[RESENHA #800] Primeiras Estórias, de Guimarães Rosa

Primeiras Estórias, de Guimarães Rosa, é um livro de contos publicado em 1962, que reflete a terceira fase do modernismo brasileiro. O autor, considerado um dos maiores escritores da língua portuguesa, utiliza-se de um estilo inovador, marcado pelo uso de neologismos, regionalismos, arcaísmos e estrangeirismos, que conferem uma riqueza poética e musical à sua prosa. Os 21 contos que compõem a obra abordam temas universais, como a vida, a morte, o amor, a violência, a religião, a infância, a velhice, a loucura, o sonho e o mistério, tendo como cenário principal o sertão mineiro, mas também outros lugares, como o Rio de Janeiro e a Europa.

Os personagens de Primeiras Estórias são, em sua maioria, pessoas simples, humildes, marginalizadas, que vivem em um ambiente hostil e desafiador, mas que também guardam uma sabedoria, uma sensibilidade e uma esperança diante das adversidades. Entre eles, destacam-se o menino que descobre a alegria e a tristeza da vida em “As margens da alegria”; o jagunço que se preocupa com o significado de uma palavra em “Famigerado”; o pai que leva a mãe e a filha para o manicômio em “Sorôco, sua mãe, sua filha”; a menina que realiza seus desejos mais estranhos em “A menina de lá”; os irmãos que perdoam o assassino de seu parente em “Os irmãos Dagobé”; o médico que se envolve com uma paciente misteriosa em “A terceira margem do rio”; o homem que se transforma em pássaro em “Páramo”; e o narrador que relembra sua infância em “Nenhum, nenhuma”.

A obra de Guimarães Rosa revela uma profunda reflexão sobre a condição humana, explorando as contradições, os conflitos, as angústias e as alegrias que permeiam a existência. O autor utiliza-se de uma linguagem simbólica, metafórica, alegórica, que muitas vezes exige uma interpretação mais atenta e cuidadosa do leitor. Algumas citações marcantes da obra são:

  • “Quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo.” (“As margens da alegria”)
  • “O senhor sabe o que é famigerado?” (“Famigerado”)
  • “A gente morre é para provar que viveu.” (“Nenhum, nenhuma”)
  • “E o que a vida fez da gente, o que a gente fez da vida?” (“Os cimos”)
  • “E ele estava na terceira margem do rio. Não na terceira margem de um rio qualquer, mas na terceira margem do rio da vida.” (“A terceira margem do rio”)

Primeiras Estórias é uma obra de grande importância e relevância cultural, pois representa uma contribuição original e singular para a literatura brasileira e mundial. Guimarães Rosa, que nasceu em 1908 em Cordisburgo, Minas Gerais, e morreu em 1967 no Rio de Janeiro, foi médico, diplomata, escritor e poliglota, tendo publicado outras obras consagradas, como Sagarana, Grande Sertão: Veredas, Corpo de Baile e Tutaméia. Sua obra foi traduzida para vários idiomas e recebeu diversos prêmios e homenagens, como o Prêmio Machado de Assis, o Prêmio Jabuti e o Prêmio Goethe.

Minha admiração e apreço pela obra de Guimarães Rosa, que considero um mestre da palavra, um artista da linguagem, um criador de mundos e de sentidos. Primeiras Estórias é um livro que me encanta, me emociona, me surpreende e me faz pensar sobre a vida e suas múltiplas facetas. Recomendo a leitura para todos que apreciam uma boa literatura, que valorizam a cultura brasileira e que buscam uma experiência estética e existencial única e inesquecível.

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