[RESENHA #854] Para não esquecer, de Clarice Lispector

 “Então escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra." Nesta frase antológica de Clarice existe uma chave para o entendimento do poderoso efeito que seus textos produzem no leitor. Clarice não retrata coisas, fatos ou estados d'alma. O que pode ser dito de modo claro e inequívoco não é bem o que lhe interessa. Mesmo quando parece descrever objetivamente coisas ou acontecimentos, há algo em suas observações que encanta ou perturba o leitor, sem que ele saiba sempre exatamente por quê. O que move sua escritura é a ambição de tornar presente a entrelinha, o sentimento sem nome, os ecos, as ressonâncias, as sensações informuladas, "a realidade mais delicada e mais difícil, menos visível a olho nu”.

Sua magia é essa. Ela usa palavras como Cézanne manipula suas tintas, como Debussy organiza suas notas e harmonias: para trazer à tona o que de outro modo permaneceria oculto, velado silencioso, na experiência do público. Clarice possui essa magistral capacidade de roçar com palavras aquilo que está um pouco além do que nossa percepção alcança imediatamente. Usando palavras comuns, ela descobre novos mundos. Mas ao utilizar sua matéria-prima, a linguagem, sua pretensão nunca é dar nome aos bois, explicitar sentidos, decifrar enigmas. Ao contrário. Para Clarice, "o esplendor de se ter uma linguagem" deriva justamente do fato de que o milagre da significação jamais se realiza por completo. Escrever, assim como viver, é deixar-se afetar, sofrer o impacto do que não sabemos designar, experimentar o mistério, inventar modos de nomeá-lo, e renunciar a tudo entender.

Mergulhar na leitura das crônicas, relatos e fragmentos contidos em Para não esquecer é explorar, junto com Clarice, os recantos clandestinos de nosso cotidiano.

― BENILTON BEZERRA JR., Prof. do Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro

RESENHA

Para não esquecer é uma coletânea de 108 textos curtos, que reúne crônicas, contos, aforismos, reflexões, piadas e outros gêneros literários, escritos por Clarice Lispector entre 1967 e 1973. A obra, publicada postumamente em 1978, revela a versatilidade e a originalidade da escritora ucraniana naturalizada brasileira, que se consagrou como uma das maiores vozes da literatura nacional do século XX.

O livro não segue uma ordem cronológica ou temática, mas apresenta uma variedade de assuntos e estilos, que demonstram a capacidade de Clarice de transitar entre o cotidiano e o transcendente, entre o concreto e o abstrato, entre o humor e a melancolia. Em seus textos, a autora aborda temas como a arte, a escrita, a família, a solidão, a morte, a política, a religião, a infância, o amor, a amizade, a natureza, os animais, os objetos e as pessoas que cruzaram seu caminho.

Clarice Lispector é conhecida por sua linguagem poética, que busca expressar o indizível, o mistério, o sentido da existência. Suas frases são marcantes, provocativas, instigantes, às vezes enigmáticas, às vezes irônicas, mas sempre carregadas de emoção e sensibilidade. Algumas citações que ilustram seu estilo são:

"Escrever é uma maldição que salva. É uma maldição porque obriga e arrasta. Salva porque salva o dia que se viveu e que nunca se entendeu a menos que se escreva."

"Eu sou tão misteriosa que não me entendo."

"Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento."

"Amar é dar o que não se tem a alguém que não o quer."

"Não me prendo a nada que me defina. Sou companhia, mas posso ser solidão. Tranquilidade e inconstância, pedra e coração. Sou abraços, sorrisos, ânimo, bom humor, sarcasmo, preguiça e sono. Música alta e silêncio. Serei o que você quiser, mas só quando eu quiser."

O livro também revela aspectos biográficos e históricos da vida de Clarice, que nasceu na Ucrânia em 1920, fugiu da perseguição aos judeus durante a Guerra Civil Russa, chegou ao Brasil com dois meses de idade, viveu em Maceió, Recife e Rio de Janeiro, formou-se em Direito, casou-se com um diplomata, viajou pelo mundo, teve dois filhos, separou-se, sofreu um acidente que a deixou com sequelas, enfrentou um câncer e morreu em 1977, um dia antes de seu aniversário. Em seus textos, ela faz referências a lugares que visitou, pessoas que conheceu, acontecimentos que presenciou, sentimentos que experimentou, dificuldades que superou e sonhos que realizou ou não.

Para não esquecer é um livro que convida o leitor a mergulhar no universo de Clarice Lispector, a acompanhar seu olhar sobre o mundo, a compartilhar suas angústias e alegrias, a se surpreender com suas descobertas e questionamentos, a se emocionar com sua humanidade e sua arte. É um livro que não se esgota em uma leitura, mas que se renova a cada releitura, oferecendo novas possibilidades de interpretação e de identificação. É um livro que não se pode esquecer, pois marca a memória e o coração de quem o lê.

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