[RESENHA #802] O burrinho pedrês, de Guimarães Rosa


O burrinho pedrês é um dos nove contos que compõem o livro Sagarana, de Guimarães Rosa, publicado em 1946. O autor é considerado um dos mais importantes escritores brasileiros do modernismo, e sua obra se destaca pela inovação linguística, pelo regionalismo mineiro e pela abordagem filosófica e psicológica dos personagens.

O conto narra a jornada de uma comitiva de vaqueiros que conduz uma boiada do major Saulo, um fazendeiro poderoso e respeitado, até um arraial distante. Entre os vaqueiros, há uma rivalidade entre Silvino e Badu, motivada por uma disputa amorosa. Silvino planeja matar Badu na volta, depois de atravessarem um ribeirão que costuma encher com as chuvas. Por falta de cavalos, o velho burrinho Sete-de-Ouros, que pertence ao major, é escolhido para levar um dos vaqueiros, João Manico. No caminho, os vaqueiros contam histórias sobre o sertão, os animais e as pessoas, revelando aspectos da cultura e da mentalidade regional.

O burrinho Sete-de-Ouros é o protagonista e o símbolo do conto. Ele representa a resistência, a sabedoria e a humildade do sertanejo, que enfrenta as adversidades da natureza e da vida com resignação e coragem. O burrinho também é um contraponto ao orgulho e à violência dos homens, que se deixam levar pelas paixões e pelos conflitos. O burrinho é o único que consegue salvar Badu e Francolim, o capataz do major, da enchente que mata os outros vaqueiros, inclusive Silvino. O burrinho é o herói anônimo e silencioso, que cumpre seu destino sem alarde.

O estilo de Guimarães Rosa é marcado pela criação de uma linguagem própria, que mistura termos populares, arcaicos, estrangeiros e inventados, criando um efeito poético e original. O autor também explora as sonoridades e os ritmos das palavras, criando uma musicalidade que remete aos cantos e às modas de viola do sertão. Além disso, o autor utiliza recursos como a metáfora, a ironia, o humor e a ambiguidade, que enriquecem o sentido e a interpretação do texto.

O conto O burrinho pedrês é uma obra-prima da literatura brasileira, que retrata o universo do sertão mineiro com maestria e sensibilidade. O autor consegue criar personagens complexos e verossímeis, que expressam os valores, os dilemas e os sonhos do homem sertanejo. O autor também consegue criar uma atmosfera de suspense e de emoção, que prende a atenção do leitor até o final. O conto é uma lição de vida, que mostra que a grandeza não está na força ou na fama, mas na simplicidade e na bondade. Algumas citações do conto que ilustram essas ideias são:

- "O burrinho pedrês era o mais velho de todos os animais da fazenda, e já não servia para quase nada. Mas o major Saulo gostava dele, e não consentia que o maltratassem."

- "O burrinho pedrês não tinha pressa. Sabia que a vida é difícil, e que o melhor é fazer cada coisa a seu tempo. Por isso, ele não se importava de ir atrás dos outros, devagarinho, com paciência e resignação."

- "Silvino estava com ódio de Badu, porque Badu lhe tinha tomado a namorada. A moça era caolha, mas bonita. Silvino não se conformava de ter perdido a moça para Badu, que era feio e bêbado. Por isso, ele resolveu matar Badu na volta, depois de passarem o ribeirão."

- "O burrinho pedrês não sabia de nada disso. Ele só sabia que tinha que levar o João Manico na garupa, e seguir o caminho que os outros seguiam. Ele não tinha medo nem de onça nem de boi bravo. Ele confiava no seu instinto e na sua experiência."

- "Quando chegaram ao ribeirão, a água estava muito alta e muito forte. Os vaqueiros hesitaram em atravessar, mas o major Saulo mandou que fossem. Ele disse que era preciso chegar logo à fazenda, e que não havia perigo. Mas ele se enganou. A água era traiçoeira, e levou muitos vaqueiros e cavalos para o fundo."

- "O burrinho pedrês foi o último a entrar na água. Ele levava o Badu, que estava bêbado, e o Francolim, que se agarrou no seu rabo. O burrinho pedrês sentiu a força da correnteza, mas não se assustou. Ele usou toda a sua inteligência e a sua vontade, e conseguiu chegar à outra margem, são e salvo, com os dois homens que dependiam dele."

- "O major Saulo ficou muito feliz de ver o burrinho pedrês, o Badu e o Francolim vivos. Ele abraçou o burrinho, e disse que ele era o melhor animal do mundo. Ele também disse que ia dar um descanso merecido ao burrinho, e que nunca mais ia deixar que alguém montasse nele. O burrinho pedrês não entendeu as palavras do major, mas sentiu o seu carinho. Ele baixou a cabeça, e suspirou. Ele tinha cumprido a sua missão."


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