[RESENHA #772] A rosa do povo, de Carlos Drummond de Andrade

Um dos livros mais modernistas e políticos de Drummond, A rosa do povo retorna em novo projeto, com posfácio de Affonso Romano de Sant’Anna.

A poesia de Carlos Drummond de Andrade não precisa de manual crítico para ser apreciada. A obra se basta. Mas em se tratando de A rosa do povo, o contexto histórico em que o livro foi escrito e publicado ajuda a dar ainda mais sentido aos 55 poemas que compõem essa obra-prima, publicada em 1945, quando o poeta completou 43 anos.

Escritos sob o impacto da Segunda Guerra Mundial e da ditadura do Estado Novo no Brasil, os versos trazem grande carga “politizada”, traço que já aparecera em livros anteriores, como Sentimento do mundo e José. É assim com o conhecidíssimo “A flor e a náusea”, onde a beleza (ou seria a poesia?) brota dos lugares mais hostis, em um tempo de desesperança, ou em “Nosso tempo” ― “tempo de divisas, tempo de gente cortada” ―, tão atual com suas poderosas imagens que chega a desconcertar o leitor. Sem esquecer da ode “Carta a Stalingrado”, em que o poeta deixa bem claro seu humanismo diante da barbárie.

Mas Drummond era um poeta completo. Para além do tom desesperançoso daquele momento, ele escreveu textos metalinguísticos (“Nova canção do exílio”), poemas de amor não correspondido (“O mito”) e reflexões existenciais (“Morte no avião”). Há ainda a pérola “Caso do vestido”, uma “narrativa” épica (meio rodriguiana), sobre traição e desonra, que o Nobel Bob Dylan certamente gostaria de ter escrito.

No fim, o que prevalece mesmo é a poesia maior de Drummond, com sua fé inabalável no ofício da escrita: “Contempla as palavras, cada uma tem mil faces secretas” (“Procura da poesia”). Neste livro, elas têm mesmo.

As novas edições da obra de Carlos Drummond de Andrade têm seus textos fixados por especialistas, com acesso inédito ao acervo de exemplares anotados e manuscritos que ele deixou. Em A rosa do povo, o leitor encontrará o posfácio do escritor e poeta Affonso Romano de Sant’Anna, estudioso da obra drummondiana; bibliografias selecionadas de e sobre Drummond; e a seção intitulada “Na época do lançamento”, uma cronologia dos três anos imediatamente anteriores e posteriores à primeira publicação do livro.

Bibliografias completas, uma cronologia de vida e obra do poeta e as variantes no processo de fixação dos textos encontram-se disponíveis por meio do código QR localizado na quarta capa deste volume.

RESENHA

A rosa do povo é um livro de poesia de Carlos Drummond de Andrade, publicado em 1945. Considerado uma das obras-primas do autor e da literatura brasileira, o livro reflete sobre a realidade social, política e existencial do Brasil e do mundo na época da Segunda Guerra Mundial e do Estado Novo.

O estilo de Drummond é marcado pela linguagem coloquial, pela ironia, pelo humor, pela crítica e pela reflexão. O poeta explora diversos temas, como o amor, a morte, a família, a cidade, a poesia, a história, a política, a guerra, o comunismo, a esperança e a angústia. A rosa do povo não tem personagens, mas sim vozes poéticas que expressam diferentes pontos de vista e sentimentos.

Um dos ensinamentos da obra é a consciência da condição humana, marcada pela solidão, pelo sofrimento, pela incomunicabilidade e pela busca de sentido. Ao mesmo tempo, o poeta revela uma sensibilidade para captar a beleza, a alegria, a solidariedade e a resistência diante das adversidades. A rosa do povo é também uma homenagem à poesia como forma de expressão, de questionamento, de denúncia e de transformação.

Algumas citações da obra que ilustram o seu valor poético são:

- "A flor e a náusea": "Preso à minha classe e a algumas roupas, / vou de branco pela rua cinzenta. / Melancolias, mercadorias espreitam-me. / Devo seguir até o enjoo? / Posso, sem armas, revoltar-me?"

- "Morte do leiteiro": "Há pouco leite no país, / é preciso entregá-lo cedo. / Há muita sede no país, / é preciso entregá-lo cedo. / Há no país uma legenda, / que ladrão se mata com tiro. / Então o moço que é leiteiro / de madrugada com sua lata / sai correndo e distribuindo / leite bom para gente ruim."

- "Carta a Stalingrado": "Depois de Madri e de Londres, ainda há grandes cidades! / O mundo não acabou, pois que entre as ruínas / outros homens surgem, a face negra de pó e de pólvora, / e o hálito selvagem da liberdade / dilata os seus peitos, Stálin."

- "Mário de Andrade desce aos infernos": "Mário, / desce aos infernos, / e volta, / e conta / o que viste, / e escreve / o teu poema / com fogo, / com sangue, / com riso, / com tudo / que é vida / e que é morte, / e que é nosso."

O período histórico em que a obra foi escrita é o da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), que envolveu as principais potências mundiais em um conflito devastador, e do Estado Novo (1937-1945), que foi a ditadura de Getúlio Vargas no Brasil, caracterizada pelo autoritarismo, pelo nacionalismo, pelo populismo e pela repressão. Esses contextos influenciaram a visão de mundo de Drummond, que se posicionou contra o fascismo, o nazismo e o varguismo, e a favor da democracia, do socialismo e da liberdade.

A rosa do povo é uma metáfora que simboliza a beleza e a força do povo, que resiste e luta por seus direitos e por sua dignidade. A rosa também remete à Revolução Russa de 1917, que foi uma inspiração para os movimentos comunistas e socialistas da época. O poeta era simpatizante do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e admirava a figura de Stálin, líder da União Soviética, que naquele momento era vista como um modelo de resistência ao fascismo e de construção de uma sociedade mais justa e igualitária.

A importância e a relevância cultural da obra são inquestionáveis, pois A rosa do povo é um dos livros mais representativos da poesia brasileira do século XX, que expressa a sensibilidade, a criatividade, a originalidade e a consciência crítica de Drummond, um dos maiores poetas da nossa literatura. A obra é também um testemunho histórico e social de uma época marcada por conflitos, crises e esperanças, que ainda hoje dialoga com os leitores e os desafia a pensar sobre o seu papel no mundo.

A rosa do povo é uma obra que merece ser lida, relida, estudada e apreciada por todos os que amam a poesia e a literatura brasileira. Drummond nos oferece um livro que é ao mesmo tempo um retrato de uma época e uma reflexão atemporal sobre a condição humana, com uma linguagem que combina simplicidade e sofisticação, humor e melancolia, ironia e emoção. A rosa do povo é uma obra que nos faz rir, chorar, pensar e sonhar, e que nos revela a grandeza e a fragilidade do poeta e do povo.

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