[RESENHA #817] Navegar é preciso, de Fernando Pessoa

Este livro é uma seleção dos textos místicos de Fernando Pessoa

Pessoa escreveu sobre a alma humana, este é todo o seu misticismo; e conforme tantos outros poetas da alma, para saber realmente quem foram, quem são, teríamos antes de saber quem somos, em nossa essência mais profunda, inefável, transcendente... Teríamos, como os Rumi, as Teresa D'Ávila, os Tagore, os Gibran e os Pessoa, de haver conhecido a Alma face a face.

A Rua dos Douradores não existe em Portugal nem em canto algum, mas existe sempre. Tudo o que foi imaginado existe. E tudo o que foi imaginado no Reino da Alma existe eternamente, existe sempre. Isto que estou a falar não pode ser falado - isto é mitologia pura.

Todos os símbolos da mitologia, afinal, dizem respeito a você: Você enfrentou aos deuses monstruosos de sua própria alma? Você venceu e apaziguou os seus demônios interiores? Você despertou de sua vida de sonolência animal para uma nova vida onde pode ver, finalmente, que há só uma única Alma que está em tudo, e que você mesmo é também uma pequena parte dela?

"Deus é a alma de tudo" - concluiu o próprio guarda-livros num de seus lampejos de consciência desperta... Em nossa essência mais profunda, somos como heterônimos de algum Escritor oculto, somos um com o ser transcendente.

Mas isto que quero tentar dizer não foi dito aqui, e nem em qualquer parte da obra pessoana. Pois isto não se diz com palavras, com cascas de sentimento... Para isto existe a poesia, que diz alguma coisa, sem realmente haver dito.

Este meu translado pela mitologia pessoana foi apenas o querer dizer alguma coisa, e não haver dito nada. Para aqueles que já conheciam a obra de Pessoa, estas seleções talvez tragam algumas boas recordações. Para aqueles que nunca o leram antes, quero crer que estas seleções lhes sirvam como uma "introdução mística" ao seu pensamento. A única coisa que este livro não é, nem pretendeu ser, é um livro acadêmico. Notas de rodapé vocês encontrarão aos montes em outras seleções (nada contra as notas de rodapé nem contra as outras seleções, muitas delas muito superiores a esta, que é apenas uma pequena declaração de amor ao poeta que foi muitos)

RESENHA

Navegar é preciso, de Fernando Pessoa, é uma obra poética que reúne alguns dos textos mais emblemáticos do autor português, considerado um dos maiores nomes da literatura mundial. O livro, publicado pela Mafra Editions em 2022, nos convida a mergulhar em um mar de pensamentos, sentimentos e reflexões sobre a vida, a arte, a história e a identidade nacional.

O estilo de Fernando Pessoa é marcado pela heteronímia, ou seja, pela criação de diferentes personalidades literárias que expressam diferentes visões de mundo e estéticas. Neste livro, encontramos poemas de alguns dos seus principais heterônimos, como Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos e Bernardo Soares, além de textos assinados pelo próprio Pessoa. Cada um desses autores fictícios tem uma biografia, uma voz e uma forma própria de escrever, o que revela a genialidade e a complexidade da obra pessoana.

Entre os principais temas abordados no livro, destacam-se a busca pelo sentido da existência, a angústia existencial, a nostalgia da infância, o amor platônico, a valorização da natureza, a crítica à modernidade, o elogio à simplicidade, o saudosismo histórico, o orgulho da pátria e o ideal de grandeza. A obra também reflete sobre o papel do poeta e da poesia na sociedade, bem como sobre o processo criativo e a relação entre o eu e o outro.

O livro é repleto de ensinamentos e citações memoráveis, que nos fazem pensar e sentir. Algumas das frases mais famosas são:

“Navegar é preciso; viver não é preciso.” (Fernando Pessoa)

“O poeta é um fingidor. Finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente.” (Fernando Pessoa)

“Tudo vale a pena se a alma não é pequena.” (Fernando Pessoa)

“Para viajar basta existir.” (Fernando Pessoa)

“O binômio de Newton é tão belo como a Vênus de Milo. O que há é pouca gente para dar por isso.” (Álvaro de Campos)

“Sentir tudo de todas as maneiras, viver tudo de todos os lados, ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo, realizar em si toda a humanidade de todos os momentos num só momento difuso, profundo e incompreensível.” (Álvaro de Campos)

