[RESENHA #820] E eu profundo e os outros eus, de Fernando Pessoa


Antologia realizada por Afrânio Coutinho que revela a estrutura essencial da obra de Fernando Pessoa, em seu nome e nos de seus heterônimos. É o ponto de partida para a fascinante e inesgotável viagem pelo universo do autor.

RESENHA

E eu profundo e os outros eus é uma antologia de textos de Fernando Pessoa, um dos maiores poetas da língua portuguesa e figura central do modernismo português. O livro reúne poemas e textos em prosa de Pessoa e de seus principais heterônimos, que são personalidades literárias distintas, com estilos, biografias e visões de mundo próprias. A obra revela a complexidade e a riqueza da criação pessoana, que abrange desde o lirismo intimista de Alberto Caeiro, o mestre dos heterônimos, até o futurismo dinâmico de Álvaro de Campos, passando pelo classicismo equilibrado de Ricardo Reis e pelo nacionalismo místico de Fernando Pessoa ortônimo.

O livro é dividido em quatro partes, cada uma dedicada a um dos eus do autor. Na primeira parte, encontramos os poemas de Alberto Caeiro, que se apresenta como um poeta da natureza, que busca ver as coisas como elas são, sem metafísica nem sentimentalismo. Caeiro é o mais simples e direto dos heterônimos, mas também o mais profundo e sábio, pois consegue captar a essência das coisas com uma linguagem clara e despojada. Alguns de seus poemas mais famosos são "O Guardador de Rebanhos", "O Pastor Amoroso" e "Poemas Inconjuntos".

Na segunda parte, temos os poemas de Ricardo Reis, que se define como um discípulo de Caeiro, mas que segue uma estética oposta à dele. Reis é um poeta clássico, que cultiva as formas fixas, como o soneto e a ode, e que se inspira na cultura greco-latina. Reis é um poeta da razão, que prega a aceitação do destino, a moderação dos sentimentos e a busca da harmonia. Seus poemas são marcados pelo estoicismo, pelo paganismo e pelo epicurismo. Alguns exemplos são "Vem Sentar-te Comigo, Lídia, à Beira do Rio", "Segue o Teu Destino" e "Para Ser Grande, Sê Inteiro".

Na terceira parte, aparecem os poemas de Álvaro de Campos, que é o heterônimo mais contrastante e contraditório de Pessoa. Campos é um poeta moderno, que expressa o mal-estar da civilização industrial e urbana, a angústia existencial, o tédio, a insatisfação e o desejo de transcendência. Campos é um poeta da sensação, que experimenta vários estilos e movimentos, como o decadentismo, o simbolismo, o futurismo e o sensacionismo. Seus poemas são marcados pela musicalidade, pelo ritmo, pela ironia e pela explosão de imagens. Alguns de seus poemas mais célebres são "Ode Triunfal", "Tabacaria" e "Ode Marítima".

Na quarta e última parte, temos os textos de Fernando Pessoa ortônimo, que é o próprio autor sem heterônimos, mas que também apresenta uma multiplicidade de vozes e de temas. Pessoa ortônimo é um poeta da saudade, que evoca a história e a cultura de Portugal, a nostalgia da infância, o sonho, o mistério e o ocultismo. Pessoa ortônimo é um poeta da reflexão, que questiona a realidade, a identidade, a linguagem e a poesia. Seus textos são marcados pela originalidade, pela erudição, pela ironia e pela metaficção. Alguns de seus textos mais conhecidos são "Mensagem", "O Livro do Desassossego" e "A Hora do Diabo".

E eu profundo e os outros eus é uma obra fundamental para compreender a genialidade e a diversidade de Fernando Pessoa, um poeta que se desdobrou em vários, mas que soube dar a cada um deles uma voz única e inconfundível. A obra é também um convite para mergulhar no universo pessoano, que é um espelho das inquietações e das aspirações do homem moderno. Como disse o próprio Pessoa, "o poeta é um fingidor", mas também "um criador de verdades". E eu profundo e os outros eus é uma obra que nos faz fingir e criar com Pessoa, e que nos revela a nós mesmos através de seus eus.

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