[RESENHA #839] A cidade sitiada, de Clarice Lispector


Em 1971, Clarice Lispector disse ao jornal Correio da Manhã que A cidade sitiada, de 1949, foi seu livro mais difícil de escrever. Talvez porque, na história de Lucrécia Neves, o talento de Clarice tenha levado à perfeição o paradoxo de desumanizar ao máximo seus personagens para torná-los visceralmente humanos. A simplória protagonista Lucrécia, docemente desprovida de raciocínio e/ou de consciência, é alma gêmea de Macabéa, de A hora da estrela. Lucrécia é apenas o que ela vê: os cavalos a esmo na suburbana cidade natal de São Geraldo, o morro do Pasto, o armazém, o sol sem vento da tarde. Lucrécia portanto era São Geraldo. Sua alma, suas emoções eram o tédio do subúrbio. Ela tinha um vago desejo de se casar e, por isto, passeava com o tenente Felipe, do qual gostava da farda militar, mas ele não gostava de São Geraldo, logo não gostaria de Lucrécia. Saía com Perceu Maria, que desprezava talvez por ser atônito e vazio como ela. Mas nenhum dos dois a pedia em casamento e, quando a agonia do coração de Lucrécia batia em descompasso com a modorra da cidade, ela sonhava com um baile. Um baile com música e danças seria a salvação. Por pura catatonia, restou a Lucrécia o casamento com Mateus Correia, comerciante rico e bem mais velho, por iniciativa da mãe, Ana, à qual não oferecera entusiasmo ou resistência. Depois do casamento, Lucrécia continuou a ver diariamente o movimento do trânsito, da construção de um viaduto, das aranhas fazendo suas teias, os mosquitos. Via o marido e suas preocupações domésticas. Amava-o? Depois da morte de Mateus, Lucrécia, menos sitiada mas ainda não liberta, vai em busca de um homem de bom coração. Mas para ela o amor era difícil. Ela não o via e, portanto, não sabia o que era o amor. A cidade sitiada, como os demais títulos de Clarice Lispector relançados pela Rocco, recebeu novo tratamento gráfico e passou por rigorosa revisão de texto, feita pela especialista em crítica textual Marlene Gomes Mendes.

RESENHA

A cidade sitiada é um romance publicado em 1949 pela escritora brasileira Clarice Lispector, considerada uma das maiores vozes da literatura nacional do século XX. A obra pertence à terceira fase do modernismo, também chamada de geração de 45, que se caracteriza por uma linguagem mais depurada, uma busca pela essência humana e uma renovação dos gêneros literários.

O livro narra a história de Lucrécia Neves, uma jovem que vive no subúrbio de São Geraldo, na década de 1920, e que sonha em escapar da monotonia e da mediocridade de sua vida. Lucrécia se casa com Mateus Correia, um homem rico e mais velho, que a leva para morar na cidade grande, onde ela espera encontrar a felicidade e a realização. No entanto, ela se decepciona com a vida urbana, que lhe parece vazia e superficial, e sente saudades de sua terra natal, que também sofre transformações com o progresso e a modernização. Lucrécia se vê dividida entre dois mundos, sem se identificar com nenhum deles, e sem saber o que realmente deseja.

A obra é narrada em terceira pessoa, com um estilo conciso e poético, que revela a sensibilidade e a originalidade de Clarice Lispector. A autora explora os sentimentos e os pensamentos de Lucrécia, que se expressa mais pelo olhar do que pela palavra. A narrativa não segue uma ordem cronológica linear, mas sim uma sucessão de cenas e impressões, que compõem um mosaico da vida da personagem. O livro é dividido em doze capítulos, que podem ser lidos como contos independentes, mas que se relacionam entre si pela temática e pela simbologia.

A cidade sitiada é uma obra que aborda temas universais, como a solidão, a angústia, a busca por identidade, o confronto entre o campo e a cidade, a alienação e a incomunicabilidade. A cidade é um símbolo da opressão, da violência, da desumanização e da perda de valores, enquanto o subúrbio representa a nostalgia, a simplicidade, a inocência e a resistência. Lucrécia é uma personagem que reflete a condição humana diante de um mundo em constante mudança, que exige adaptação e escolhas. Ela é uma mulher que tenta se libertar dos padrões impostos pela sociedade, mas que não encontra seu lugar nem sua voz.

A obra é uma das mais importantes e representativas da literatura brasileira, pois mostra a capacidade de Clarice Lispector de criar uma linguagem própria, que transcende os limites do realismo e se aproxima da poesia. A autora consegue retratar a complexidade e a profundidade da alma humana, com uma sensibilidade e uma beleza incomparáveis. A cidade sitiada é um livro que merece ser lido e relido, pois oferece ao leitor uma experiência estética e existencial única.

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