[RESENHA #818] O banqueiro anarquista, de Fernando Pessoa


Prepare-se para uma imersão literária única com O Banqueiro Anarquista e Outros Contos Escolhidos de Fernando Pessoa.

Este livro é um tesouro literário que reúne 24 textos em prosa cuidadosamente selecionados, nos transportando por uma viagem cronológica que abrange desde a adolescência do autor até o ano de sua partida.

Com maestria, Fernando Pessoa nos oferece um vislumbre de sua versatilidade literária. A coleção inclui 21 contos, sendo o primeiro originalmente escrito em inglês e traduzido para o português, e três traduções habilidosas do contista estadunidense O. Henry.

A cada página, você mergulhará em narrativas que transcendem o tempo, explorando temas e emoções que ressoam até hoje.

E como um toque especial, os contos de O. Henry, traduzidos com maestria por Pessoa, complementam o volume, transportando-nos para outras paisagens literárias.

Alexei Bueno, no prefácio, afirma que, mesmo não sendo obras originais de Pessoa, a tradição de incluí-las entre suas narrativas justifica sua presença, destacando sua habilidade como prosador.

O Banqueiro Anarquista e Outros Contos Escolhidos de Fernando Pessoa é um convite para desvendar o brilho do poeta nas histórias que ele criou, um convite para enriquecer sua alma com narrativas que ecoarão por gerações.  

RESENHA

O banqueiro anarquista, de Fernando Pessoa, é um livro que desafia as convenções e provoca o leitor a questionar os seus próprios conceitos sobre a sociedade, a liberdade e a justiça. Escrito em forma de diálogo, o livro apresenta a conversa entre um banqueiro rico e poderoso, que se declara anarquista, e um amigo seu, que se mostra incrédulo e curioso com essa afirmação. Ao longo do diálogo, o banqueiro expõe as suas razões para adotar o anarquismo como teoria e prática, revelando uma visão cínica e egoísta da realidade, que contrasta com os ideais altruístas e revolucionários dos anarquistas tradicionais.

Fernando Pessoa, autor do livro, foi um dos maiores poetas e escritores da língua portuguesa, e também um dos mais originais e inovadores. Nascido em Lisboa, em 1888, Pessoa criou diversos heterônimos, ou seja, personalidades literárias distintas, que escreviam com estilos, temas e vozes próprios. Entre os seus heterônimos mais famosos, estão Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos e Bernardo Soares. Pessoa também escreveu com o seu próprio nome, como é o caso de O banqueiro anarquista, que foi o único conto que ele publicou em vida, em 1922, na revista Contemporânea.

O livro é uma obra singular na literatura portuguesa, pois combina elementos de sátira, ironia, humor e filosofia, em um texto ágil e envolvente. O estilo de Pessoa é claro e direto, mas também sofisticado e elegante, com um vocabulário rico e variado. O autor utiliza diversos recursos retóricos, como a argumentação, a analogia, a antítese e a paródia, para construir o discurso do banqueiro anarquista, que se revela cada vez mais contraditório e absurdo. Alguns exemplos de citações do livro que ilustram esse discurso são:

- "Eu sou anarquista e inteligente. Isto é, meu velho, eu é que sou o verdadeiro anarquista."

- "O dinheiro é a coisa mais importante do mundo. E, como é a mais importante, é a mais inútil."

- "A minha liberdade consiste em não dar importância a nada, em ser senhor de mim mesmo, em não reconhecer superioridade em ninguém, em não me importar com ninguém, em não me importar com nada."

O livro também reflete o contexto histórico e cultural em que foi escrito, o início do século XX, marcado por transformações sociais, políticas e econômicas, como a Primeira Guerra Mundial, a Revolução Russa, o surgimento do fascismo e do comunismo, e o desenvolvimento do capitalismo e da industrialização. O anarquismo, como uma corrente de pensamento e ação que defendia a abolição de todas as formas de autoridade e opressão, ganhou força e expressão nesse período, especialmente entre os trabalhadores e os intelectuais. Pessoa, que era um leitor atento e crítico da realidade, explorou essa temática em O banqueiro anarquista, mas de uma forma original e paradoxal, criando uma personagem que subverte os princípios e as práticas do anarquismo.

O livro é, portanto, uma obra que provoca a reflexão e o debate sobre questões fundamentais da sociedade, como a liberdade, a igualdade, a justiça, a solidariedade, o poder, o dinheiro, a violência, a moral, a religião, o Estado, a família, entre outras. É também uma obra que revela a genialidade e a versatilidade de Fernando Pessoa, um dos maiores nomes da literatura mundial, que soube criar uma obra única e inesquecível, que desafia e encanta os leitores de todas as épocas e lugares.

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