[RESENHA #792] O misterioso caso de Styles, de Agatha Christie


Quando mr. Hastings encontra seu velho conhecido John Cavendish casualmente e aceita seu convite para passar uma temporada na enorme e isolada casa de campo de Styles, não imagina a misteriosa trama que o espera. Mrs. Emily Inglethorp, madrasta de John e Laurence Cavendish, herdou a propriedade de seu marido e tem todo o controle sobre patrimônio da família. Seu segundo marido é Alfred Inglethorp, vinte anos mais novo, cujo passado é nebuloso, o que causa enorme apreensão nos filhos de mrs. Emily e nos demais moradores de Styles. A tensão na propriedade chega ao limite quando mrs. Emily é encontrada trancada em seu quarto nos últimos estertores e morre com o nome de seu marido nos lábios.

Morte natural ou envenenamento? Quem além de seu marido teria interesse em sua morte? Como ela pode ter sido envenenada? Para responder a todas essas perguntas, mr. Hastings, velho amigo de Hercule Poirot, pede autorização à família para chamar o excêntrico detetive belga. O astuto e simpático detetive analisa as evidências, entrevista testemunhas e o leitor vai seguindo seus passos a partir da envolvente narração de mr. Hastings. E a ele fica o desafio: diante de provas desconexas, testemunhos duvidosos e inúmeras reviravoltas, como o sagaz Poirot irá desvendar esta imbricada trama onde ninguém é exatamente o que parece?

Neste que é o primeiro romance escrito por Agatha Christie, já estão presentes as marcas que a tornarão a maior escritora de suspense de todos os tempos: o mais famoso detetive, as personagens extremamente bem caracterizadas, a trama em que todos são suspeitos e o final estarrecedor, com todas as personagens reunidas – final que foi alterado pelo primeiro editor e aparece restaurado nessa versão.

RESENHA

O misterioso caso de Styles é o primeiro romance policial escrito por Agatha Christie, considerada a rainha do gênero. Publicado em 1920, o livro apresenta o detetive belga Hercule Poirot, um dos personagens mais famosos e queridos da literatura de mistério. Acompanhado pelo seu amigo, o capitão Hastings, Poirot investiga o assassinato de uma rica senhora, Emily Inglethorp, que morre envenenada em sua mansão em Essex, na Inglaterra. A trama se complica quando se descobre que todos os membros da família Cavendish, que vivem na casa, têm motivos e oportunidades para cometer o crime. Cabe ao astuto Poirot desvendar as pistas, interrogar os suspeitos e revelar o culpado.

O estilo de Agatha Christie é marcado pela construção de enredos complexos, cheios de reviravoltas e surpresas, que desafiam a inteligência do leitor. A autora também se destaca pela criação de personagens bem caracterizados, que refletem os costumes e valores da sociedade inglesa da época. O misterioso caso de Styles é um exemplo de romance de enigma, um subgênero do romance policial que se caracteriza pela presença de um detetive que usa a lógica e a dedução para solucionar um mistério, geralmente um homicídio. Nesse tipo de narrativa, o leitor é convidado a acompanhar o raciocínio do detetive e tentar descobrir o assassino antes da revelação final.

Os principais personagens do livro são:

- Hercule Poirot: o detetive belga, ex-policial, que se refugia na Inglaterra durante a Primeira Guerra Mundial. Ele é baixo, tem um bigode impecável e uma cabeça em forma de ovo. Ele é extremamente vaidoso, metódico e orgulhoso de suas "células cinzentas". Ele tem um talento especial para perceber detalhes que escapam aos outros e para compreender a psicologia humana. Ele é o narrador da história, que conta em primeira pessoa como conheceu Poirot e como o ajudou na investigação do caso Styles.

- Emily Inglethorp: a vítima do crime, uma senhora rica e generosa, que herdou a mansão Styles de seu primeiro marido, o pai de John e Lawrence Cavendish. Ela se casou novamente com Alfred Inglethorp, um homem mais jovem e de origem duvidosa, que desperta a antipatia de seus enteados e dos demais moradores da casa.

- John Cavendish: o filho mais velho de Emily Inglethorp, um advogado que vive na mansão Styles com sua esposa, Mary. Ele é o principal herdeiro da fortuna de sua mãe, mas tem problemas financeiros e conjugais, o que o torna um dos suspeitos do crime.

- Mary Cavendish: a esposa de John Cavendish, uma mulher bonita e inteligente, que se mostra fria e distante do marido. Ela também é suspeita de envolvimento no assassinato, pois se sabe que tem um caso com um oficial do exército, o major Blunt.

- Lawrence Cavendish: o filho mais novo de Emily Inglethorp, um poeta que vive na mansão Styles. Ele é tímido, sensível e apaixonado por Cynthia Murdoch, uma jovem que trabalha no hospital da Cruz Vermelha, que fica próximo à casa. Ele também é suspeito do crime, pois se descobre que ele tem uma dívida com um agiota e que sua mãe pretendia cortar sua mesada.

- Alfred Inglethorp: o segundo marido de Emily Inglethorp, um homem ambicioso e dissimulado, que se casa com ela por interesse. Ele é o principal suspeito do crime, pois se beneficia da morte de sua esposa e tem conhecimentos sobre venenos, já que trabalhou na África como farmacêutico.

- Evelyn Howard: a dama de companhia de Emily Inglethorp, uma mulher solteira e independente, que tem uma personalidade forte e franca. Ela é amiga de Poirot e de Hastings, e os ajuda na investigação. Ela tem uma grande antipatia por Alfred Inglethorp, e chega a romper com Emily por causa dele. Ela também é suspeita do crime, pois se descobre que ela tem uma ligação secreta com um dos membros da família Cavendish.

