[RESENHA #798] Sagarana, de Guimarães Rosa

Sagarana é uma obra de contos do escritor modernista brasileiro João Guimarães Rosa, publicada em 1946. O livro é considerado um marco na literatura nacional, pois apresenta uma linguagem inovadora, que mescla elementos eruditos e populares, além de criar neologismos e regionalismos. O título do livro é uma junção de saga, que significa lenda ou narrativa heroica, e rana, que vem do tupi e significa semelhante ou parecido. Assim, Sagarana sugere uma saga sertaneja, que retrata a vida, os costumes, os conflitos e os valores dos habitantes do interior de Minas Gerais.

A obra é composta por nove contos, que são: O Burrinho Pedrês, A Volta do Marido Pródigo, Sarapalha, O Duelo, Minha Gente, São Marcos, Corpo Fechado, Conversa de Bois e A Hora e Vez de Augusto Matraga. Cada conto tem sua própria trama, mas todos eles estão interligados por elementos comuns, como o cenário, o vocabulário, as crenças, as lendas e os mitos do sertão. Além disso, os contos apresentam uma estrutura circular, que começa e termina com a mesma situação ou palavra, criando um efeito de fechamento e harmonia.

Os personagens de Sagarana são, em sua maioria, homens simples, rudes, valentes e honrados, que vivem em um ambiente hostil e desafiador. Eles enfrentam situações de violência, vingança, amor, traição, solidão, doença, morte, fé, superstição e destino. Alguns exemplos de personagens marcantes são: Manuel Fulô, o vaqueiro que resiste às tentações do feiticeiro Antonico das Pedras-Águas; Izé, o homem que desafia os poderes do feiticeiro Nhô Augusto; Turíbio Todo, o marido traído que mata o irmão do amante de sua mulher; e Augusto Matraga, o fazendeiro cruel que se redime após uma experiência de quase morte.

A obra de Guimarães Rosa é rica em ensinamentos, que podem ser extraídos de suas histórias, seus personagens, suas reflexões e suas citações. Algumas das lições que Sagarana nos transmite são: a importância da coragem, da honra, da justiça, da lealdade e da bondade; a valorização da cultura, da tradição, da religiosidade e da oralidade do povo sertanejo; a consciência da complexidade, da diversidade, da beleza e da poesia da língua portuguesa; e a percepção da existência de uma ordem superior, de uma força misteriosa, de uma providência divina que rege o destino dos homens.

Sagarana é uma obra que contém diversas citações marcantes, que revelam a sabedoria, a ironia, o humor e a criatividade de Guimarães Rosa. Algumas dessas citações são:

- "Viver é muito perigoso..." (A Hora e Vez de Augusto Matraga)

- "O diabo na rua, no meio do redemunho..." (Sarapalha)

- "O sertão é do tamanho do mundo." (Grande Sertão: Veredas)

- "O que lembro, tenho." (Conversa de Bois)

- "Quem conta um conto aumenta um ponto, mas quem vive um conto aumenta um tanto." (Minha Gente)

A obra de Guimarães Rosa também é rica em simbologia, que pode ser percebida em seus títulos, seus nomes, seus números, seus animais, seus objetos e seus fenômenos naturais. Alguns exemplos de símbolos presentes em Sagarana são: o burrinho pedrês, que representa a resistência, a persistência e a sabedoria do sertanejo; o marido pródigo, que remete à parábola bíblica do filho pródigo; a sarapalha, que simboliza a doença, a decadência e a morte; o duelo, que expressa o conflito, a violência e a vingança; a minha gente, que denota a identidade, a pertença e a solidariedade; São Marcos, que alude à proteção, à fé e ao milagre; o corpo fechado, que indica a magia, a tentação e o pacto; a conversa de bois, que manifesta a comunicação, a amizade e a compaixão; e a hora e vez, que sugere o destino, a redenção e a justiça.

Sagarana é uma obra de grande importância e relevância cultural, pois representa uma renovação da literatura brasileira, ao introduzir uma nova forma de narrar, de descrever, de dialogar e de poetizar. A obra também contribui para a valorização e a preservação da cultura sertaneja, ao retratar seus aspectos históricos, geográficos, sociais, psicológicos e espirituais. Além disso, a obra oferece uma visão ampla e profunda da realidade humana, ao abordar temas universais, como o amor, o ódio, o bem e o mal.

O autor de Sagarana, João Guimarães Rosa, nasceu em Cordisburgo, Minas Gerais, em 1908, e faleceu em 1967, no Rio de Janeiro. Foi médico, diplomata, escritor e um dos maiores nomes da literatura brasileira. Além de Sagarana, publicou outras obras importantes, como Corpo de Baile, Grande Sertão: Veredas, Primeiras Estórias e Tutaméia. Recebeu vários prêmios literários, como o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, e o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro. Foi eleito para a Academia Brasileira de Letras em 1963, mas morreu antes de tomar posse.

Para concluir, Sagarana é uma obra que merece ser lida, apreciada e estudada por todos os que se interessam pela literatura, pela cultura e pela vida. É uma obra que nos encanta, nos emociona, nos surpreende e nos ensina. É uma obra que nos mostra que o sertão é o mundo, e que o mundo é o sertão.

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