[RESENHA #823] Os pares de sapato não acompanham as quedas, de Maria Eugênia Moreira


“Os pares de sapato não acompanham as quedas” é o segundo romance da escritora e estudante de psicologia Maria Eugênia Moreira, publicado pela editora Reformatório em 2023. A obra aborda o tema do suicídio a partir da perspectiva de uma mãe que perde o filho de 29 anos para essa tragédia. Em uma escrita que mescla a narrativa ao diário, a autora nos convida a acompanhar o luto, a culpa, a loucura e a tristeza dessa personagem, que tenta entender o que levou o seu filho a tirar a própria vida aos vinte e nove anos.

''Evito olhar para o topo dos prédios sempre que saio na rua. Tenho a impressão de que assistirei ao corpo caindo, ao meu filho caindo, com os braços soltos no ar''.

O estilo de Maria Eugênia Moreira é marcado pela sua capacidade de criar uma atmosfera densa e envolvente, com uma linguagem direta e sem rodeios, que nos faz sentir na pele a dor da protagonista. A autora também demonstra uma sensibilidade e uma profundidade para tratar de um assunto tão delicado e complexo, sem cair em clichês ou simplificações. A obra é inspirada na história real do escritor carioca Victor Heringer, que se suicidou em 2018, e que foi uma influência tanto literária quanto acadêmica para a autora, que pesquisou a sua obra “O Amor dos Homens Avulsos” para o seu trabalho de conclusão de curso na PUC/SP.

A personagem principal do livro é Célia — a mãe do filho suicida —, Marcos. Ela é uma mulher que vive uma rotina solitária e angustiante, que se culpa pela morte do filho. A obra é narrada em primeira pessoa e se inicia, desde o primeiro instante, em angústia profunda. O luto se instaura através das primeiras palavras da mãe acerca de uma introdução breve do filho, que, aos 29 anos, professor de história, filho dela e de Heitor, — com quem ela se divorciou após a morte do filho —, sofreu pelo luto silencioso do pai e pela ausência de compreensão do mesmo em relação ao luto e à perda do filho.

[...] o meu casamento acabou no dia em que meu filho se matou (p.19) [...] a decisão do divórcio veio num almoço numa churrascaria. Alcatra ou picanha? Eu não amo mais você. Barbecue? (p.46)

Alguns ensinamentos que a obra pode transmitir são:

  1. A importância de falar sobre o suicídio e de buscar ajuda profissional quando se está em sofrimento psíquico, pois é uma questão de saúde pública e de prevenção.
  2. A necessidade de respeitar e acolher os que ficam após o suicídio de um ente querido, pois eles sofrem um luto complexo e estigmatizado, que requer apoio e compreensão.
  3. A reflexão sobre a maternidade e a relação entre pais e filhos, que envolve amor, cuidado, responsabilidade, expectativa, frustração, culpa e perdão.
  4. A valorização da literatura e da arte como formas de expressão, de comunicação, de resistência e de superação diante das adversidades da vida.

Algumas citações da obra que se destacam são:

  1. O filho que estava no parapeito desde a barriga, esperando tristeza suficiente na vida para se lançar. (p.17)
  2. [...] a outra já havia saído com o corpo do meu filho embalado em um saco plástico preto (p.18)
  3. Encontramos o Marcos caído do lado do prédio — e sabendo que caído significa jogado, morto, suicidado, caminhei direto para as luzes da sirene. (p.18)
  4. Eu queria gritar, eu queria morrer. Fui tirada dali pelos ombros [...] o meu casamento acabou no dia em que meu filho se matou (p.19)
  5. [...] fui eu quem gerei aquele filho na barriga, fui eu que dei o peito, eu que o levei em seu primeiro dia na escolinha (p.20)
  6. O meu corpo se tornou estéril por tragédia (p.21)
  7. A última vez que toquei no meu filho, o seu corpo ainda era quente e suava (p.26)
  8. Ficou claro na conversa que Heitor e eu estávamos em estágios diferentes do desespero de lidar com a perda do nosso filho (p.46)