- Cynthia Murdoch: a protegida de Emily Inglethorp, uma jovem órfã que trabalha no hospital da Cruz Vermelha, onde cuida dos feridos da guerra. Ela é bonita, simpática e ingênua, e desperta o interesse de Lawrence Cavendish e do capitão Hastings. Ela também é suspeita do crime, pois tem acesso a venenos no hospital e recebeu uma herança de Emily Inglethorp.


O livro traz alguns ensinamentos sobre a natureza humana, a sociedade e a justiça. Por meio da investigação de Poirot, o leitor é levado a questionar as aparências, os preconceitos e as motivações das pessoas. O livro também mostra como a guerra afeta a vida das pessoas, tanto no plano pessoal quanto no coletivo. Além disso, o livro revela o talento de Agatha Christie para criar enigmas intrigantes e soluções surpreendentes, que desafiam a lógica e a imaginação.


Algumas citações marcantes do livro são:

- "O método de Poirot era o seu próprio. Ninguém poderia imitá-lo. E, no entanto, era tão simples! Ele não fazia mais do que observar os fatos, estudá-los, analisá-los e tirar conclusões." (Capítulo 2)

- "Não se deve confiar nas aparências. O que parece ser a verdade pode ser apenas uma cortina habilmente colocada para esconder a verdadeira verdade." (Capítulo 8)

- "O criminoso é sempre aquele que menos se espera." (Capítulo 13)

- "Não há nada mais enganoso do que um fato óbvio." (Capítulo 14)

- "A verdade, por mais incrível que pareça, é sempre simples." (Capítulo 14)

O livro se passa na Inglaterra, durante a Primeira Guerra Mundial, um período histórico marcado por conflitos, violência e mudanças sociais. O livro retrata o impacto da guerra na vida das pessoas, tanto nos aspectos materiais quanto nos psicológicos. O livro também mostra como a guerra afeta a estrutura familiar, as relações de classe e de gênero, e os valores morais da época. O livro também reflete o contexto histórico da própria autora, que viveu a guerra como enfermeira voluntária e como esposa de um oficial do exército.

A simbologia do livro está relacionada aos elementos que compõem o mistério, como os venenos, as cartas, os testamentos, as chaves, os relógios, os espelhos, etc. Cada um desses elementos tem um significado oculto ou duplo, que só é revelado no final da história. Por exemplo, o veneno usado para matar Emily Inglethorp é a estricnina, uma substância que causa convulsões e rigidez muscular, e que simboliza a violência e a crueldade do crime. As cartas que Emily Inglethorp escreve e recebe são pistas importantes para desvendar o caso, mas também são meios de manipulação e chantagem, que simbolizam a falsidade e a traição. Os testamentos que Emily Inglethorp faz e altera são motivos para o assassinato, mas também são provas de sua generosidade e de seu amor, que simbolizam a bondade e a justiça. As chaves que trancam o quarto de Emily Inglethorp são evidências de que o crime foi cometido por alguém de dentro da casa, mas também são meios de acesso e de fuga, que simbolizam a astúcia e a audácia. Os relógios que marcam as horas do crime são indícios de que o assassinato foi planejado com precisão, mas também são fontes de confusão e de contradição, que simbolizam o engano e a surpresa. Os espelhos que refletem as imagens das pessoas são instrumentos de observação e de identificação, mas também são objetos de ilusão e de distorção, que simbolizam a aparência e a verdade.

A biografia de Agatha Christie está relacionada ao contexto histórico do livro, pois ela viveu a Primeira Guerra Mundial como enfermeira voluntária e como esposa de um oficial do exército. Ela também passou por uma crise pessoal em 1926, quando seu primeiro marido, Archibald Christie, a traiu e pediu o divórcio. Nesse mesmo ano, ela desapareceu por onze dias, causando um grande alvoroço na imprensa e no público. Ela foi encontrada em um hotel, sob um nome falso, e alegou ter sofrido uma perda de memória. Alguns especulam que ela teria planejado o seu próprio desaparecimento como uma forma de vingança ou de publicidade. Em 1930, ela se casou novamente, com o arqueólogo Max Mallowan, e passou a viajar com ele para o Oriente Médio, onde se inspirou para escrever alguns de seus romances, como Morte no Nilo e Assassinato no Expresso do Oriente. Ela foi reconhecida como uma das maiores escritoras de todos os tempos, e recebeu o título de Dama do Império Britânico em 1971. Ela morreu em 1976, aos 85 anos, deixando um legado de mais de 80 livros, 14 coletâneas de contos, 17 peças teatrais e inúmeras adaptações para o cinema, a televisão e o teatro. Para saber mais sobre a sua biografia, você pode consultar os sites Wikipedia, Britannica ou eBiografia.

Para finalizar a resenha, eu gostaria de expressar a minha opinião positiva sobre o livro O misterioso caso de Styles, de Agatha Christie. Eu achei o livro muito bem escrito, com uma linguagem clara, fluente e envolvente. Eu me senti como se estivesse participando da investigação junto com Poirot e Hastings, tentando decifrar as pistas e os enigmas. Eu me surpreendi com a solução do caso, que foi muito original e criativa, e que mostrou a genialidade de Poirot e de Christie. Eu também gostei dos personagens, que foram bem desenvolvidos e que retrataram a sociedade inglesa da época, com seus conflitos, suas contradições e seus valores. Eu recomendo o livro para quem gosta de um bom romance policial, que mistura suspense, mistério e humor. Eu acho que o livro é uma obra-prima do gênero, e que merece ser lido e apreciado por todos.

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