[RESENHA #851] As coisas que a gente fala, de Ruth Rocha

As Palavras Podem Nos Parecer Duras, Suaves, Feias, Bonitas, Tristes, Alegres... Expressam Tanto Verdades Como Mentiras, Portanto Devem Ser Bem Dimensionadas Antes De Ser Ditas. Este Livro Possibilita Discussões Sobre Ética Nos Relacionamentos E As Consequências Das Palavras Mal Avaliadas. Escrito Em Forma De Poema Narrativo.

RESENHA 

As coisas que a gente fala é um livro infantil escrito em versos rimados pela renomada autora brasileira Ruth Rocha, que já publicou mais de duzentos livros para crianças e jovens, entre eles o clássico Marcelo, marmelo, martelo. Neste livro, lançado em 2009 pela editora Salamandra, Ruth Rocha aborda o tema da mentira e suas consequências, através da história de Gabriela, uma menina que quebra o vaso de ouro e laquê da mãe e acusa o vizinho Filisteu, causando uma grande confusão.

O estilo de Ruth Rocha é leve, divertido e criativo, capaz de envolver o leitor com sua linguagem coloquial e expressiva. A autora utiliza recursos poéticos, como a rima, a aliteração, a assonância e a onomatopeia, para dar ritmo e musicalidade aos versos, tornando a leitura mais agradável e lúdica. Por exemplo, no trecho:

"Mas, quando a pessoa presente é pessoa distraída, não presta muito a atenção, então as palavras entram e saem pelo outro lado, sem fazer complicação!"

A autora brinca com as repetições de sons e sílabas, criando um efeito sonoro que imita o movimento das palavras que entram e saem pelos ouvidos.

Os principais personagens do livro são Gabriela, a protagonista mentirosa, Filisteu, o vizinho inocente, e seus respectivos pais, que se envolvem na confusão causada pela mentira de Gabriela. Os personagens são retratados com humor e simplicidade, sem muita profundidade psicológica, mas com características que os tornam identificáveis e próximos da realidade das crianças. Por exemplo, Gabriela é descrita como uma menina "muito simpática e levada, mas talvez levada demais", que gosta de inventar histórias e se meter em encrencas. Filisteu é um menino "muito educado e obediente, mas talvez obediente demais", que não consegue se defender das acusações de Gabriela e sofre as consequências.

O ensinamento principal da obra é que a mentira pode trazer problemas e prejudicar as relações de confiança e amizade entre as pessoas. A autora mostra, com humor e ironia, como a mentira de Gabriela se espalha e se transforma, gerando mal-entendidos e confusões entre os personagens. Por exemplo, quando Gabriela diz que Filisteu quebrou o vaso, seu pai entende que ele quebrou o braço, e vai correndo socorrê-lo. Quando chega na casa do vizinho, ele vê que o braço está inteiro, mas o vaso está quebrado, e fica furioso com o filho. Quando Filisteu vai conversar com Gabriela, ela diz que foi um gato que quebrou o vaso, e ele acredita. Quando o pai de Gabriela volta para casa, ele vê o gato e pensa que ele é o culpado, e o expulsa de casa. E assim por diante, até que a verdade vem à tona e todos se desculpam.

O livro não se situa em um período histórico específico, mas pode ser considerado contemporâneo, pois retrata situações cotidianas e familiares que podem acontecer em qualquer época e lugar. O cenário da história é uma rua onde moram Gabriela e Filisteu, e suas respectivas casas. A ilustração de Renato Moriconi, que acompanha o texto, contribui para criar uma atmosfera divertida e colorida, com traços simples e expressivos, que retratam as emoções e as ações dos personagens.

Algumas citações marcantes do livro são:

"As coisas que a gente fala saem da boca da gente e vão voando, voando correndo sempre pra frente. Entrando pelos ouvidos de quem estiver presente."

"Gabriela era uma menina muito simpática e levada, mas talvez levada demais. Gostava de inventar histórias e de se meter em encrencas."

"Filisteu era um menino muito educado e obediente, mas talvez obediente demais. Não gostava de discutir e de se meter em confusões."

"Gabriela ficou vermelha e baixou a cabeça. Pediu desculpas a todos e prometeu que não ia mais mentir. E todos ficaram contentes e voltaram a ser amigos."

O livro não apresenta uma simbologia explícita, mas pode-se interpretar o vaso de ouro e laquê como um símbolo da fragilidade e do valor da verdade, que pode ser facilmente quebrada e perdida por uma mentira. O gato, que é acusado injustamente por Gabriela, pode ser um símbolo da inocência e da lealdade, que são traídas pela mentira. O fato de as palavras saírem voando e entrarem pelos ouvidos das pessoas pode ser um símbolo da comunicação e da influência que as palavras têm sobre as pessoas.

A importância e a relevância cultural do livro estão relacionadas à sua contribuição para a formação de leitores críticos e conscientes, que possam refletir sobre os valores éticos e morais envolvidos na história. O livro também estimula a imaginação e a criatividade dos leitores, que podem se divertir com as rimas e as situações cômicas da narrativa. Além disso, o livro faz parte da obra de Ruth Rocha, uma das mais importantes e premiadas autoras de literatura infantojuvenil do Brasil, que tem uma vasta e diversificada produção, que abrange desde contos de fadas, lendas, mitos, fábulas, até histórias sobre temas sociais, políticos, culturais e educacionais.

Ruth Rocha nasceu em São Paulo, em 1931. Formou-se em Ciências Políticas e Sociais pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Foi orientadora educacional e editora. Começou a escrever sobre educação para a revista Cláudia, em 1967. Em 1969, começou a escrever histórias infantis para a revista Recreio. Em 1976, teve seu primeiro livro editado. De lá para cá, publicou mais de duzentos livros no Brasil e vinte no exterior, em dezenove diferentes idiomas. Recebeu diversos prêmios, entre eles, oito Jabutis, da Câmara Brasileira do Livro, e a Comenda da Ordem do Mérito Cultural, do Ministério da Cultura. Foi eleita para a cadeira 38 da Academia Paulista de Letras, em 2008.

As coisas que a gente fala é um livro que encanta e ensina, que diverte e educa, que mostra e questiona. É um livro que revela o talento e a sensibilidade de Ruth Rocha, uma das maiores escritoras brasileiras, que sabe como ninguém contar histórias para crianças e para adultos. É um livro que merece ser lido, relido, compartilhado e apreciado por todos que gostam de literatura de qualidade.

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