[RESENHA #822] Quando fui outro, de Fernando Pessoa


Conhecedor profundo da obra de Fernando Pessoa, o escritor Luiz Ruffato pretende, com esta antologia, decifrar o homem "em sua vida verdadeira", despido de seus personagens.

RESENHA

Quando fui outro é uma antologia de textos em prosa e poesia de Fernando Pessoa, organizada pelo escritor brasileiro Luiz Ruffato. O livro reúne cartas, ensaios, crônicas, contos e poemas que revelam aspectos da vida e da obra de um dos maiores poetas da língua portuguesa. A seleção dos textos foi feita a partir de uma pesquisa em mais de 25 mil originais em português, inglês e francês, escritos por Pessoa ao longo de sua trajetória literária.

O título do livro remete à multiplicidade de vozes que Pessoa criou em sua obra, os famosos heterônimos, que são poetas com personalidades próprias e estilos distintos. Entre eles, destacam-se Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos e Bernardo Soares, além do próprio Pessoa ortônimo. Cada um desses poetas expressa uma faceta do autor, que se desdobrou em vários para compreender, decifrar e ocultar o mundo e a si mesmo.

O livro está dividido em quatro partes: "O homem", "O poeta", "O pensador" e "O ficcionista". Na primeira parte, encontramos as cartas que Pessoa enviou a Ophélia Queiroz, sua única namorada, em dois períodos distintos: 1920 e 1929. As cartas mostram o lado afetivo, romântico e até infantil de Pessoa, que se declara, brinca, elogia e também se afasta de Ophélia, por medo ou insegurança. Um trecho de uma carta de 1920 ilustra esse sentimento:

 "Não sei se me queres bem, se me amas um pouco, se te posso dizer que és minha. Sei que te adoro, que te quero mais do que tudo, que não há no mundo nada que eu mais deseje do que a tua pessoa, o teu carinho, a tua voz, o teu olhar, o teu sorriso."

Na segunda parte, temos uma seleção de poemas de Pessoa e seus heterônimos, que abrangem desde os clássicos "Tanto mar", "Tabacaria" e "Autopsicografia" até textos menos conhecidos, mas igualmente belos e profundos. A poesia de Pessoa é marcada pela busca da essência das coisas, pela reflexão sobre a identidade, pela angústia existencial, pela nostalgia da infância e da pátria, pela ironia e pelo humor. Um exemplo é o poema "Isto", de Álvaro de Campos:

"Dizem que finjo ou minto / Tudo que escrevo. Não. / Eu simplesmente sinto / Com a imaginação. / Não uso o coração."

Na terceira parte, acompanhamos o pensamento de Pessoa sobre diversos temas, como literatura, política, filosofia, religião, astrologia e ocultismo. Pessoa foi um crítico agudo e original, que analisou a sua época e a sua cultura com lucidez e independência. Ele defendeu a liberdade de expressão, a renovação artística, o nacionalismo mítico, o paganismo, o sensacionismo e o interseccionismo. Um fragmento de um ensaio de 1912 ilustra a sua visão sobre a arte:

"A arte é a auto-expressão lutando por ser absoluta."

Na quarta e última parte, temos uma amostra da ficção de Pessoa, que inclui contos, novelas e fragmentos de um romance inacabado. Pessoa explorou a narrativa como um meio de criar personagens, situações e atmosferas que revelam a complexidade e a diversidade da condição humana. Ele abordou temas como o amor, a morte, a loucura, o sonho, o mistério e o fantástico. Um trecho de um conto de 1913 exemplifica o seu estilo ficcional:

"Era uma vez um homem que tinha um segredo. Ninguém sabia qual era, nem ele próprio o sabia. Mas todos sabiam que ele tinha um segredo, e isso bastava para que ele fosse diferente dos outros, e para que os outros o olhassem com curiosidade e desconfiança."

Quando fui outro é um livro que nos permite conhecer melhor Fernando Pessoa, o homem e o poeta, em sua vida verdadeira, despido de seus personagens. É uma obra que nos revela a riqueza, a variedade e a originalidade de sua produção literária, que abrange vários gêneros, estilos e temas. É um livro que nos convida a entrar no universo pessoano, que é ao mesmo tempo singular e plural, real e imaginário, simples e complexo, triste e alegre, antigo e moderno. É um livro que nos mostra que Fernando Pessoa foi, e ainda é, um dos maiores escritores da língua portuguesa e da literatura universal.

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