O período histórico em que o livro se passa é o início do século XXI, marcado por grandes transformações sociais, tecnológicas, culturais e políticas, que influenciam a obra de Maria Eugênia Moreira. Alguns aspectos que podem ser observados são:

  • O aumento dos casos de suicídio no Brasil e no mundo, especialmente entre os jovens, que reflete uma crise de sentido, de identidade, de pertencimento e de esperança na sociedade contemporânea.
  • O papel das redes sociais e da internet na vida das pessoas, que pode ser tanto uma fonte de informação, de entretenimento, de conexão e de apoio, quanto de exposição, de comparação, de isolamento e de violência.
  • A diversidade e a pluralidade de vozes e de expressões artísticas, que podem representar diferentes formas de ver e de viver o mundo, de questionar e de criticar a realidade, de resistir e de transformar a sociedade.

A obra toda é um emaranhado de questões poéticas e filosóficas que se tornam com o dia-a-dia de uma mãe que tenta sobreviver. A morte do filho trouxe a morte da sensualidade, do sexo, do tesão, do prazer, do amor, tudo havia de exaurido de forma insuportável. É palpável o desespero e a depressão que toma conta da mãe, isso se confirma no episódio de gravidez psicológica adquirida após a perda do filho.

O livro segue em forma de carta e narrativa linear. A mãe narra os encontros com seu ex-marido, Heitor, as conversas difíceis que se formam em torno da perda e das lembranças, nos flashs de momentos com o filho ainda pequeno, na faculdade, em casa e em sua boa conduta. Nota-se uma descrição dolorida e palpável acerca das dificuldades em lidar com a morte de alguém tão próximo, sobretudo, das decisões que precisam ser tomadas a partir da perda, como a venda do apartamento do filho, que, segundo o pai, carrega lembranças fortes. Não é saudável manter uma casa onde as janelas jamais se abrirão novamente.

A importância e a relevância cultural da obra podem ser avaliadas pela sua contribuição para a literatura brasileira contemporânea, que se renova e se fortalece com novos autores e autoras, que trazem novas perspectivas e propostas estéticas, que dialogam com o seu tempo e com o seu público, que abordam temas relevantes e urgentes, que provocam e emocionam os leitores e as leitoras. A obra também pode ser vista como um instrumento de conscientização e de prevenção do suicídio, que é um problema de saúde pública e que precisa ser discutido e enfrentado com seriedade e sensibilidade.

Com a morte de meu filho, passei a sentir que falhei com minha mãe (p.47)

Com o advento da culpa, a mãe insiste que, talvez, não conhecesse tão bem o seu filho a ponto de entender tudo o que se formou até esse ápice decisivo em suas vidas. Ela narra os momentos de participação e alegria efetiva do filho em casa, na rua e em suas vidas. A obra transita entre pensamentos entre passado e presente e se intercala de forma minuciosa e mágica entre a dor trágica da perda e o afago instaurado pela vivência. 

Maria Eugênia Moreira nasceu em São Paulo, em 1999. É estudante de psicologia na PUC/SP e escritora. Estreou na ficção com o romance “Três Palmos” (Penalux, 2021), que narra a história de um homem que se apaixona por uma mulher que tem uma doença terminal. Em 2023, publicou o seu segundo romance, “Os pares de sapato não acompanham as quedas” (Reformatório), que trata do suicídio a partir da perspectiva de uma mãe que perde o filho. É uma autora que se destaca pela sua escrita direta, densa e envolvente, que aborda temas delicados e complexos com sensibilidade e profundidade.

Os pares de sapato não acompanham as quedas” é um livro que nos toca e nos desafia, que nos faz pensar e sentir, que nos faz chorar e sorrir, que nos faz questionar e compreender. É um livro que nos mostra a dor e a beleza da vida, da morte e do amor, que nos mostra a fragilidade e a força da humanidade, que nos mostra a importância e a dificuldade da comunicação. É um livro que nos mostra a arte e a literatura como formas de expressão, de resistência e de superação. É um livro que nos mostra a autora Maria Eugênia Moreira como uma grande revelação da literatura brasileira contemporânea.

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