[RESENHA #838] Quase de verdade, de Clarice Lispector


Lançado postumamente, em 1978, Quase de verdade tem como protagonista a força da fantasia e do pensamento na transfiguração da “realidade”. Ao lado de Água viva (1973), A hora da estrela (1977) e Um sopro de vida (1978), obras destinadas ao público adulto, o infantojuvenil se caracteriza pela radicalização do mergulho na linguagem e do questionamento de conceitos como realidade/fantasia, verdade/mentira, normalidade/mágica. “Pois não é que vou latir uma história que até parece de mentira e até parece de verdade?”, diz o narrador, Ulisses, que assegura: “sou um cachorro quase normal. Ah, esqueci de dizer que sou um cachorro mágico: adivinho tudo pelo cheiro: Isto se chama ter faro.” Nesta obra, marcada pelo traço autobiográfico, a história que Ulisses “late” para sua dona, Clarice, é apenas o ponto de partida para o mergulho num mundo fantástico. Com vontade de “ganhar muito dinheiro”, uma figueira invejosa “que não dá figos” traça um plano para obrigar galinhas a colocarem ovos continuamente. Ajudada por uma bruxa, a árvore consegue ficar acesa todas as noites, como se o sol batesse nas suas folhas. As galinhas, “pensando que era sempre dia”, passam a produzir ovos sem descanso. No entanto, as aves decidem se rebelar e “exigir seus direitos”. Estrategicamente, se posicionam no alto dos galhos da figueira “ditatorial”, a fim de que os ovos se quebrem ao caírem no chão. Por fim, o plano se frustra, o feitiço acaba e a paz retorna ao galinheiro.

RESENHA

Quase de Verdade é um livro infantil escrito pela consagrada autora brasileira Clarice Lispector, publicado em 1978, um ano após sua morte. A obra é narrada pelo cachorro Ulisses, que late suas histórias para Clarice, que as escreve. Ulisses conta uma aventura que viveu em uma fazenda, onde conheceu uma figueira invejosa, uma bruxa malvada, um gato esperto, uma galinha corajosa e duas nuvens mágicas.

O livro é uma mistura de realidade e fantasia, de verdade e mentira, de humor e crítica. Clarice Lispector usa uma linguagem simples e divertida, mas também poética e profunda, para abordar temas como a amizade, a liberdade, a justiça, a ganância, a inveja, o bem e o mal. A autora brinca com as palavras, criando nomes curiosos para os personagens, como Oníria, Ovídio, Oxalá, Odissea, Onofre, Oxelia e Oquequê.

O livro também pode ser lido como uma alegoria do contexto histórico e político do Brasil nos anos 70, marcado pela ditadura militar, pela censura e pela repressão. A figueira, que quer explorar as galinhas e ficar rica, representa o poder autoritário e opressor. As galinhas, que se rebelam contra a figueira e recuperam sua dignidade, representam o povo que luta por seus direitos e sua liberdade. A bruxa, que ajuda a figueira a enganar as galinhas, representa os meios de comunicação que manipulam a informação e alienam as massas. O gato, que se alia às galinhas e as ajuda a escapar da figueira, representa os intelectuais e os artistas que resistem à ditadura e denunciam seus abusos.

Clarice Lispector foi uma das mais importantes escritoras brasileiras do século XX, reconhecida por sua originalidade e sua inovação literária. Nascida na Ucrânia, em 1920, veio para o Brasil com sua família, que fugia da perseguição aos judeus durante a Guerra Civil Russa. Naturalizada brasileira, Clarice se considerava pernambucana, pois foi em Recife que passou sua infância. Formada em Direito, trabalhou como jornalista e publicou seu primeiro livro, Perto do Coração Selvagem, em 1943, recebendo o Prêmio Graça Aranha. Casou-se com um diplomata e viveu em vários países, como Itália, Suíça, Inglaterra e Estados Unidos. Separou-se em 1959 e voltou ao Rio de Janeiro com seus dois filhos. Escreveu romances, contos, crônicas, ensaios e livros infantis, sendo premiada e aclamada pela crítica e pelo público. Morreu em 1977, vítima de câncer de ovário.

Quase de Verdade é um livro que encanta e surpreende os leitores de todas as idades, pela sua criatividade, sua sensibilidade e sua inteligência. Clarice Lispector mostra que a literatura infantil pode ser ao mesmo tempo lúdica e reflexiva, divertida e séria, simples e complexa. O livro é uma obra-prima da literatura brasileira, que merece ser lida e relida, apreciada e admirada. Como diz o próprio Ulisses, no final do livro: “E agora, engole-se ou não o caroço de jabuticaba?”

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