[RESENHA #804] A hora e vez de Augusto Matraga, de Guimarães Rosa


A hora e a vez de Augusto Matraga é uma novela de Guimarães Rosa, publicada em 1946 no livro Sagarana, que reúne nove narrativas ambientadas no sertão mineiro. Considerada pelo autor como "de certa forma, síntese e chave de todas as outras" narrativas da obra, a novela é um exemplo do estilo inovador e original de Guimarães Rosa, que combina elementos da linguagem popular, da oralidade, da poesia e da erudição, criando uma prosa rica e expressiva.

A novela conta a história de Nhô Augusto, ou Augusto Esteves, um homem violento e cruel, que perde tudo o que tem: a fortuna, a família, os capangas e a honra. Após ser espancado e dado como morto pelos seus inimigos, ele é salvo por um casal de negros, que o acolhe e cuida das suas feridas. Nesse momento, Nhô Augusto passa por uma profunda transformação, arrependendo-se dos seus pecados e buscando uma vida de trabalho, fé e bondade. Ele muda de nome, de lugar e de comportamento, esperando pela sua hora e vez de entrar no céu. No entanto, o destino o coloca frente a frente com o seu passado, quando ele se depara com o bando do jagunço Joãozinho Bem-Bem, que pretende matar um velho e sua família. Nhô Augusto decide intervir, desafiando o líder do bando, e morre em combate, mas não sem antes recuperar a sua dignidade e a sua coragem.

A novela apresenta uma série de personagens marcantes, que representam a diversidade e a complexidade do sertão. Além do protagonista, que passa por uma jornada de redenção e de autoconhecimento, há outros personagens que se destacam, como Dona Dionóra, a esposa infeliz que foge com o amante; Ovídio Moura, o homem que leva a mulher e a filha de Nhô Augusto; Major Consilva, o inimigo que manda espancar Nhô Augusto; Mãe Quitéria e Pai Serapião, o casal que salva e protege Nhô Augusto; Padre Panta, o religioso que aconselha Nhô Augusto a rezar e trabalhar; e Joãozinho Bem-Bem, o jagunço que enfrenta Nhô Augusto na luta final.

A novela também é repleta de ensinamentos, que são transmitidos por meio de provérbios, ditados, orações e reflexões. Alguns exemplos são:

- "Quem mal anda, mal acaba."

- "Deus te dê boa sorte, mas te aconselho: reza e trabalha."

- "A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem."

- "O diabo, quando não vem, manda o recado."

- "Quem quer que seja, nesta vida, tem a sua hora e a sua vez: você há de ter a sua."

A novela também explora a simbologia do sertão, que é visto como um espaço de contradições, de desafios, de mistérios e de beleza. O sertão é o cenário onde se desenrola a luta entre o bem e o mal, entre a violência e a piedade, entre o pecado e a salvação. O sertão é, ao mesmo tempo, real e mítico, histórico e atemporal, concreto e abstrato. O sertão é, como diz o próprio autor, "o mundo".

A importância e a relevância cultural da novela são inegáveis, pois ela representa uma obra-prima da literatura brasileira, que revela a genialidade e a originalidade de Guimarães Rosa. A novela é um exemplo de como o autor soube criar uma linguagem própria, que valoriza a cultura popular, a oralidade, a poesia e a erudição, sem perder a coerência e a harmonia. A novela também é um exemplo de como o autor soube retratar o sertão, não como um mero cenário, mas como um personagem, que tem vida, alma e voz. A novela é, enfim, um exemplo de como o autor soube contar uma história, que envolve, emociona e surpreende o leitor, que se identifica com os dramas, os dilemas e as esperanças dos personagens.

Guimarães Rosa nasceu em 1908, em Cordisburgo, Minas Gerais, e morreu em 1967, no Rio de Janeiro. Foi médico, diplomata, escritor e um dos maiores nomes da literatura brasileira. Além de Sagarana, publicou outras obras importantes, como Corpo de Baile, Grande Sertão: Veredas, Primeiras Estórias, Tutaméia e Estas Estórias. Recebeu diversos prêmios e homenagens, como o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, e o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro. Foi eleito para a Academia Brasileira de Letras em 1963, mas morreu antes de tomar posse.

A hora e a vez de Augusto Matraga é uma novela que merece ser lida e relida, pois ela oferece ao leitor uma experiência literária única, que combina a arte, a cultura, a filosofia e a religião, em uma narrativa envolvente e fascinante. A novela é uma obra que mostra a capacidade do ser humano de se transformar, de se superar, de se redimir e de se realizar, mesmo diante das adversidades e das tentações da vida. A novela é uma obra que celebra a força, a fé e a coragem do sertanejo, que é, na verdade, um símbolo do povo brasileiro. A novela é uma obra que revela a grandeza, a originalidade e a genialidade de Guimarães Rosa, que é, sem dúvida, um dos maiores escritores da nossa língua.

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