[RESENHA #808] Livro do desassossego, de Fernando Pessoa

Obra incontornável de Fernando Pessoa, O livro do desassossego ganha nova edição revista e atualizada com organização do especialista Richard Zenith ― autor de Pessoa: Uma biografia ― e posfácio inédito da célebre crítica literária Leyla Perrone-Moisés.

Publicado pela primeira vez em 1982, quase cinco décadas depois da morte de Fernando Pessoa, o Livro do desassossego se tornou um marco da literatura. Escrito por Bernardo Soares ― personagem fictício considerado um “semi-heterônimo” de Pessoa pela indiscutível proximidade com o autor ―, o volume recolhe cerca de quinhentos fragmentos em prosa que abordam o desconforto do indivíduo em relação à sociedade em que vive.

Nos trechos recolhidos neste volume, o tom depressivo ganha forma numa náusea constante que atinge não apenas as dimensões intelectual e afetiva, mas também o plano físico. É como se “a existência da própria alma”, de acordo com o narrador, fosse capaz de engendrar um permanente “incômodo dos músculos”.

Seja pelo estilo fragmentário, tão representativo dos nossos tempos, seja pelo esforço em buscar significado em uma vida que muitas vezes parece esvaziada de sentido, o Livro do desassossego impressiona por sua radical atualidade.

RESENHA

O Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa, é uma obra singular na literatura portuguesa e mundial. Trata-se de um conjunto de fragmentos escritos pelo heterônimo Bernardo Soares, um ajudante de guarda-livros que vive em Lisboa, no início do século XX. O livro não tem uma trama definida, nem uma estrutura convencional. É antes um diário íntimo, onde o autor expõe os seus sentimentos, pensamentos, impressões e reflexões sobre a vida, a arte, a filosofia, a religião, a política, a sociedade, a existência e a não-existência.

O estilo de Fernando Pessoa é marcado pela riqueza vocabular, pela variedade de registos, pela ironia, pelo humor, pela melancolia, pela lucidez, pela sensibilidade e pela imaginação. O autor cria um universo próprio, onde mistura realidade e ficção, sonho e vigília, razão e emoção, observação e introspecção. O livro é uma obra aberta, que permite múltiplas leituras e interpretações, e que revela a complexidade e a genialidade de Fernando Pessoa.

O livro não tem personagens no sentido tradicional, mas sim figuras que povoam o imaginário do autor, como o seu patrão Vasques, os seus colegas de escritório, os transeuntes da cidade, os poetas e os filósofos que admira, e os seus outros heterônimos, como Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis. O próprio Bernardo Soares é uma personagem, uma máscara, uma projeção de Fernando Pessoa, que se define como um “semi-heterônimo”, pois não é diferente da sua personalidade, mas uma simples mutilação dela.

O livro é uma fonte inesgotável de ensinamentos, que aborda temas universais e atemporais, como o sentido da vida, a busca da felicidade, a angústia da morte, a solidão, o amor, a beleza, a liberdade, a verdade, a fé, a esperança, o desespero, o tédio, o desassossego. O autor questiona tudo, duvida de tudo, critica tudo, mas também se maravilha com tudo, se encanta com tudo, se apaixona por tudo. O livro é uma obra de arte, que transmite emoções, sentimentos, ideias, valores, que provoca, que desafia, que inspira, que transforma.

O livro está repleto de citações marcantes, que expressam a essência do pensamento e da sensibilidade do autor. Algumas delas são:

"Sentir tudo de todas as maneiras, viver tudo de todos os lados, ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo, realizar em si toda a humanidade de todos os momentos num só momento difuso, profundo e incompreensível."

"Não sei o que quero nem sou o que quero. Sou uma série de ecos mal coordenados, uma confusão de ruídos que se misturam, uma colcha de retalhos de mim."

"A vida é o que fazemos dela. As viagens são os viajantes. O que vemos não é o que vemos, senão o que somos."

"Tudo me interessa e nada me prende. Atendo a tudo sonhando sempre; fixo os mínimos gestos faciais de quem fala comigo, recolho as entoações milimétricas das suas frases ditas, mas ao ouvi-lo, estou pensando noutra coisa."

"Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo."

O livro foi escrito entre 1913 e 1935, período em que Portugal e o mundo passaram por profundas transformações políticas, sociais, culturais e artísticas. O autor testemunhou a queda da monarquia, a implantação da república, a participação na Primeira Guerra Mundial, a ascensão do fascismo, a crise económica, a revolução cultural, o surgimento de novas correntes literárias, como o modernismo, o surrealismo, o futurismo, o expressionismo, entre outras. O autor reflete sobre esses acontecimentos, mas também se distancia deles, buscando uma forma de escapar da realidade, através da imaginação, da criação, da literatura.

O livro é uma obra simbólica, que utiliza diversos recursos estilísticos, como a metáfora, a alegoria, a antítese, a paradoxo, a hipérbole, a personificação, a ironia, o humor, para transmitir os seus significados. O autor explora a simbologia das cores, dos números, dos elementos, dos animais, dos objetos, dos lugares, dos nomes, dos mitos, dos símbolos, para criar uma linguagem poética, rica, original, expressiva, sugestiva.

O livro é uma obra de grande importância e relevância cultural, que influenciou e continua a influenciar gerações de leitores, escritores, artistas, pensadores, de todo o mundo. O livro é considerado uma das obras-primas da literatura portuguesa e universal, um dos maiores monumentos da língua portuguesa, um dos livros mais lidos, estudados, traduzidos, comentados, admirados, de todos os tempos. O livro é um património cultural, que representa a identidade, a cultura, a história, a língua, a alma, de Portugal e dos países de língua portuguesa.

Fernando Pessoa nasceu em Lisboa, em 1888, e morreu na mesma cidade, em 1935. Foi um dos maiores poetas e escritores da língua portuguesa e da literatura mundial. Foi também tradutor, filósofo, crítico, ensaísta, publicitário, astrólogo, esoterista, inventor, empresário, correspondente comercial, entre outras atividades. Foi um homem de múltiplos interesses, conhecimentos, talentos, personalidades. Foi o criador de vários heterônimos, como Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Ricardo Reis, Bernardo Soares, entre outros, cada um com uma biografia, um estilo, uma voz, uma obra, próprios. Foi um génio, um visionário, um mestre, um mito.

O Livro do Desassossego é uma obra fascinante, que merece ser lida, relida, apreciada, por todos os que amam a literatura, a arte, a vida. É uma obra que nos faz pensar, sentir, sonhar, viver, de todas as maneiras possíveis. É uma obra que nos mostra a grandeza e a miséria, a alegria e a tristeza, a beleza e a fealdade, a luz e a sombra, do ser humano. É uma obra que nos revela o mistério e o encanto, o desafio e a aventura, de ser e de não ser, de Fernando Pessoa.

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