[RESENHA #786] Os cinco porquinhos, de Agatha Christie



Em um de seus mais intrigantes casos, Hercule Poirot enfrentará um opositor que desafiará sua inteligência e sagacidade: o tempo. Procurado pela bela jovem Carla Lemarchant, Poirot é contratado para investigar um terrível crime que acontecera dezesseis anos antes, e que envolveu os pais da moça. Caroline Crale foi condenada à prisão perpétua e submetida a trabalhos forçados pelo assassinato do marido, o famoso pintor Amyas Crale. Mas, antes de morrer na prisão, enviara à filha, então criança, uma carta afirmando sua inocência. Tantos anos depois, não há mais evidências a serem colhidas. As pistas e provas deverão ser tomadas apenas na análise psicológica das testemunhas, e, para tanto, Poirot contará com sua capacidade de compreensão profunda do espírito humano para desvendar esse mistério. Nas entrevistas que Poirot faz com as cinco testemunhas do crime se revelam seus caracteres e intenções, e fortes sentimentos vêm à tona: angústia, inveja, amor, desejo, cobiça, ciúme. Quem, além de Caroline, teria motivos para assassinar Amyas? O que se esconde por trás dos relatos das testemunhas? O que de fato aconteceu na propriedade dos Crale naquele fatídico dia? Nada leva a crer que alguma daquelas pessoas possa ter assassinado Amyas Carle, impulsionando o leitor a prestar muita atenção aos detalhes dos relatos, a fim de acompanhar o aguçado raciocínio de Poirot nesta trama cheia de sutilezas, e que culmina em uma surpreendente revelação do assassino e dos curiosos motivos do assassinato.

RESENHA

Os cinco porquinhos, de Agatha Christie, é um romance policial que desafia o leitor a acompanhar o detetive Hercule Poirot em uma investigação de um crime ocorrido há dezesseis anos. A obra é considerada uma das mais originais e engenhosas da autora, que utiliza o recurso de narrar os mesmos fatos sob cinco pontos de vista diferentes, cada um correspondendo a um dos suspeitos do assassinato do pintor Amyas Crale.

O estilo de Agatha Christie é marcado pela construção de enredos complexos, cheios de pistas falsas, reviravoltas e surpresas. A autora também se destaca pela criação de personagens memoráveis, como o próprio Poirot, um detetive belga de aparência peculiar e grande inteligência, que resolve os casos mais difíceis com seu método de raciocínio dedutivo. Além dele, o livro apresenta outros personagens interessantes, como a filha de Amyas e Caroline Crale, Carla Lemarchant, que contrata Poirot para provar a inocência de sua mãe, condenada pelo homicídio do marido; os cinco suspeitos, que eram amigos ou amantes do casal Crale e que tinham motivos para matar o pintor; e a advogada Celia Williams, que defendeu Caroline no julgamento e que guarda um segredo sobre o caso.

Um dos ensinamentos da obra é a importância de não julgar as pessoas pela aparência ou pelas primeiras impressões, pois elas podem esconder sentimentos e intenções que não são evidentes. Poirot demonstra isso ao analisar as personalidades e as emoções dos envolvidos no crime, buscando compreender as motivações por trás de suas ações. Outro ensinamento é a necessidade de questionar as evidências e as versões apresentadas, pois elas podem ser manipuladas ou distorcidas. Poirot mostra isso ao confrontar as declarações das testemunhas com os fatos e as provas, revelando as contradições e as inconsistências que levam à verdade.

Algumas citações da obra que ilustram esses ensinamentos são:

- "As pessoas são muito mais complicadas do que se pensa. E, às vezes, muito mais simples também." (Poirot, capítulo 1)

- "Não se pode confiar nas aparências. As aparências enganam. É preciso ir além delas." (Poirot, capítulo 2)

- "A verdade é uma coisa estranha. Nem sempre é aquilo que parece ser. Às vezes, é preciso procurá-la muito bem para a encontrar." (Poirot, capítulo 9)

- "Não há nada mais enganoso do que um fato óbvio." (Poirot, capítulo 10)

O período histórico em que se passa a obra é o início do século XX, entre as duas guerras mundiais, uma época de mudanças sociais, políticas e culturais na Europa e no mundo. A obra reflete alguns aspectos desse contexto, como o papel da mulher na sociedade, a influência da arte moderna, o impacto da tecnologia e da ciência, e as tensões entre as classes e as nações.

A simbologia da obra está relacionada ao título, que faz referência a uma cantiga infantil inglesa, que conta a história de cinco porquinhos que saem para brincar e se envolvem em situações diferentes. A cantiga é usada por Poirot para comparar os cinco suspeitos do crime, atribuindo a cada um deles uma característica que os define: o primeiro porquinho foi ao mercado (Philip Blake, o homem de negócios); o segundo porquinho ficou em casa (Meredith Blake, o irmão erudito); o terceiro porquinho comeu carne de porco (Elsa Greer, a amante de Amyas); o quarto porquinho não comeu nada (Angela Warren, a cunhada de Caroline); e o quinto porquinho chorou "uê, uê, uê" até chegar em casa (Cecilia Williams, a advogada de Caroline). A cantiga também sugere a ideia de que cada um dos porquinhos tem uma parcela de culpa ou de responsabilidade pelo que aconteceu, mesmo que não tenham sido os autores do crime.

A importância e a relevância cultural da obra estão relacionadas à sua contribuição para o gênero policial, que é um dos mais populares e apreciados da literatura. A obra é um exemplo de como Agatha Christie conseguiu renovar e inovar o gênero, criando tramas originais e desafiadoras, que estimulam a imaginação e a inteligência do leitor. A obra também é um reflexo da época em que foi escrita, mostrando aspectos da cultura, da sociedade e da história do século XX.

A biografia do autor é a seguinte: Agatha Christie nasceu em 1890, na Inglaterra, e morreu em 1976, aos 85 anos. Ela é considerada a rainha do crime, por ter escrito mais de 80 romances policiais, além de contos, peças de teatro e obras de outros gêneros. Ela criou dois dos mais famosos detetives da literatura: Hercule Poirot e Miss Marple. Ela também escreveu sob o pseudônimo de Mary Westmacott, que usava para publicar romances de cunho mais psicológico. Ela foi casada duas vezes, teve uma filha e viajou pelo mundo, tendo vivido em lugares como o Egito, a Síria e o Iraque. Ela recebeu diversos prêmios e honrarias, como o título de Dama do Império Britânico e o Grand Master Award da Mystery Writers of America. Ela é a autora mais traduzida e mais vendida da história, com mais de dois bilhões de exemplares vendidos em todo o mundo.

Para finalizar, pode-se dizer que Os cinco porquinhos é uma obra que merece ser lida e apreciada por todos os que gostam de um bom mistério, de uma boa história e de uma boa escrita. Agatha Christie demonstra, mais uma vez, sua maestria como escritora, criando uma trama envolvente, personagens fascinantes e um final surpreendente, que desafia e satisfaz o leitor. É uma obra que prova que o tempo não apaga a verdade, nem o talento de uma grande autora.

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