[RESENHA #799] Campo geral, de Guimarães Rosa

Campo geral, de Guimarães Rosa, é uma novela que narra a infância e o amadurecimento de Miguilim, um menino que vive em uma fazenda no sertão de Minas Gerais. A obra faz parte da terceira geração modernista brasileira e apresenta características como o regionalismo, o neologismo, o lirismo e a subjetividade.

O autor, João Guimarães Rosa, nasceu em 1908, em Cordisburgo, Minas Gerais, e morreu em 1967, no Rio de Janeiro. Foi médico, diplomata e escritor, sendo considerado um dos maiores nomes da literatura brasileira. Sua obra mais famosa é Grande Sertão: Veredas, publicada em 1956, mesmo ano de Campo geral. Outras obras importantes são Sagarana, Primeiras Estórias e Tutaméia.

Campo geral foi publicado inicialmente na obra Corpo de Baile, em 1956, e depois na obra Manuelzão e Miguilim, em 1964. A novela é dividida em duas partes: a primeira, chamada de "Miguilim", conta as aventuras e desventuras do protagonista até os oito anos de idade; a segunda, chamada de "Mutum", mostra a mudança de Miguilim para outra cidade, após descobrir que é míope e precisa usar óculos.

A história se passa em um tempo cronológico indefinido, mas provavelmente na República Velha, e em um espaço cíclico, que se repete ao longo da narrativa. O cenário é o sertão mineiro, com suas paisagens, costumes, crenças e linguagem típicas. O narrador é onisciente, mas relata os fatos pela perspectiva de Miguilim, usando uma linguagem simples, poética e inventiva.

Os personagens da obra são, em sua maioria, membros da família de Miguilim, que vivem em uma situação de pobreza e isolamento. Alguns deles são:

- Miguilim: o protagonista, um menino sensível, curioso e bondoso, que sofre com a morte da mãe e do irmão, a traição do pai e a doença que afeta sua visão. Ele tem uma relação especial com a natureza, com os animais e com algumas pessoas, como o vaqueiro Jé, o tio Terêz e o amigo Dito.

- Pai, Bero, Berno ou Bernardo Caz: o pai de Miguilim, um homem severo, autoritário e infiel, que maltrata o filho e o faz trabalhar na roça. Ele tem um caso com Maria Pretinha, uma moça que mora na fazenda vizinha.

- Mãe ou Nhanina: a mãe de Miguilim, uma mulher doce, religiosa e resignada, que morre de parto quando dá à luz a seu oitavo filho, Majéla ou Patorí.

- Dito: o irmão mais novo de Miguilim, um menino inteligente, sábio e predestinado, que morre de uma doença misteriosa. Ele é o melhor amigo de Miguilim e o ajuda a entender o mundo.

- Tio Terêz: o tio de Miguilim, um homem bondoso, alegre e generoso, que ensina o sobrinho a ler e a escrever. Ele é o único que se opõe ao pai de Miguilim e o defende das injustiças.

- Vaqueiro Jé: o vaqueiro da fazenda, um homem forte, corajoso e leal, que protege e admira Miguilim. Ele é o responsável por levar o menino para a cidade, onde ele descobre que precisa usar óculos.

A obra traz vários ensinamentos sobre a vida, a morte, o amor, a amizade, a fé, a esperança, a dor, a alegria, a solidão, a liberdade, a coragem, a inocência, a maldade, a bondade, entre outros temas universais. Alguns exemplos de citações que ilustram esses ensinamentos são:

- "Miguilim, você é um menino muito bom, muito corajoso. Você vai ser feliz, você vai ver. Você vai crescer, você vai ser um homem, o mundo é tão grande..." (Tio Terêz para Miguilim, p. 77)

- "A gente morre é pra ficar melhor. A gente morre é pra semente." (Dito para Miguilim, p. 55)

- "O senhor sabe o que é o amor? É o que fica depois que a gente não gosta mais." (Miguilim para o doutor, p. 117)

- "O que a vida quer da gente é coragem." (Vaqueiro Jé para Miguilim, p. 116)

- "Tudo é muito. O mundo é muito, e ninguém sabe o que quer dizer. Só Deus sabe. Deus sabe tudo." (Miguilim, p. 34)

A obra também apresenta uma simbologia que revela aspectos da personalidade e do destino dos personagens. Por exemplo, o nome Miguilim significa "pequeno Miguel", que é o nome do arcanjo que luta contra o mal. O nome Mutum significa "ave silenciosa", que é o símbolo da solidão e do isolamento. O óculos que Miguilim usa representa a sua visão de mundo, que se amplia e se transforma.

A importância e a relevância cultural de Campo geral se devem à sua capacidade de retratar a realidade do sertão brasileiro, com suas belezas e dificuldades, e de expressar os sentimentos e os pensamentos de uma criança, com sua pureza e sua sabedoria. A obra é um exemplo de como a literatura pode ser uma forma de arte, de conhecimento e de humanização.

A crítica positiva que se pode fazer sobre a obra é que ela é uma obra-prima da literatura brasileira, que encanta e emociona o leitor com sua linguagem original, sua narrativa envolvente, seus personagens cativantes e seus ensinamentos profundos. É uma obra que merece ser lida, relida e apreciada por todos que amam a literatura e a vida.

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