[RESENHA #830] O cão da morte, de Agatha Christie


O que acontece quando a Rainha do Crime envereda pelo universo do sobrenatural? Nos doze contos que compõem o livro, o “quem matou” dá lugar à inexplicável e macabra presença da morte. No eixo central de cada enredo estão estranhos fenômenos, como uma marca de pólvora em formato de cão, além de elementos clássicos nas histórias de contato com o outro mundo, desde casas mal-assombradas até pesadelos que se tornam reais. O cão da morte marca a publicação de “Testemunha da acusação”, famosa história de tribunal que depois daria origem a uma peça – da própria autora – e a um filme, estrelado pela diva Marlene Dietrich.

RESENHA

O livro Cão da morte, de Agatha Christie, é uma coletânea de doze contos que exploram o tema do sobrenatural, misturando elementos de terror, suspense e mistério. A autora, conhecida como a “Rainha do Crime”, mostra sua versatilidade e criatividade ao abordar fenômenos como fantasmas, espíritos, possessões, premonições e enigmas do além.

Os contos são narrados em terceira pessoa, com exceção de “Testemunha da Acusação”, que é um diálogo entre um advogado e seu cliente. Cada conto apresenta personagens diferentes, que se envolvem em situações estranhas, assustadoras ou intrigantes, que desafiam a lógica e a razão. Alguns dos personagens são: uma freira que sobrevive a uma explosão e desenvolve poderes paranormais, um homem que recebe um sinal vermelho de perigo antes de uma tragédia, um médico que investiga um caso de dupla personalidade, uma cigana que prevê o futuro, uma mulher que se comunica com seu marido morto através de um rádio, um homem acusado de assassinato que tem uma surpreendente testemunha, um jovem que ouve uma voz misteriosa vinda de uma jarra azul, um aristocrata que é possuído por um cão infernal, um escritor que tem visões de um anjo, uma médium que realiza sua última sessão espírita e um casal que recebe um pedido de socorro em código Morse.

Os contos trazem ensinamentos sobre a natureza humana, o bem e o mal, a fé e a ciência, o destino e o livre-arbítrio, a vida e a morte. Alguns deles também fazem referências a mitos, lendas e obras literárias, como o cão de Cérbero, a Caça Selvagem, o Fausto e o Frankenstein. Algumas citações marcantes do livro são:

  • “O cão da morte é um símbolo do mal que habita em cada um de nós. Ele nos persegue, nos tenta, nos corrompe. Ele é o nosso lado sombrio, o nosso pecado original, o nosso demônio interior.” (O Cão da Morte)
  • “Há coisas que a ciência não pode explicar, que estão além da compreensão humana. Há forças ocultas que atuam no mundo, que podem ser benéficas ou malignas, dependendo de como as usamos.” (O Sinal Vermelho)
  • “O que é a verdade? A verdade é aquilo que as pessoas acreditam. A verdade é aquilo que as evidências mostram. A verdade é aquilo que o júri decide. A verdade é aquilo que o juiz sentencia. A verdade é aquilo que o carrasco executa.” (Testemunha da Acusação)

A simbologia do livro está relacionada aos elementos sobrenaturais que aparecem nos contos, como o cão, o sinal, a jarra, a lâmpada, o rádio, as asas, etc. Cada um desses elementos representa uma forma de comunicação entre o mundo natural e o mundo espiritual, entre o visível e o invisível, entre o presente e o futuro. Eles também simbolizam os conflitos, os medos, os desejos, os segredos e os mistérios dos personagens.

A importância e a relevância cultural do livro estão na contribuição de Agatha Christie para a literatura de ficção, especialmente para o gênero policial e de suspense. A autora foi uma das mais populares e prolíficas escritoras do século XX, tendo publicado mais de 80 livros, que foram traduzidos para mais de 100 idiomas e adaptados para o cinema, o teatro, a televisão e os quadrinhos. Ela criou personagens memoráveis, como Hercule Poirot, Miss Marple, Tommy e Tuppence, entre outros. Ela também foi reconhecida por suas tramas engenhosas, seus finais surpreendentes e seus enigmas desafiadores.

A biografia de Agatha Christie é tão interessante quanto suas obras. Ela nasceu em 1890, na Inglaterra, e teve uma infância feliz e privilegiada. Ela começou a escrever histórias aos 18 anos, e publicou seu primeiro livro, O Misterioso Caso de Styles, em 1920, apresentando o detetive belga Hercule Poirot. Ela se casou duas vezes, sendo que seu primeiro marido, o coronel Archibald Christie, a traiu com uma amiga. Em 1926, ela desapareceu por 11 dias, causando um grande alvoroço na imprensa e na polícia. Ela foi encontrada em um hotel, sob o nome de sua rival, alegando ter perdido a memória. Ela nunca explicou o que aconteceu nesse período, mas alguns especulam que foi uma crise nervosa, uma tentativa de suicídio, uma jogada de marketing ou um golpe contra o marido infiel. Ela se divorciou dele em 1928, e se casou novamente em 1930, com o arqueólogo Max Mallowan, com quem viajou pelo mundo e se inspirou para algumas de suas histórias. Ela morreu em 1976, aos 85 anos, deixando um legado literário impressionante.

A crítica positiva acerca da obra é que ela é uma excelente amostra da capacidade de Agatha Christie de criar histórias envolventes, originais e variadas, que prendem a atenção do leitor do começo ao fim. Ela demonstra sua habilidade de misturar diferentes gêneros, como o policial, o suspense, o terror e o fantástico, sem perder a coerência e a qualidade. Ela também mostra sua sensibilidade para retratar os aspectos psicológicos, sociais e culturais dos personagens e dos cenários, dando-lhes profundidade e verossimilhança. Ela ainda surpreende o leitor com suas reviravoltas, suas revelações e seus desfechos, que são ao mesmo tempo lógicos e inesperados. Ela é, sem dúvida, uma mestra da narrativa, que merece ser lida e apreciada por todos os amantes da literatura.

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