“Sê todo em cada coisa. Põe quanto és no mínimo que fazes. Assim em cada lago a lua toda brilha, porque alta vive.” (Ricardo Reis)

“Para ser grande, sê inteiro: nada teu exagera ou exclui. Sê todo em cada coisa. Põe quanto és no mínimo que fazes. Assim em cada lago a lua toda brilha, porque alta vive.” (Ricardo Reis)

“Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.” (Bernardo Soares)

“Tenho em mim todos os sonhos do mundo.” (Álvaro de Campos)

O período histórico em que Fernando Pessoa viveu e escreveu foi o início do século XX, marcado por grandes transformações políticas, sociais, culturais e tecnológicas. O autor testemunhou a queda da monarquia e a implantação da república em Portugal, a Primeira Guerra Mundial, a ascensão dos regimes totalitários na Europa, a crise econômica de 1929, o surgimento do modernismo nas artes e nas letras, entre outros acontecimentos. Esses fatos influenciaram a sua obra, que dialoga com as questões do seu tempo, mas também transcende a sua época, tornando-se atemporal e universal.

A simbologia presente na obra de Fernando Pessoa é rica e variada, envolvendo elementos como o mar, o rio, o horizonte, o sol, a lua, as estrelas, as flores, os animais, os mitos, os números, as cores, as formas, as letras, os signos, os símbolos nacionais, entre outros. Cada um desses elementos tem um significado específico para cada heterônimo, e também para o conjunto da obra. Por exemplo, o mar pode representar a aventura, a liberdade, a viagem, a saudade, a morte, a vida, a alma, o infinito, o mistério, a esperança, a angústia, a solidão, a grandeza, a pequenez, etc. O rio pode representar o fluxo, a mudança, o tempo, a memória, a origem, o destino, etc. O horizonte pode representar o limite, o desafio, o sonho, a utopia, a realidade, a ilusão, etc.

A importância e a relevância cultural da obra de Fernando Pessoa são inquestionáveis. O autor é reconhecido como um dos maiores poetas da língua portuguesa, e um dos mais influentes da literatura mundial. A sua obra é estudada, traduzida, adaptada, homenageada e admirada por leitores, escritores, críticos, professores, estudantes e pesquisadores de diversas áreas do conhecimento. A sua obra é também fonte de inspiração para outras manifestações artísticas, como o cinema, o teatro, a música, a pintura, a escultura, a fotografia, etc.

A biografia de Fernando Pessoa é tão fascinante quanto a sua obra. Ele nasceu em Lisboa, em 13 de junho de 1888, e morreu na mesma cidade, em 30 de novembro de 1935. Filho de um funcionário público e de uma dona de casa, ele ficou órfão de pai aos cinco anos de idade, e mudou-se com a mãe e o padrasto para a África do Sul, onde viveu até os 17 anos. Lá, ele aprendeu o inglês, que dominava tão bem quanto o português, e escreveu os seus primeiros poemas. De volta a Lisboa, ele cursou brevemente a faculdade de letras, mas abandonou os estudos para se dedicar à literatura. Ele trabalhou como tradutor, correspondente comercial, editor, crítico, publicitário e jornalista. Ele nunca se casou, nem teve filhos, mas teve alguns relacionamentos amorosos, sendo o mais famoso com Ofélia Queiroz, a quem escreveu cartas apaixonadas. Ele era um homem reservado, solitário, introspectivo, mas também sociável, culto, polêmico e criativo. Ele morreu aos 47 anos, vítima de uma cirrose hepática, deixando uma arca com milhares de documentos inéditos, que ainda hoje são descobertos e publicados.

A minha crítica positiva acerca da obra Navegar é preciso, de Fernando Pessoa, é que se trata de um livro indispensável para quem aprecia a poesia e a literatura em geral. O livro nos oferece uma amostra da diversidade, da profundidade e da beleza da obra de Fernando Pessoa, que é capaz de nos emocionar, nos surpreender, nos desafiar e nos encantar. O livro é uma viagem pelo universo pessoano, que nos convida a navegar pelas suas múltiplas facetas, pelas suas inúmeras vozes, pelas suas infinitas possibilidades. O livro é uma obra-prima, que merece ser lida, relida, compartilhada e celebrada.

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