[RESENHA #856] A bela e a fera, de Clarice Lispector

A bela e a fera é uma das obras de Clarice Lispector que exalam a capacidade criadora e o poder de imaginação da estrela maior da literatura de autoria feminina no Brasil. As ideias que nutrem estes oito contos, escritos em 1940 e 1941 (parte I) e 1977 (parte II), recriam uma atmosfera a partir de situações cotidianas corriqueiras que termina por despertar no leitor a sensação do insólito que há em nossas vidas. Ninguém consegue ficar indiferente a essas ideias. Elas estimulam o lado mais criativo e belo que há em cada um de nós, talvez porque "o nascimento de uma ideia é precedido por uma longa gestação" – como nos diz a narradora de "História interrompida".

Leitora de Heidegger, Clarice nos transmite a visão de que a tranquilidade e a normalidade do cotidiano são aparentes, e o que importa é uma compreensão mais profunda do ser humano. Capaz de construir enredos e personagens inusitados a partir das situações mais banais que cada um de nós vivencia, ela nos dá a chave para romper com uma realidade que em geral é vista como imóvel ou imutável. Por isso, esta obra, como todas as suas outras, é uma lição de vida. O tom confessional de diário, de conversa ao pé do ouvido, que é a tônica de seu estilo, registra, nestes contos, a enigmática reação das personagens femininas contra a repressão patriarcal, e mostra que a conquista da independência da mulher passa pela busca do próprio eu: "Senti que podia. Fora feita para libertar. Libertar era uma palavra imensa, cheia de mistérios e dores" – já descobrira Tuda, a protagonista adolescente de "Gertrudes pede um conselho".

― Luiza Lobo, Professora da Faculdade de Letras da UFRJ, escritora e tradutora

RESENHA

“A Bela e a Fera” é uma coletânea de oito contos escritos por Clarice Lispector entre 1940 e 1977. A obra apresenta personagens femininas em busca de sentido em suas vidas, algumas trágicas, outras banais, outras simplesmente comuns e que, como diz o título, põem em dúvida sobre quem é a bela e quem é a fera 

Clarice Lispector nasceu em 10 de dezembro de 1920, na Ucrânia, e faleceu em 9 de dezembro de 1977, no Rio de Janeiro, Brasil. Ela é considerada uma das maiores escritoras do século XX e uma das mais importantes figuras literárias do Brasil. Lispector é conhecida por sua prosa poética, introspectiva e filosófica, que explora temas como identidade, existência, amor, morte e transcendência 

“A Bela e a Fera” foi publicado pela primeira vez em 1979, dois anos após a morte de Lispector. Desde então, a obra passou por diversas edições e reedições, sendo uma das mais populares e aclamadas da autora 

Os contos foram escritos em diferentes períodos históricos, mas todos compartilham a mesma sensibilidade e profundidade que caracterizam a obra de Lispector. Alguns dos ensinamentos e aprendizados que a obra fornece incluem a importância da autoaceitação, a busca por um sentido na vida, a complexidade das relações humanas e a beleza da imperfeição 

A lista de personagens varia de conto para conto, mas todos apresentam personagens femininas em busca de si mesmas e de um propósito na vida. Algumas das citações marcantes da obra incluem:

  • “Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento” 1.
  • “O que me assusta não são as ações e os gritos das pessoas más, mas a indiferença e o silêncio das pessoas boas” 

Em comparação com outros títulos de Lispector, “A Bela e a Fera” apresenta uma temática mais unificada, centrada na busca por sentido e identidade feminina. No entanto, a prosa poética e a profundidade filosófica que caracterizam a obra de Lispector estão presentes em todos os seus trabalhos 

“A Bela e a Fera” é uma obra importante e relevante culturalmente, que explora temas universais e atemporais. A coletânea é uma excelente introdução à obra de Clarice Lispector e uma leitura obrigatória para todos aqueles que buscam uma reflexão profunda sobre a vida e a existência humana 

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