[RESENHA #855] A via crucis do corpo, de Clarice Lispector


Cuidado, leitor, este livro requer coragem. Parece ser o desafio lançado por Clarice Lispector no prefácio "Explicação" de A via crucis do corpo, livro de 1974. Nele, a autora simula uma Clarice diferente da que os leitores estavam acostumados desde sua primeira obra, Perto do coração selvagem, de 1944. No entanto, ela é a mesma de sempre, a que nunca se recusou a fitar com os olhos abertos a selvageria do desejo humano, da avidez humana, da sordidez humana. O que se modificou foi o espanto se convertendo em escândalo, o sobressalto em ferocidade. Neste livro, Clarice está próxima à literatura maldita ou, como quer Georges Bataille, próxima à literatura do mal. Afrontando os limites morais, a autora adverte: "Fiquei chocada com a realidade. Se há indecências nas histórias a culpa não é minha." O deslocamento da noção de indecência para o âmbito total da realidade cria um estado de perplexidade no leitor que poderá levá-lo a exclamar como a própria narradora de um dos contos: "A vida era isso, então? essa falta de vergonha?" São 14 textos ficcionais – 13 contos mais o prefácio "Explicação" – compondo para o leitor um panorama de vicissitudes do corpo – o grande personagem destas histórias. O corpo nos seus desarranjos pulsionais, na tirania de seus desejos, nas suas fraturas e feridas, nos seus êxtases. O corpo como bênção e maldição. Como tudo que excede, o que sobra, mas que não chega nunca a suprir a falta primordial. Enigmático e severo, óbvio e exultante.

Além do ousado tratamento temático da paixão do corpo (paixão entendida etimologicamente como pathos), o estilo de Clarice está mais depurado e enxuto neste pequeno livro. À primeira vista, se poderia pensar no estilo realista. Não se engane, todavia, leitor: nada é tão simples nem tão evidente quanto parece. O realismo destas histórias encontra-se sob forte pressão e o efeito é sempre desconcertante, tal como no detalhe final do fecho narrativo do conto "Melhor do que arder":

"Tiveram quatro filhos, todos homens, todos cabeludos."

Aceite o desafio e enfrente o desconcerto, caro leitor. A literatura de Clarice tem força.

― ANA CRISTINA CHIARA, Profª. Adjunta de Literatura Brasileira na UFRJ

RESENHA

A via crucis do corpo é um livro de contos da escritora brasileira Clarice Lispector, publicado em 1974. A obra reúne 13 histórias que exploram a relação entre o corpo e a alma, o desejo e a solidão, o erotismo e o sofrimento, sob o olhar misterioso e inovador da autora. Clarice Lispector é considerada uma das maiores escritoras do século XX, com uma linguagem poética, introspectiva e original, que rompe com os padrões narrativos tradicionais.

Os contos do livro abordam temas como a velhice, a virgindade, a prostituição, o estupro, o adultério, o homossexualismo, a maternidade, a loucura, a morte, a religião e a arte, sempre com uma perspectiva feminina e marginal. As personagens são mulheres de diferentes idades, classes sociais e personalidades, que vivem situações-limite, conflitos existenciais e experiências transcendentais. Clarice Lispector utiliza o corpo como um símbolo da condição humana, marcada pela dor, pelo pecado, pela paixão e pela busca de sentido.

O livro causou polêmica na época de sua publicação, por ser uma obra escrita por encomenda, com a proposta de ser erótica. Alguns críticos reagiram negativamente, acusando a autora de vulgaridade, banalidade e decadência. No entanto, a obra revela a genialidade de Clarice Lispector, que soube criar contos provocativos, irônicos, humorísticos e sensíveis, dialogando com outros autores da literatura erótica e pornográfica brasileira, como Nelson Rodrigues e Dalton Trevisan. Além disso, a obra mostra a versatilidade da escritora, que trabalhou com diferentes dicções, estilos e gêneros, desde o realismo ao fantástico, do drama à comédia, da crônica ao ensaio.

Algumas citações marcantes do livro são:

  • “O corpo é uma dádiva. E é um inferno” (O corpo, p. 27).
  • “Não se sabe se essa criança teve que passar pela via crucis. Todos passam” (Via crucis, p. 41).
  • “O amor é tão mais fatal do que eu havia pensado, o amor é tão inerente quanto a própria carência, e nós somos garantidos por uma necessidade que se renovará continuamente. O amor já está, está sempre. Falta apenas o golpe da graça - que se chama paixão” (O ovo e a galinha, p. 57).
  • “Ela era uma mulher que amava Deus. Mas não sabia rezar. E nem precisava. Porque amar é a oração mais profunda” (A mensagem, p. 75).
  • “O que me tranquiliza é que tudo o que existe, existe com uma precisão absoluta. O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete não transborda nem uma fração de milímetro além do tamanho de uma cabeça de alfinete. Tudo o que existe é de uma grande exatidão” (Precisão, p. 87).

A via crucis do corpo é um livro que reflete o período histórico em que foi escrito, marcado pela ditadura militar, pela censura, pela repressão, pela violência, pela contestação, pela liberação sexual, pela contracultura, pela busca de novas formas de expressão e de resistência. Clarice Lispector, que viveu parte de sua vida no exterior, acompanhou as transformações sociais, políticas e culturais do Brasil e do mundo, e as incorporou em sua obra, de forma crítica, criativa e original.

A obra também revela aspectos da biografia da autora, que nasceu na Ucrânia, em 1920, e veio para o Brasil com a família, de origem judaica, fugindo da perseguição aos judeus durante a Guerra Civil Russa. Clarice Lispector cresceu em Recife, onde aprendeu a ler e a escrever, e se mudou para o Rio de Janeiro, onde se formou em Direito e iniciou sua carreira de jornalista e escritora. Casou-se com um diplomata, com quem teve dois filhos, e viajou por vários países, como Itália, Suíça, Inglaterra e Estados Unidos. Separou-se do marido em 1959 e voltou ao Brasil, onde continuou a escrever livros, contos, crônicas e literatura infantil. Em 1966, sofreu um grave acidente doméstico, que a deixou com sequelas físicas e psicológicas. Morreu em 1977, vítima de câncer de ovário.

A via crucis do corpo é um livro de grande importância e relevância cultural, pois representa uma das obras mais ousadas, originais e inovadoras da literatura brasileira, que desafia os limites entre o sagrado e o profano, o sublime e o grotesco, o belo e o feio, o amor e o ódio, o prazer e a dor. Clarice Lispector é uma escritora que transcende as fronteiras do tempo, do espaço e da linguagem, e que nos convida a uma reflexão profunda sobre a condição humana, em toda a sua complexidade, contradição e mistério.

A via crucis do corpo é um livro que merece ser lido, relido e apreciado por todos os que amam a literatura, a arte e a vida. Clarice Lispector é uma escritora que nos surpreende, nos emociona, nos provoca, nos ensina e nos inspira. Sua obra é uma via crucis, mas também uma via luminosa, que nos leva a uma experiência estética e existencial única e inesquecível.

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