[RESENHA #778] Os relógios, de Agatha Christie

Na sala do n° 19 de Wilbraham Crescent, cuja proprietária é uma senhora cega, Sheila Webb, uma estenografa, espera sua cliente. Ali, quatro relógios marcam 16h13, enquanto a mulher encontrará, em pânico, um homem desconhecido, no chão, inerte. Assassinato?

Assim começa o envolvente romance policial Os relógios, de Agatha Christie, que conta com o mais famoso personagem da autora: o detetive belga Hercule Poirot. Duas investigações paralelas se entrelaçam ao longo da obra, dando ao livro o suspense e dinâmica inconfundíveis da autora. Uma das investigações, empreendida por Colin Lamb à serviço da inteligência britânica, é narrada em primeira pessoa e ligada à espionagem da Guerra Fria. A outra, central e que dá nome ao livro, diz respeito ao crime cometido na casa de n° 19, e dela participa Poirot. O detetive entra em cena após ser questionado se conseguiria solucionar o caso à distância, sem sequer deixar sua poltrona, usando apenas seu faro e instinto apurados. Os quatro misteriosos relógios parecem indicar pistas importantes e fundamentais para a resolução do caso, mas, em um primeiro momento, incompreensíveis para os investigadores.

Método, raciocínio lógico e conhecimento da natureza humana, características marcantes do detetive belga, desta vez serão suficientes? Longe de testemunhas e da cena do crime, Hercule Poirot terá que pôr à prova todas as suas habilidades.

RESENHA

Os relógios é um romance policial da renomada escritora britânica Agatha Christie, publicado em 1963. O livro faz parte da série de casos do famoso detetive belga Hercule Poirot, que desta vez enfrenta um desafio peculiar: solucionar um crime à distância, sem sair de sua poltrona.

A trama se inicia quando Sheila Webb, uma estenógrafa, é enviada para a casa de uma senhora cega, Miss Pebmarsh, para atender a um cliente misterioso. Ao chegar lá, ela se depara com um homem morto no chão da sala, cercado por quatro relógios parados na mesma hora: quatro e treze. Desesperada, ela foge da casa e encontra Colin Lamb, um agente do Serviço Secreto inglês que estava investigando um caso de espionagem na vizinhança. Lamb entra na casa e confirma a existência do cadáver, mas não reconhece a vítima nem encontra qualquer indício de sua identidade ou do motivo do assassinato. Intrigado, ele decide pedir ajuda a seu amigo Poirot, que aceita o desafio de resolver o enigma dos relógios.

A narrativa se divide em duas partes: uma em primeira pessoa, na qual Lamb relata suas investigações e suas conversas com Poirot, e outra em terceira pessoa, na qual o leitor acompanha as ações e os pensamentos dos demais personagens envolvidos no caso, como os vizinhos, os policiais e os suspeitos. O livro apresenta um estilo típico de Agatha Christie, com uma trama complexa, cheia de pistas falsas, reviravoltas e surpresas. A autora cria um clima de suspense e mistério, mantendo o leitor interessado e curioso até o final. Além disso, ela explora temas como a Guerra Fria, a espionagem, a psicologia criminal e a natureza humana.

Os personagens são bem construídos e diversificados, cada um com sua personalidade, seus segredos e seus motivos. O destaque, é claro, é o detetive Poirot, que demonstra sua genialidade, seu método e seu senso de humor ao longo da história. Ele é capaz de deduzir a solução do caso a partir de poucos dados, usando apenas sua inteligência e sua intuição. Algumas de suas frases são memoráveis, como quando ele diz: "O impossível não pode ter acontecido, portanto o impossível deve ser possível, apesar de tudo" (p. 173).

A simbologia dos relógios é um elemento importante da obra, pois eles representam tanto o tempo quanto a morte. Eles também sugerem uma ideia de sincronia, de coincidência e de destino, que permeia toda a trama. Os relógios são, ao mesmo tempo, pistas e enigmas, que desafiam a lógica e a razão dos investigadores.

A importância e a relevância cultural de Os relógios se devem ao fato de ser uma obra de Agatha Christie, uma das escritoras mais famosas e influentes do gênero policial. Ela é considerada a rainha do crime, e seus livros já foram traduzidos para mais de cem idiomas, vendendo mais de dois bilhões de cópias no mundo todo. Ela também é a autora mais adaptada para o cinema, a televisão e o teatro, tendo suas obras inspirado diversos filmes, séries, peças e musicais. Os relógios, em particular, já foi adaptado para a televisão duas vezes, uma em 1989 e outra em 2011, ambas com o ator David Suchet no papel de Poirot.

A biografia de Agatha Christie é tão interessante quanto suas obras. Ela nasceu em 1890, na Inglaterra, e começou a escrever aos 18 anos, como um passatempo. Seu primeiro livro, O misterioso caso de Styles, foi publicado em 1920, e introduziu o personagem de Poirot. Ela se casou duas vezes, e teve uma filha. Em 1926, ela desapareceu por onze dias, causando um grande alvoroço na imprensa e na polícia. Ela foi encontrada em um hotel, sob um nome falso, e alegou ter sofrido uma perda de memória. Ela nunca explicou o que realmente aconteceu nesse período. Ela continuou a escrever até sua morte, em 1976, aos 85 anos. Ela deixou um legado de mais de 80 romances, 19 peças e mais de 150 contos.

Em conclusão, Os relógios é um livro que merece ser lido por todos os fãs de literatura policial, e também por aqueles que apreciam uma boa história, bem escrita e bem elaborada. Agatha Christie mostra, mais uma vez, por que é uma mestra do gênero, e nos presenteia com um caso intrigante, divertido e surpreendente. É uma obra que nos faz pensar, nos faz rir e nos faz admirar a genialidade de Poirot. É uma obra que nos faz viajar no tempo e no espaço, e nos faz sentir parte de um jogo de inteligência e de astúcia. É uma obra que nos faz amar os livros e os relógios.

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