[RESENHA #803] Corpo de baile, de Guimarães Rosa

Corpo de baile é uma obra-prima da literatura brasileira, escrita por João Guimarães Rosa, um dos maiores escritores do século XX. O livro reúne sete novelas que retratam o universo do sertão mineiro, com suas paisagens, costumes, lendas, mitos e personagens inesquecíveis. A obra foi publicada em 1956, no mesmo ano de Grande sertão: veredas, outro clássico do autor, e pode ser considerada um complemento deste, pois explora diferentes aspectos da vida sertaneja, com uma linguagem rica, inventiva e poética.

O estilo de Guimarães Rosa é marcado pela criação de neologismos, regionalismos, arcaísmos, estrangeirismos e outras formas de expressão que revelam a diversidade e a originalidade da fala do sertão. O autor também utiliza recursos sonoros, como aliterações, assonâncias, rimas e ritmos, que conferem musicalidade e harmonia ao texto. Além disso, Guimarães Rosa emprega símbolos, metáforas, alegorias e parábolas, que ampliam o sentido e a profundidade das histórias, tornando-as universais e atemporais.

As novelas que compõem o Corpo de baile são: Campo geral, Uma história de amor, O recado do morro, Cara-de-bronze, A história de Lélio e Lina, Dão-Lalalão e Buriti. Cada uma delas apresenta um conjunto de personagens que vivem dramas, conflitos, aventuras, amores e desamores no cenário do sertão. Entre eles, destacam-se Manuelzão, o vaqueiro que sonha com uma festa de batizado para seu afilhado; Miguilim, o menino que descobre o mundo e a si mesmo através do olhar; Lélio e Lina, os primos que se amam e se separam por causa de um destino trágico; Dão-Lalalão, o homem que se entrega à morte por amor a uma mulher; e Miguel, o adulto que retorna ao sertão de sua infância e reencontra seus antigos amigos e amores.

As novelas do Corpo de baile ensinam ao leitor sobre a sabedoria, a beleza, a dor e a alegria de viver no sertão. Elas mostram que o sertão é um lugar de contrastes, de mistérios, de magia, de fé, de coragem, de solidariedade, de violência, de paixão, de liberdade e de destino. Elas também revelam que o sertão é um espelho da alma humana, que reflete seus sonhos, seus medos, seus desejos, seus pecados, suas virtudes e suas contradições.

Algumas citações da obra que ilustram o estilo e o pensamento de Guimarães Rosa são:

- "Tudo é e não é..." (Campo geral)

- "O sertão é do tamanho do mundo." (Uma história de amor)

- "O que lembro, tenho." (O recado do morro)

- "Viver é muito perigoso..." (Cara-de-bronze)

- "O amor é uma coisa que não se explica." (A história de Lélio e Lina)

- "A morte é para os que morrem." (Dão-Lalalão)

- "O sertão é uma espera enorme." (Buriti)

O período histórico em que se passam as novelas do Corpo de baile é o século XX, mas não há uma datação precisa, pois o sertão é um lugar atemporal, que preserva suas tradições e sua cultura. O contexto histórico e social é o do Brasil rural, marcado pela desigualdade, pela pobreza, pela exploração, pela seca, pela migração, pela religiosidade, pela resistência e pela esperança.

A simbologia do Corpo de baile é complexa e variada, envolvendo elementos da natureza, da astrologia, da alquimia, da mitologia, da religião, da filosofia e da psicologia. O próprio título da obra remete à ideia de uma dança cósmica, em que os personagens, os lugares, as histórias e os tempos se entrelaçam e se harmonizam, formando um todo orgânico e dinâmico. Alguns exemplos de símbolos presentes na obra são: o buriti, a palmeira que representa a vida, a resistência e a fertilidade; o urubu, a ave que simboliza a morte, a transformação e a renovação; o morro, a elevação que significa o mistério, a revelação e a transcendência; o rio, o curso d'água que expressa o movimento, a mudança e a continuidade; o fogo, o elemento que manifesta o amor, a paixão e a purificação; e o sol, o astro que ilumina o sertão, o mundo e a alma.

A importância e a relevância cultural do Corpo de baile são inquestionáveis, pois se trata de uma obra que valoriza e divulga a cultura brasileira, especialmente a do sertão, com sua riqueza, sua diversidade, sua originalidade e sua universalidade. A obra também contribui para a renovação e a ampliação da linguagem literária, criando novas formas de expressão e de comunicação. Além disso, a obra oferece ao leitor uma experiência estética e existencial, provocando emoções, reflexões, questionamentos e aprendizados.

João Guimarães Rosa nasceu em Cordisburgo, Minas Gerais, em 27 de junho de 1908. Formou-se em medicina em 1930, mas nunca exerceu a profissão. Ingressou na carreira diplomática em 1934, servindo em vários países, como Alemanha, França, Colômbia e Uruguai. Casou-se duas vezes e teve quatro filhos. Publicou seu primeiro livro, Magma, em 1936, mas só ganhou reconhecimento com Sagarana, em 1946. Em 1956, publicou Corpo de baile e Grande sertão: veredas, obras que o consagraram como um dos maiores escritores brasileiros. Em 1963, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, mas morreu antes de tomar posse, em 19 de novembro de 1967, vítima de um infarto.

 Corpo de baile é uma obra fascinante, que encanta e surpreende o leitor a cada página, a cada frase, a cada palavra. É uma obra que revela a genialidade, a criatividade e a sensibilidade de Guimarães Rosa, um autor que soube captar e recriar a essência do sertão e da humanidade, com uma linguagem que é ao mesmo tempo arte e magia. É uma obra que merece ser lida, relida, estudada e admirada, pois é uma obra que enriquece, emociona e transforma o leitor.

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