[RESENHA #840] Onde estivestes de noite, de Clarice Lispector


Os textos reunidos em Onde estivestes de noite desenham um conjunto heterogêneo, onde é possível identificar o tom das crônicas que Clarice Lispector publicava semanalmente em sua coluna do Jornal do Brasil de 1967 a 1973, reunidas em A descoberta do mundo (1984), como também certa crueza e humor que os aproxima daqueles publicados na mesma época em A via crucis do corpo (1974). Alguns dos textos, além disso, sofreram um deslocamento, pois já tinham sido publicados anteriormente (“Esvaziamento” e “Um caso complicado”), outros foram extraídos de romances e submetidos a ligeiras modificações, procedimentos que indiciam a urgência que a autora tinha de escrever para garantir sua sobrevivência.

Passo a passo, as narrativas vão compondo uma cartografia de impressões, sensações, notícias da vida carioca, onde figuram também amigos, referências afetivas e artísticas – Alberto Dines, Fauzi Arap, Raul Seixas, Marly de Oliveira, Nelson Rodrigues, Roberto Carlos, Angela Pralini, personagem que reaparece em Um sopro de vida, e também a escritora, uma "tal de Clarice"–, formando uma série de flashes fotográficos que cristalizam, em imagem, um instante no movimento sem parada da existência. É, aliás, movimento o eixo que enlaça as narrativas desta coletânea. As personagens estão sempre em trânsito. O movimento tanto pode ser obstinadamente direcionado, como pode carecer de leme, pode ter como horizonte a vida, ou a morte. Em qualquer circunstância, no entanto, há um sentimento de solidão e uma zona de silêncio que atravessam essas pequenas peças, o que não impede a narradora de “O relatório da coisa” de dizer: “Acorda-me, Sveglia, quero ver a realidade”, e continuar em frente.

 RESENHA

Onde estivestes de noite é um livro de contos da escritora brasileira Clarice Lispector, publicado em 1974. A obra reúne 19 textos que exploram temas como a solidão, a morte, o erotismo, a loucura, a violência e o mistério. Os contos são marcados pelo estilo inovador e subjetivo de Clarice, que rompe com as convenções narrativas tradicionais e cria uma linguagem poética e fragmentada, que busca expressar as angústias e os desejos mais profundos dos personagens.

Os personagens de Clarice são, em sua maioria, mulheres que vivem situações cotidianas, mas que revelam uma dimensão extraordinária e perturbadora da existência. Elas são confrontadas com seus medos, suas frustrações, suas paixões e seus limites, em uma busca incessante por um sentido para a vida. Clarice explora as contradições e as ambiguidades do ser humano, que oscila entre o amor e o ódio, a alegria e a tristeza, a esperança e o desespero, a razão e a loucura.

Alguns dos contos mais conhecidos do livro são: “A procura de uma dignidade”, que narra a história de uma mulher que se sente humilhada pelo marido e que tenta se vingar dele de uma forma inusitada; “Onde estivestes de noite”, que conta a experiência de uma mulher que participa de uma cerimônia secreta e macabra, onde as mulheres se entregam a um ritual de morte e renascimento; “Silêncio”, que mostra a relação conflituosa entre uma mãe e uma filha, que se comunicam apenas por cartas; “As águas do mar”, que descreve o encontro amoroso entre uma mulher casada e um homem desconhecido em uma praia; e “O ovo e a galinha”, que apresenta o monólogo de uma mulher que observa um ovo e reflete sobre sua origem e seu destino.

Clarice Lispector nasceu na Ucrânia em 1920, mas veio para o Brasil com sua família quando tinha apenas dois meses de idade. Ela se naturalizou brasileira e se considerava pernambucana. Ela estudou Direito, trabalhou como jornalista e diplomata, e se dedicou à literatura desde cedo. Ela publicou seu primeiro livro, Perto do coração selvagem, em 1943, e recebeu o Prêmio Graça Aranha. Ela escreveu romances, contos, crônicas e livros infantis, e é considerada uma das maiores escritoras brasileiras do século XX. Ela morreu em 1977, vítima de câncer de ovário.

Onde estivestes de noite é uma obra que revela a genialidade e a originalidade de Clarice Lispector, que soube criar uma literatura que transcende os limites da realidade e que penetra nas profundezas da alma humana. Seus contos são fascinantes e perturbadores, e nos convidam a uma reflexão sobre nós mesmos e sobre o mundo que nos cerca. Clarice Lispector é uma escritora que merece ser lida e admirada por todos que apreciam a arte da palavra.

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