[RESENHA #805] Tutameia: terceiras Estórias, de Guimarães Rosa

Terceira estórias é o último livro de contos de João Guimarães Rosa, publicado em 1967, poucos meses antes da morte do autor. O título é uma alusão aos seus livros anteriores, Sagarana e Primeiras estórias, e também à sua busca por uma linguagem original e inventiva, que transcende as margens da norma culta e da realidade cotidiana. O livro reúne 40 contos, dispostos em ordem alfabética, que variam em extensão, tema e estilo, mas que mantêm a marca registrada de Guimarães Rosa: a exploração das possibilidades sonoras, semânticas e sintáticas da língua portuguesa, a criação de neologismos, arcaísmos, regionalismos e estrangeirismos, a fusão de gêneros literários, a mistura de registros coloquiais e eruditos, a abordagem de questões existenciais, filosóficas e metafísicas, a valorização da cultura popular e do sertão mineiro, a presença de elementos fantásticos, míticos e simbólicos, e a construção de personagens complexos, ambíguos e surpreendentes.

Os contos de Terceira estórias podem ser divididos em três grupos, conforme a classificação proposta pelo crítico Davi Arrigucci Jr.: os contos de memória, que remetem à infância e à adolescência do autor, como "As margens da alegria", "Os cimos" e "Nós os temulentos"; os contos de reflexão, que apresentam diálogos, monólogos ou cartas de personagens que discutem temas como a morte, o amor, a arte, a religião e a linguagem, como "Carta de amor", "A benfazeja" e "O recado do morro"; e os contos de invenção, que narram histórias fantásticas, absurdas ou humorísticas, que desafiam a lógica e a verossimilhança, como "Sorôco, sua mãe, sua filha", "Os chapéus transeuntes" e "Nenhum, nenhuma".

Alguns dos contos mais conhecidos e admirados de Terceira estórias são "A menina de lá", que narra o encontro entre um vaqueiro e uma menina misteriosa que vive em uma ilha no meio do rio São Francisco, e que possui o dom de curar e de prever o futuro; "Famigerado", que conta a história de um jagunço que procura um doutor para saber o significado da palavra famigerado, que ouviu de um inimigo; e "Arroio-das-Antas", que descreve a visita de um escritor famoso à sua cidade natal, onde é recebido com indiferença e hostilidade pelos habitantes.

Os contos de Terceira estórias são repletos de ensinamentos, que podem ser extraídos das falas, dos pensamentos e das ações dos personagens, ou das intervenções do narrador. Alguns exemplos de citações que expressam esses ensinamentos são:

- "A gente morre é para provar que viveu." ("A menina de lá")

- "O que lembro, tenho." ("As margens da alegria")

- "O que muito se adia, se perde." ("Carta de amor")

- "O que a vida quer da gente é coragem." ("O recado do morro")

- "Tudo é e não é..." ("Nós os temulentos")

O livro Terceira estórias pode ser situado no contexto histórico e cultural do Brasil dos anos 1960, marcado por profundas transformações sociais, políticas e artísticas. O golpe militar de 1964, que instaurou uma ditadura no país, gerou um clima de repressão, censura e violência, que afetou a liberdade de expressão e a participação política dos intelectuais e dos artistas. Por outro lado, o movimento da Tropicália, que surgiu em 1967, propôs uma renovação estética e ideológica na música, na literatura, no cinema e nas artes plásticas, incorporando elementos da cultura popular, da vanguarda e da contracultura, e criticando a situação do país e do mundo. Guimarães Rosa, que era diplomata de carreira, manteve uma postura discreta em relação ao regime militar, mas não deixou de expressar sua visão crítica e criativa sobre a realidade brasileira em sua obra, que dialoga com as tendências artísticas da época, como o realismo mágico, o surrealismo e o modernismo.

Os personagens de Terceira estórias são, em sua maioria, pessoas simples, humildes e marginalizadas, que vivem no sertão mineiro ou em cidades pequenas do interior. Eles representam a diversidade e a riqueza da cultura popular brasileira, com seus costumes, seus valores, seus saberes, seus modos de falar e de se relacionar. Eles também revelam a complexidade e a ambiguidade da condição humana, com seus conflitos, seus desejos, seus medos, suas angústias, suas esperanças e suas surpresas. Alguns exemplos de personagens marcantes são: Nhinhinha, a menina de lá, que encanta e assusta o vaqueiro com sua sabedoria e seu mistério; Damázio Siqueira, o famigerado, que busca o conhecimento e o respeito através da palavra; Riobaldo, o ex-jagunço e protagonista de Grande sertão: veredas, que reaparece em dois contos, "Arroio-das-Antas" e "Entremeio: com o vaqueiro Mariano", e que reflete sobre a sua vida e a sua obra; e o próprio Guimarães Rosa, que se faz presente em alguns contos, como narrador ou personagem, e que expõe suas inquietações e seus desafios como escritor.

A simbologia é um aspecto fundamental da obra de Guimarães Rosa, que utiliza diversos recursos para criar sentidos ocultos, implícitos ou sugeridos em suas narrativas. Um desses recursos é o uso de nomes próprios significativos, que revelam características ou destinos dos personagens, como Sorôco, que significa "o que ficou só"; Nhinhinha, que significa "a que sabe coisas"; e Famigerado, que significa "o que tem má fama". Outro recurso é o emprego de cores, números, animais, plantas e objetos simbólicos, que remetem a conceitos ou alegorias, como o vermelho, que simboliza o sangue, a paixão, o pecado e o diabo; o três, que simboliza a trindade, a perfeição, a harmonia e a síntese; o jacaré, que simboliza o rio, o tempo, a morte e a metamorfose; o mandacaru, que simboliza o sertão, a resistência, a esperança e a vida; e a canoa, que simboliza a viagem, a solidão, a loucura e a transcendência.

A importância e a relevância cultural de Terceira estórias são inquestionáveis, pois se trata de uma obra que representa o ápice da genialidade de Guimarães Rosa, um dos maiores escritores da literatura brasileira e mundial. O livro é um exemplo de como a arte pode transformar a linguagem e a realidade, criando novas formas de expressão e de compreensão do mundo e do ser humano. O livro é também um testemunho da diversidade e da riqueza da cultura popular brasileira, que é valorizada e resgatada pelo autor, que a recria com originalidade e sensibilidade. O livro é, ainda, uma fonte de ensinamentos e de questionamentos, que estimulam o leitor a refletir sobre temas universais, como o amor, a morte, a arte, a religião e a linguagem, e sobre temas nacionais, como a identidade, a história, a violência e a esperança do Brasil.

João Guimarães Rosa nasceu em 1908, em Cordisburgo, Minas Gerais, e morreu em 1967, em Rio de Janeiro, Rio de Janeiro. Foi médico, diplomata e escritor. Estreou na literatura em 1946, com o livro de contos Sagarana, que inaugurou o ciclo do sertão em sua obra.

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