[RESENHA #813] Cartas de amor, de Fernando Pessoa

O livro reúne cartas de amor enviadas por Fernando Pessoa a Ophélia Queiroz. As cartas não vêm carregadas com arroubos de saudades, porque Pessoa e Ophélia se viam quase todos os dias. Este livro apresenta autoanálises e sensações do escritor, a intromissões de Álvaro de Campos - que não gostava de Ophélia.

RESENHA

Cartas de amor, de Fernando Pessoa, é um livro que reúne as correspondências trocadas entre o poeta português e sua única namorada, Ophélia Queiroz, entre 1920 e 1930. O livro revela um lado mais íntimo e humano de Pessoa, que se mostra apaixonado, ciumento, brincalhão e até mesmo ridículo em suas cartas. Ao mesmo tempo, o livro também mostra a genialidade do autor, que cria poemas, inventa heterônimos e discute sobre literatura com sua amada.

O estilo de Pessoa nas cartas é simples, direto e coloquial, mas também rico em imagens e metáforas. Ele usa muitos diminutivos, apelidos carinhosos e expressões populares para se dirigir a Ophélia, que ele chama de "ófilinha", "filhinha", "menina da saia verde" e "minha florzinha azul". Ele também brinca com as palavras, fazendo trocadilhos, anagramas e neologismos. Por exemplo, ele escreve "beijinhos e queijinhos" e "saudadinhas e coisadinhas".

As principais personagens do livro são, obviamente, Fernando Pessoa e Ophélia Queiroz, mas também aparecem os heterônimos do poeta, que são personalidades fictícias que ele criou para expressar diferentes facetas de sua poesia. Os mais famosos são Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos, que têm estilos, ideias e biografias próprias. Pessoa apresenta alguns deles a Ophélia, que fica confusa e assustada com essa multiplicidade. Em uma carta, ele diz: "Não sou eu quem escreve estas cartas. É um tal Álvaro de Campos, um engenheiro naval que está em mim e me faz dizer coisas que eu não quero dizer".

Um dos ensinamentos da obra é que o amor é uma força poderosa, mas também frágil, que pode ser abalada por mal-entendidos, inseguranças e diferenças de personalidade. O relacionamento entre Pessoa e Ophélia passa por altos e baixos, e eles chegam a romper duas vezes, por motivos diversos. Pessoa se mostra ora muito apaixonado, ora distante e frio, ora arrependido e carente. Ophélia, por sua vez, se mostra ora compreensiva, ora desconfiada, ora magoada e ofendida. Eles tentam se reconciliar, mas enfrentam dificuldades para se comunicar e se entender.

O livro também reflete o período histórico em que foi escrito, marcado pela instabilidade política e social de Portugal, que passava pela Primeira República, pela Ditadura Militar e pelo Estado Novo. Pessoa se mostra crítico e desiludido com a situação do país, e expressa sua visão nacionalista e saudosista em alguns poemas. Ele também comenta sobre os acontecimentos culturais da época, como as revistas literárias, os movimentos artísticos e os autores que admirava ou detestava.

Algumas citações marcantes do livro são:

- "Eu amo-a mais do que posso, e de um modo tão natural e humano que não parece amor, mas qualquer coisa de melhor que há no amor".

- "Não sei se o que sinto é amor. Sei que é uma coisa que nunca senti, que nunca poderei sentir por outra".

- "Você é a minha vida, a minha alma, o meu sonho, o meu tudo. Sem você eu não sou nada, não valho nada, não posso nada".

- "Eu não quero que você me ame, porque eu a amo a você. Quero que você me ame, porque você me ama a mim" .

- "Eu não sou eu nem sou o outro, Sou qualquer coisa de intermédio: Pilar da ponte de tédio Que vai de mim para o Outro" .

A simbologia do livro está relacionada com as cores, as flores e os animais que Pessoa usa para representar seus sentimentos e os de Ophélia. Por exemplo, ele associa o azul à pureza, à tranquilidade e à fidelidade, e chama Ophélia de "flor azul" e "céu azul". Ele também usa o verde para simbolizar a esperança, a juventude e a alegria, e chama Ophélia de "menina da saia verde" e "verdinha". Ele usa o vermelho para simbolizar o amor, a paixão e o ciúme, e diz que Ophélia tem "olhos vermelhos" e "lábios vermelhos". Ele usa o branco para simbolizar a inocência, a pureza e a paz, e diz que Ophélia é "branca como a neve" e "branca como a lua". Ele usa o preto para simbolizar a tristeza, a solidão e a morte, e diz que ele é "negro como a noite" e "negro como o inferno". Ele também usa flores como rosas, cravos, violetas e margaridas para expressar seu amor, sua admiração e sua saudade por Ophélia. Ele usa animais como gatos, cães, pássaros e borboletas para representar seu carinho, sua fidelidade, sua liberdade e sua leveza.

A importância e a relevância cultural do livro estão em mostrar uma faceta menos conhecida e mais humana de um dos maiores poetas da língua portuguesa e da literatura universal. O livro também é um documento histórico e literário, que revela aspectos da vida, da obra e do pensamento de Pessoa, bem como do contexto em que ele viveu. O livro também é uma obra de arte, que contém poemas, cartas e desenhos de grande beleza e originalidade.

A biografia do autor já foi apresentada no início deste texto, mas vale ressaltar alguns pontos. Fernando Pessoa nasceu em Lisboa, em 1888, e morreu na mesma cidade, em 1935. Ele foi um poeta, escritor, tradutor, editor, publicitário e astrólogo. Ele criou vários heterônimos, que são personalidades fictícias que escrevem poesia com estilos, ideias e biografias próprias. Os mais famosos são Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos. Ele foi um dos líderes do modernismo português, e fundou as revistas Orpheu e Atena. Ele escreveu em português e em inglês, e deixou uma vasta obra, que só foi publicada em sua maior parte após sua morte.

Para finalizar, podemos dizer que Cartas de amor, de Fernando Pessoa, é um livro que merece ser lido por todos os que apreciam a poesia, a literatura e a arte. É um livro que nos faz conhecer melhor o poeta e o homem, que nos faz sentir suas emoções e suas angústias, que nos faz rir e chorar, que nos faz pensar e sonhar. É um livro que nos mostra que o amor é uma das maiores forças da vida, mas também uma das mais difíceis de compreender e de expressar. É um livro que nos ensina que, como disse Pessoa, "tudo vale a pena se a alma não é pequena".

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