, mas ela se rebela contra ele e assume uma vida própria. O livro é composto por fragmentos que misturam reflexões, memórias, sonhos e confissões dos dois personagens, que se alternam na narrativa.

Clarice Lispector nasceu em 1920 na Ucrânia e veio para o Brasil com a família aos dois anos de idade. Considerada uma das maiores escritoras brasileiras do século XX, Clarice se destacou pela originalidade e profundidade de sua prosa, que explora temas como a identidade, a linguagem, a morte e a transcendência. Entre suas obras mais conhecidas estão Perto do coração selvagem (1943), A paixão segundo G.H. (1964), A hora da estrela (1977) e os contos de Laços de família (1960) e A legião estrangeira (1964). Clarice morreu em 1977, vítima de câncer, deixando Um sopro de vida inacabado.

Um sopro de vida é um livro que desafia as convenções do gênero romanesco, pois não possui uma trama linear, nem um enredo definido, nem uma estrutura tradicional de capítulos. O livro é uma espécie de fluxo de consciência dos personagens, que se comunicam através da escrita, mas nunca se encontram fisicamente. O autor e Angela são duas faces da mesma moeda, duas vozes que se complementam e se contradizem, duas pulsões de vida e de morte. O livro é, ao mesmo tempo, uma metáfora da criação literária e uma confissão autobiográfica de Clarice, que se identifica com Angela e com o autor.

Um sopro de vida é uma obra que impressiona pela beleza e pela intensidade de sua linguagem, que busca captar o indizível e o inefável da existência humana. O livro é repleto de frases marcantes, que revelam o pensamento e o sentimento dos personagens, como:

  • "Eu escrevo como se fosse para salvar a vida de alguém. Provavelmente a minha própria vida."
  • "Há tantos anos me perdi de vista que hesito em procurar me encontrar. Estou com medo de começar. Existir me dá às vezes tal taquicardia. Eu tenho tanto medo de ser eu. Sou tão perigoso. Me deram um nome e me alienaram de mim."
  • "Viver é uma espécie de loucura que a morte faz."
  • "Na hora de minha morte - que é que eu faço? Me ensinem como é que se morre. Eu não sei."

Um sopro de vida é um livro que se diferencia dos demais títulos de Clarice Lispector por ser o mais experimental e fragmentário de sua obra. O livro não tem uma unidade formal, mas sim uma unidade temática, que gira em torno da questão da vida e da morte, da criação e da destruição, do eu e do outro. O livro também se aproxima de outros títulos de Clarice por explorar a dimensão metafísica e mística da realidade, por questionar os limites da linguagem e da comunicação, e por expressar a angústia e a solidão do ser humano.

Um sopro de vida é um livro que ensina e aprende com o leitor, que é convidado a participar da construção do sentido da obra. O livro não oferece respostas prontas, mas provoca o leitor a refletir sobre sua própria existência, sobre sua relação com a escrita e com a leitura, sobre sua busca por um sentido para a vida. O livro é um desafio e uma provocação, que exige do leitor uma postura ativa e crítica, mas também sensível e aberta.

Um sopro de vida é um livro que tem como personagens principais o autor e Angela Pralini, mas que também conta com a presença de outros personagens secundários, que aparecem nas lembranças e nos sonhos dos protagonistas. Entre eles, estão:

  • O pai do autor, que morreu quando ele era criança, e que representa a figura de autoridade e de afeto que ele perdeu.
  • A mãe do autor, que se casou novamente após a morte do marido, e que representa a figura de rejeição e de culpa que ele sente.
  • O irmão do autor, que se suicidou, e que representa a figura de rivalidade e de identificação que ele tem.
  • O marido de Angela, que a abandonou, e que representa a figura de amor e de ódio que ela tem.
  • O filho de Angela, que morreu no parto, e que representa a figura de esperança e de dor que ela tem.

Um sopro de vida é um livro que foi escrito no período histórico da ditadura militar no Brasil, que durou de 1964 a 1985. O livro não faz referências explícitas ao contexto político e social da época, mas reflete o clima de opressão, de violência, de censura e de resistência que marcaram esse período. O livro também expressa a visão de mundo de Clarice Lispector, que foi uma mulher à frente de seu tempo, que rompeu com os padrões estéticos e morais de sua sociedade, que viveu em vários países e que teve uma experiência multicultural e cosmopolita.

Um sopro de vida é um livro que tem uma importância e uma relevância cultural imensas, pois representa o legado de uma das maiores escritoras brasileiras de todos os tempos, que influenciou e continua influenciando gerações de leitores e de escritores. O livro é uma obra-prima da literatura brasileira e mundial, que se destaca pela originalidade e pela profundidade de sua forma e de seu conteúdo, que desafia as categorias e as convenções literárias, que propõe uma nova forma de pensar e de sentir a realidade, que transcende as fronteiras do tempo e do espaço, que dialoga com outras artes e outras culturas, que toca o leitor em sua essência e em sua existência.

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