[RESENHA #858] O lustre, de Clarice Lispector

Apesar de sua absoluta beleza, O lustre talvez seja, entre as excepcionais obras de Clarice Lispector, a menos comentada. Dele, quase não se pode falar (e sim absorvê-lo), pois não contém aquelas matérias de que se servem os romances para auxiliar-nos a fixar os acontecimentos. Embora bem pouco ocorra, sabe o leitor que algo terrivelmente forte e de grande densidade está sendo posto em movimento, expandindo-se sem cessar, não por meio de uma progressão de fatos, mas por experimentos da língua, o seu âmago, a um tempo polida e selvagem. As econômicas falas, as cenas descritas e as apreciações sobre o mundo exterior inserem-se em um campo verbal regido pelo fenômeno do fermentar, sendo as páginas cada vez mais e mais acrescidas de camadas e camadas de vocábulos, imagens e pensamentos providos (e geradores) de uma justeza estética, filosófica e afetiva inigualável. Sem defender ideias, apresenta-se o próprio ato de pensar, seu minucioso processo de formação, constituído de súbitas clarividências e de assombroso vigor, lançando-nos na crua e complexa materialidade das articulações mentais ― imaginação e pensamento, por frases límpidas e, contudo, cheias daquela violência de vida que raríssimas obras são capazes de atingir. Conviver com toda espécie de coisas: as comuns, as rudes, as excluídas. Aproximar-se dos múltiplos estados de espírito, extrair-lhes os necessários nutrientes. E assim fortalecer a vontade, para então ser capaz de escalar a existência, ir de um ponto a outro, ampliando a visão e o saber. Não se trata portanto de um livro ou de uma história a ser contada. Trata-se de valiosa e impressionante operação de arte. Por isso não é possível reter na memória, senão naquela que se encontra distribuída por todo o corpo, envolvendo especialmente a respiração e o sangue.

RESENHA

O romance “O Lustre” de Clarice Lispector, publicado em 1946, conta a história de Virgínia, uma mulher que parece marcada pelo mal desde a infância. A obra é permeada pela interiorização dos personagens, pela percepção de sentimentos ruins, ódios, amores, culpas, euforias, tristezas, medo, angústia, sentimentos íntimos que falam pela própria alma. A obra traz uma imensa simbologia: um chapéu de um afogado que aparece no início e no fim do livro, um lustre, um casarão onde Virgínia e o irmão, Daniel, passam a infância. As lembranças da infância com o irmão marcam o pensamento de Virgínia e sua experimentação com perversidades, onde ela e o irmão são agentes ou vítimas um do outro, em uma relação incestuosa. Nas brincadeiras de infância entre os dois irmãos, o menino exercita sua maldade e Virgínia é o instrumento de obtenção daquele prazer. O obra se passa em tom saudosista, com sofrimento e cheia das lembranças da personagem, não existe uma divisão de capítulos, apenas o pensamento de Virgínia, que vive em uma constante solidão, seja na Granja Quieta, onde vivia na infância, no interior, seja na cidade grande onde vai viver. O trem, mais um símbolo, que lembra Virgínia que ela foi embora do casarão sem ter olhado para o lustre. Tenta voltar a viver no casarão, na tentativa de, também, voltar ao passado, apegando-se aos poucos bens da casa, que restaram da falência, mas a solidão parece ser ainda maior: os quartos vazios, a enorme sala de jantar, os tapetes, o lustre, tudo isso aumenta sua inquietação. Sofre por isso, por ver a infância perdida, o passado morto e tudo, até mesmo a relação com o irmão e a tentativa de ter um amante, terem se frustrado. Olha perdidas vezes para a luz do antigo lustre, como se esperasse por algo, quem sabe até mesmo a própria morte. E, assim, numa imensa solidão, Virgínia morre atropelada por um carro e é reconhecida apenas pelo chapéu marrom, o mesmo do início do romance.

Clarice Lispector nasceu em 1920 na Ucrânia e veio para o Brasil ainda criança. É considerada uma das maiores escritoras brasileiras do século XX. Sua obra é marcada por uma linguagem poética e introspectiva, que explora a complexidade da alma humana. Além de “O Lustre”, Lispector é autora de outros romances importantes, como “Perto do Coração Selvagem”, “A Paixão Segundo G.H.” e “A Hora da Estrela”. Seus livros são conhecidos por abordar temas como a solidão, a incomunicabilidade, a busca pela identidade e a relação entre o homem e o mundo. A obra de Clarice Lispector é considerada uma das mais importantes da literatura brasileira e tem grande relevância cultural.

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