[RESENHA #837] Correio feminino, de Clarice Lispector

Em Correio Feminino, mais do que a escritora consagrada, é a “jornalista feminina” que se apresenta ao leitor. A Clarice Lispector que aceita o convite do cronista Rubem Braga e se aventura na elaboração de páginas dedicadas às mulheres no periódico Comício, criado em 1952, protegida sob o pseudônimo de Tereza Quadros. A Clarice que, no início dos anos 60, dá conselhos de beleza e dicas de como manter uma personalidade cativante para conquistar o bem-amado, dessa vez com o pseudônimo de Helen Palmer, nas páginas do Correio da Manhã. Ou ainda a ghost writer de Ilka Soares na coluna “Só para mulheres”, publicada no Diário da Noite. Em todas elas, a escritora vasculha o universo da mulher, em conselhos e reflexões. Correio feminino, que reproduz através de fac-símiles os textos publicados na imprensa em sua versão original, é, acima de tudo, uma deliciosa viagem no tempo. Em tom de uma conversa entre amigas, Clarice Lispector fala sobre os afazeres da casa, as dificuldades da mulher emancipada para conciliar a dupla jornada de trabalho, os cuidados com a beleza e os segredos da elegância. Em muitos textos, é possível identificar a gênese do que viria a ser um conto da consagrada escritora. É o caso da coluna intitulada “Meio cômico, mas eficaz”, que traz, além de uma receita para matar baratas, os ingredientes do que seria o conto “A Quinta história”.

 RESENHA

Correio Feminino é um livro que reúne crônicas escritas por Clarice Lispector para jornais e revistas entre as décadas de 1950 e 1970, sob os pseudônimos de Ilka Soares, Helen Palmer e Tereza Quadros. Nesses textos, a autora aborda temas relacionados ao universo feminino, como moda, beleza, comportamento, amor, casamento, maternidade, trabalho, entre outros. O livro foi organizado por Aparecida Maria Nunes, que selecionou as crônicas a partir de uma pesquisa nos arquivos dos periódicos onde foram publicadas.

O estilo de Clarice Lispector é marcado pela sua sensibilidade, ironia, humor e originalidade. Ela consegue captar as nuances da alma humana, especialmente das mulheres, e expressá-las em uma linguagem poética e envolvente. Suas crônicas são breves, mas profundas, e revelam uma visão crítica e perspicaz da sociedade e da cultura de sua época. Clarice não se limita a dar conselhos ou dicas práticas, mas propõe reflexões e questionamentos sobre os valores, os desejos, os conflitos e as contradições que permeiam a vida das mulheres.

O livro não tem personagens fixos, mas apresenta diversas vozes femininas que dialogam com as leitoras, ora como amigas, ora como confidentes, ora como conselheiras. Clarice se coloca no lugar das mulheres comuns, que enfrentam problemas cotidianos, mas também sonham, sofrem, se alegram, se decepcionam e se reinventam. Ela aborda temas que ainda são atuais, como a violência doméstica, o machismo, a emancipação feminina, a autoestima, a sexualidade, a solidão, a felicidade, entre outros. Ela também mostra a diversidade das mulheres, suas diferentes idades, classes sociais, etnias, personalidades e estilos.

O livro traz vários ensinamentos para as leitoras, como a importância de se valorizar, de se cuidar, de se respeitar, de se expressar, de se conhecer, de se amar. Clarice incentiva as mulheres a buscarem sua própria identidade, sua liberdade, sua autonomia, sua realização pessoal e profissional. Ela também destaca a necessidade de se ter equilíbrio, bom senso, ética, responsabilidade, solidariedade, tolerância e compreensão nas relações humanas. Ela defende a ideia de que as mulheres podem e devem ser felizes, mas sem se submeterem aos padrões impostos pela sociedade, pela mídia, pela família ou pelo parceiro.


