[RESENHA #815] O poeta fingidor, de Fernando Pessoa

O poeta fingidor, com apresentação de Claufe Rodrigues e prefácio de Carlos Felipe Moisés, é mais que uma antologia de Fernando Pessoa. Primeiro, porque é uma tão enxuta quanto rigorosa seleção dos poemas. Pode-se dizer, sem medo de errar, que o melhor da obra do poeta imenso está aqui. Se sempre algum leitor sentirá falta de algum poema em particular em qualquer antologia de Pessoa, ninguém sentirá aqui falta de seus poemas mais emblemáticos, de todos os principais heterônimos. Segundo, porque o prefácio do poeta Carlos Felipe Moisés, que consegue o feito raro de abordar a modernidade da obra de Pessoa e a complexidade da questão dos heterônimos de uma maneira ao mesmo tempo interconectada e clara. Terceiro, por causa de sua generosa iconografia, que inclui muitas fotos de Pessoa, além de desenhos e manuscritos. Quarto, porque não se trata, afinal de contas, de uma antologia. Porque se trata de um pacote. Contendo, além da antologia, um DVD com um documentário exibido pela Globo News em 2008.

RESENHA

O poeta é um fingidor é um livro que reúne alguns dos mais famosos poemas de Fernando Pessoa, um dos maiores poetas da língua portuguesa e figura central do Modernismo português. O livro é dividido em três partes: a primeira apresenta os poemas escritos em seu próprio nome, a segunda os poemas de seus principais heterônimos (Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro) e a terceira os poemas de outros heterônimos menos conhecidos.

O estilo de Fernando Pessoa é marcado pela diversidade, pela originalidade e pela profundidade. Cada heterônimo possui uma personalidade, uma visão de mundo e uma forma de expressão próprias, que refletem as diferentes facetas do autor. Pessoa explora temas como a identidade, a existência, a dor, o amor, a saudade, a liberdade, a morte, a metafísica, a arte e a poesia. Sua linguagem é ora simples e direta, ora complexa e simbólica, ora lírica e musical, ora irônica e crítica.

O livro não possui personagens no sentido tradicional, mas sim vozes poéticas que se manifestam através dos versos. Cada heterônimo tem uma biografia fictícia, que Pessoa criou para dar-lhes mais verossimilhança. Alguns dos mais famosos são:

- Álvaro de Campos: um engenheiro naval que viajou pelo mundo e se tornou um poeta modernista, influenciado pelo futurismo e pelo sensacionismo. É o mais rebelde, inconformista e angustiado dos heterônimos, que expressa sua insatisfação com a vida, a sociedade e a própria poesia. Um de seus poemas mais conhecidos é "Ode Triunfal", que começa assim:

> À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica

Tenho febre e escrevo.

Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,

Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.

- Ricardo Reis: um médico que viveu no Brasil e se dedicou à poesia clássica, influenciado pelo estoicismo e pelo paganismo. É o mais sereno, equilibrado e contemplativo dos heterônimos, que busca a harmonia entre a razão e a emoção, entre o destino e a vontade, entre o humano e o divino. Um de seus poemas mais conhecidos é "Odes", que contém estes versos:

> Sê todo em cada coisa. Põe quanto és

No mínimo que fazes.

Assim em cada lago a lua toda

Brilha, porque alta vive.

- Alberto Caeiro: um camponês que viveu no campo e se dedicou à poesia naturalista, influenciado pelo empirismo e pelo panteísmo. É o mais simples, ingênuo e sábio dos heterônimos, que rejeita a metafísica, a religião e a própria poesia, e se contenta em ver as coisas como elas são, sem lhes atribuir significados ou sentimentos. Um de seus poemas mais conhecidos é "O Guardador de Rebanhos", que tem estes versos:

> O que nós vemos das coisas são as coisas.

Por que veríamos nós uma coisa se houvesse outra?

Por que é que ver e ouvir seria iludirmo-nos

Se ver e ouvir são ver e ouvir?

O livro O poeta é um fingidor é uma obra que ensina muito sobre a poesia, sobre a vida e sobre o próprio Fernando Pessoa. É um livro que mostra a genialidade, a criatividade e a complexidade de um dos maiores poetas de todos os tempos, que soube criar um universo poético rico, diverso e fascinante. É um livro que convida o leitor a se perder e a se encontrar nas múltiplas vozes, nos múltiplos sentidos e nas múltiplas emoções que a poesia pode provocar.

O livro também é um testemunho histórico e cultural de uma época marcada por transformações sociais, políticas e artísticas, que influenciaram a obra de Pessoa e de seus contemporâneos. Pessoa viveu entre o final do século XIX e o início do século XX, um período em que Portugal passou pela queda da monarquia, pela implantação da república, pela participação na Primeira Guerra Mundial, pela ditadura militar e pelo início do Estado Novo. Pessoa também testemunhou o surgimento de novos movimentos artísticos, como o simbolismo, o modernismo, o futurismo, o surrealismo, entre outros, que renovaram a linguagem, a forma e o conteúdo da poesia.

A biografia de Fernando Pessoa é tão interessante quanto a sua obra. Pessoa nasceu em Lisboa, em 1888, e morreu na mesma cidade, em 1935. Ficou órfão de pai aos cinco anos e mudou-se com a mãe e o padrasto para a África do Sul, onde recebeu uma educação inglesa. Voltou a Lisboa em 1905 e ingressou na Faculdade de Letras, mas abandonou o curso no ano seguinte. Trabalhou como tradutor, correspondente comercial, editor, publicitário e astrólogo. Nunca se casou nem teve filhos, mas teve alguns relacionamentos amorosos, sendo o mais famoso com Ofélia Queiroz, a quem escreveu cartas apaixonadas. Foi amigo de outros poetas, como Mário de Sá-Carneiro, Almada Negreiros e António Botto. Escreveu milhares de poemas, ensaios, cartas, contos, romances, peças de teatro, mas publicou pouco em vida. Deixou uma arca cheia de papéis, que foram organizados e editados postumamente por vários estudiosos. Foi reconhecido como um dos maiores poetas da língua portuguesa e da literatura universal, e influenciou muitos outros escritores.

O livro O poeta é um fingidor é, portanto, uma obra indispensável para quem gosta de poesia, de literatura e de cultura. É um livro que revela a alma de um poeta que foi muitos poetas, que foi muitas pessoas, que foi muitas coisas. É um livro que desafia, que encanta, que emociona, que inspira. É um livro que merece ser lido, relido, apreciado e compartilhado.

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