[RESENHA #816] Poemas de Alberto Caeiro, de Fernando Pessoa

Os heterônimos de Fernando Pessoa são um extraordinário recurso estilístico, por meio do qual o poeta escreveu a maior parte de sua poesia. Nos Poemas Completos de Alberto Caeiro (1946), em versos simples e de um tom de parábolas, tudo se tece em torno da natureza contemplada. Alberto Caeiro é o heterônimo-“mestre” de todos os heterônimos de Fernando Pessoa. Seu processo criativo é espontâneo e de completa naturalidade. Seus poemas são sua própria biografia.

RESENHA

Poemas de Alberto Caeiro é uma obra que reúne a produção poética de um dos mais famosos heterônimos de Fernando Pessoa, considerado o mestre dos demais. Alberto Caeiro é um poeta que se volta para a simplicidade da vida, buscando ver as coisas como elas são, sem recorrer à filosofia, à metafísica ou à religião. Sua poesia é marcada pelo bucolismo, pelo sensacionismo, pelo paganismo e pelo objetivismo, expressos em uma linguagem clara, direta e despojada de artifícios formais.

O livro é dividido em três partes: O Guardador de Rebanhos, O Pastor Amoroso e Poemas Inconjuntos. Em cada uma delas, o poeta revela sua visão de mundo, sua relação com a natureza, seus sentimentos e suas reflexões. Caeiro não é um personagem com uma história definida, mas sim uma voz poética que se manifesta através dos versos. Ele não tem uma biografia, mas sim uma personalidade, criada por Fernando Pessoa, que o descreve como um homem simples, de pouca instrução, que vive no campo e que morreu jovem de tuberculose.

A obra de Caeiro é importante e relevante para a cultura portuguesa e universal, pois representa uma ruptura com as tradições literárias e filosóficas dominantes na época. Caeiro é um poeta moderno, que inaugura uma nova forma de expressão, baseada na sensibilidade e na observação. Ele influenciou os outros heterônimos de Pessoa, como Ricardo Reis e Álvaro de Campos, e também outros escritores e pensadores, como Mário de Sá-Carneiro, José Saramago, Jorge Luis Borges e Octavio Paz.


Alguns exemplos de citações marcantes da obra são:

"O meu olhar é nítido como um girassol.

Tenho o costume de andar pelas estradas

Olhando para a direita e para a esquerda,

E de vez em quando olhando para trás...

E o que vejo a cada momento

É aquilo que nunca antes eu tinha visto,

E eu sei dar por isso muito bem...

Sei ter o pasmo essencial

Que tem uma criança se, ao nascer,

Reparasse que nascera deveras...

Sinto-me nascido a cada momento

Para a eterna novidade do Mundo..." (O Guardador de Rebanhos, Poema VIII)


"Se quiserem que eu tenha um misticismo, está bem, tenho-o.

Sou místico, mas só com o corpo.

A minha alma é simples e não pensa.


O meu misticismo é não querer saber.

É viver e não pensar nisso.

Não sei o que é a Natureza: canto-a.

Vivo no cimo dum outeiro

Numa casa caiada e sozinha,

E essa é a minha definição." (O Guardador de Rebanhos, Poema XXXIX)


"Amo-te como um bicho simplesmente

De um amor sem mistério e sem virtude

Com um desejo maciço e permanente

E de te amar a mim só porque és tu." (O Pastor Amoroso, Poema I)


"Não me importo com as rimas. Raras vezes

Há duas árvores iguais, uma ao lado da outra.

Penso e escrevo como as flores têm cor

Mas com menos perfeição no meu modo de exprimir-me

Porque me falta a simplicidade divina

De ser todo só o meu exterior

Olho e comovo-me,

Comovo-me como a água corre quando o chão é inclinado,

E a minha poesia é natural como o levantar-se o vento..." (Poemas Inconjuntos, Poema III)

Poemas de Alberto Caeiro é uma obra que encanta e surpreende pela sua originalidade e profundidade. Caeiro é um poeta que nos ensina a ver o mundo com outros olhos, com mais atenção e admiração. Sua poesia é um convite à simplicidade, à harmonia, à alegria e à liberdade. É uma poesia que nos faz sentir mais vivos e mais próximos da natureza e de nós mesmos.

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