O livro contém várias citações marcantes, que demonstram a sabedoria, a criatividade e a elegância de Clarice. Algumas delas são:

- "Não se iluda, não se engane: a mulher que se veste bem, que se arruma bem, que se penteia bem, que se maquia bem, que se perfuma bem, que se calça bem, que se enfeita bem, que se porta bem, que se senta bem, que fala bem, que se comporta bem, que vive bem - essa mulher é muito mais mulher do que as outras." 

- "Não se esqueça de que a beleza é um segredo entre você e você mesma. E de que a felicidade é uma consequência." 

- "Não se case por dinheiro, nem por amor, nem por solidão, nem por nada. Case-se por você. Porque você quer. Porque você gosta. Porque você se sente bem. Porque você se completa. Porque você se realiza. Porque você se ama." 

- "Não se deixe levar pela opinião dos outros. Sua vida é sua. Você é que sabe o que quer, o que sente, o que pensa, o que faz. Você é que sabe o que é bom para você. Você é que sabe o que é certo para você. Você é que sabe o que é melhor para você. Você é que sabe o que é feliz para você." 

- "Não se preocupe em agradar a todo mundo. Isso é impossível. Preocupe-se em agradar a você mesma. Isso é possível. E é o que importa." 

O livro se situa no período histórico do pós-guerra, marcado por grandes transformações sociais, políticas, econômicas e culturais no Brasil e no mundo. Foi nesse contexto que surgiu o movimento feminista, que reivindicava direitos e oportunidades iguais para as mulheres, como o voto, a educação, o trabalho, o divórcio, a contracepção, entre outros. Clarice acompanhou e participou dessas mudanças, e sua obra reflete sua posição crítica e progressista em relação ao papel da mulher na sociedade.

O livro também tem uma forte simbologia, que revela o universo subjetivo e misterioso de Clarice. Ela usa imagens, metáforas, analogias, paradoxos, antíteses, ironias, humor, para transmitir suas ideias e sentimentos. Ela também explora a sonoridade, o ritmo, a musicalidade, a repetição, a aliteração, a assonância, a rima, para criar efeitos estéticos e expressivos. Ela brinca com as palavras, com os sentidos, com as formas, com os significados, para surpreender e encantar as leitoras.

O livro tem uma grande importância e relevância cultural, pois representa uma das facetas da obra de Clarice Lispector, uma das maiores escritoras brasileiras de todos os tempos. O livro também contribui para a valorização da literatura de autoria feminina, que ainda sofre discriminação e preconceito no meio literário. O livro ainda é um documento histórico e social, que retrata a realidade, os costumes, os valores, os problemas, os desafios, as conquistas, as aspirações, as angústias, as alegrias, as esperanças, as frustrações, as contradições, as potencialidades, as singularidades, as pluralidades, as complexidades, as belezas, das mulheres brasileiras de ontem e de hoje.

Clarice Lispector nasceu na Ucrânia, em 1920, e veio para o Brasil com sua família, fugindo da perseguição aos judeus durante a guerra civil russa. Ela viveu em Maceió, Recife e Rio de Janeiro, onde se formou em Direito. Ela casou-se com um diplomata e morou em vários países, como Itália, Suíça, Inglaterra e Estados Unidos. Ela teve dois filhos, Pedro e Paulo. Ela se separou do marido e voltou para o Rio de Janeiro, onde se dedicou à literatura e ao jornalismo. Ela publicou vários livros, entre romances, contos, crônicas, ensaios, literatura infantil. Ela morreu em 1977, vítima de câncer.

O livro Correio Feminino é uma obra fascinante, que revela uma Clarice Lispector diferente, mas não menos genial, do que a que conhecemos por seus romances e contos. É uma obra que nos faz pensar, sentir, rir, chorar, sonhar, viver. É uma obra que nos faz mulheres, mais mulheres, muito mais mulheres. É uma obra que nos faz Clarice, mais Clarice, muito mais Clarice.

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