[RESENHA #801] A terceira margem do rio, de Guimarães Rosa


A terceira margem do rio é um dos contos mais famosos e emblemáticos de João Guimarães Rosa, um dos maiores escritores brasileiros do século XX. Publicado em 1962, no livro Primeiras Estórias, o conto narra a história de um homem que abandona sua família e sua vida para viver em uma canoa, no meio de um rio, sem nunca mais pisar em terra firme. A narrativa é feita pelo filho desse homem, que tenta compreender os motivos e as consequências dessa escolha misteriosa e radical.

O estilo de Guimarães Rosa é marcado pela inovação linguística, pela criação de neologismos, pelo uso de regionalismos e pelo lirismo. O autor explora as possibilidades sonoras, semânticas e sintáticas da língua portuguesa, criando um texto rico e original, que exige do leitor uma atenção e uma sensibilidade especiais. O conto também se destaca pela sua estrutura circular, que começa e termina com a mesma frase: "Nosso pai era homem cumpridor, ordeiro, positivo; e sido assim desde mocinho e menino, pelo que testemunharam as diversas sensatas pessoas, quando indaguei a informação."

Os principais personagens do conto são o pai, o filho narrador, a mãe, o irmão, a irmã e o neto. O pai é o personagem central, que provoca o conflito e o mistério da narrativa. Ele é descrito como um homem normal, trabalhador e honesto, que não apresentava nenhum sinal de loucura ou de insatisfação. No entanto, ele decide construir uma canoa e se isolar no rio, sem dar nenhuma explicação ou justificativa. Ele se transforma em uma figura quase lendária, que desperta a curiosidade e a piedade dos outros. O filho narrador é o personagem que mais se aproxima do pai, que tenta manter algum contato com ele, que lhe envia roupas e alimentos, e que, no final, assume o seu lugar na canoa. Ele é o único que herda o gesto e o destino do pai, sem também entender o seu significado. A mãe é a personagem que mais sofre com a partida do pai, que se sente abandonada e traída. Ela reage com raiva e amargura, e tenta reconstruir a sua vida com a ajuda do seu irmão. Ela também se opõe à aproximação do filho com o pai, e tenta impedir que ele siga o mesmo caminho. O irmão e a irmã são personagens secundários, que representam a normalidade e a continuidade da vida. Eles se casam, têm filhos e se afastam da casa e do rio. O neto é o personagem que simboliza a esperança e a renovação. Ele é o primeiro a ver o pai na canoa, e é levado pela mãe para tentar convencê-lo a voltar.

O conto traz vários ensinamentos, que podem ser interpretados de diferentes formas. Um deles é a questão da identidade, da busca pelo sentido da existência, da necessidade de romper com as convenções e as expectativas sociais. O pai representa alguém que se rebela contra a ordem estabelecida, que se lança em uma aventura solitária e incompreensível, que busca uma outra forma de viver e de se relacionar com o mundo. Ele é um personagem que desafia os limites da razão e da linguagem, que se coloca em uma situação extrema e paradoxal, que se torna um enigma para si mesmo e para os outros. Outro ensinamento é a questão da relação entre pais e filhos, da transmissão de valores, de gestos e de destinos. O filho representa alguém que se identifica com o pai, que tenta compreender o seu ato, que sente uma ligação profunda e inexplicável com ele. Ele é um personagem que se sacrifica pelo pai, que assume a sua responsabilidade, que repete o seu gesto e o seu destino. Ele é o único que se dispõe a acompanhar o pai na sua jornada, que se coloca na sua perspectiva, que se torna o seu herdeiro.

O conto tem várias citações marcantes, que revelam a beleza e a profundidade do texto. Algumas delas são:

- "Nosso pai não voltou. Ele não tinha ido a nenhuma parte. Só executava a invenção de se permanecer naqueles espaços do rio, de meio a meio, sempre dentro da canoa, para dela não saltar, nunca mais."

- "A estranheza dessa verdade deu para estarrecer de todo a gente. Aquilo que não havia, acontecia."

- "Enxerguei nosso pai, no enfim de uma hora, tão custosa para sobrevir: só assim, ele no ao-longe, sentado no fundo da canoa, suspendida no liso do rio. Me viu, não remou para cá, não fez sinal. Mostrei o de comer, depositei num oco de pedra do barranco, a salvo de bicho mexer e a seco de chuva e orvalho."

- "Sofri o grave frio dos medos, adoeci. Sei que ninguém soube mais dele. Sou homem, depois desse falimento? Sou o que não foi, o que vai ficar calado. Sei que agora é tarde, e temo abreviar com a vida, nos rasos do mundo. Mas, então, ao menos, que, no artigo da morte, peguem em mim, e me depositem também numa canoinha de nada, nessa água que não pára, de longas beiras: e, eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro — o rio."

O conto se passa em um período histórico indefinido, mas que pode ser situado no século XX, no interior do Brasil. O cenário é o rio, que é o elemento simbólico mais importante da narrativa. O rio representa a vida, o tempo, o movimento, a mudança, a liberdade, o mistério, o desafio, a transcendência. O rio é o espaço onde o pai se refugia, onde ele se transforma, onde ele se isola, onde ele se confronta. O rio é o que separa e o que une o pai e o filho, o que os distancia e o que os aproxima, o que os diferencia e o que os assemelha. O rio é o que possibilita e o que impede a comunicação, o que expressa e o que silencia, o que revela e o que oculta. O rio é o que cria e o que destrói, o que gera e o que mata, o que nasce e o que morre. O rio é o que tem duas margens visíveis e uma terceira margem invisível, que é o lugar do pai, do filho e do leitor.

A importância e a relevância cultural do conto são inegáveis. A terceira margem do rio é uma obra-prima da literatura brasileira e mundial, que se tornou um clássico, que inspirou outras obras artísticas, que provocou inúmeras interpretações e debates, que desafiou e encantou gerações de leitores. O conto é uma expressão da genialidade de Guimarães Rosa, que soube criar uma narrativa original, envolvente, poética, profunda, que toca em questões universais e humanas, que transcende as fronteiras do tempo e do espaço, que se renova a cada leitura.

João Guimarães Rosa nasceu em 1908, em Cordisburgo, Minas Gerais. Formou-se em medicina, mas dedicou-se à literatura e à diplomacia. Publicou seu primeiro livro, Magma, em 1936, mas só ganhou reconhecimento com Sagarana, em 1946. Em 1956, publicou seu romance mais famoso, Grande Sertão: Veredas, que o consagrou como um dos maiores escritores brasileiros. Em 1962, publicou Primeiras Estórias, que contém o conto A terceira margem do rio. Em 1963, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, mas morreu antes de tomar posse, vítima de um infarto.

A minha crítica sobre o conto é positiva. Eu considero A terceira margem do rio uma obra fascinante, que me fez refletir sobre a vida, o pai, o filho, o rio, a linguagem, o sentido. Eu admirei a capacidade de Guimarães Rosa.

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