[RESENHA #772] Contos de aprendiz, de Carlos Drummond de Andrade

Drummond não escreveu muitos contos ao longo de sua carreira. Daí a importância de um livro como este Contos de aprendiz. Publicado originalmente em 1951 (mesmo ano de Claro enigma), o livro seria a primeira investida em larga escala do autor numa obra de ficção. Antes, publicara a pequena novela “O gerente” (que faz parte do volume) em uma modesta edição. Os temas dos quinze contos giram praticamente na mesma órbita de grande parte da poesia do autor: o memorialismo, o relato da vida acanhada no interior do Brasil do início do século XX, a observação do cotidiano mais miúdo, uma ironia gentil, a observação - despida de qualquer sentimentalismo - da inevitável passagem do tempo. Tudo arranjado com delicadeza e inteligência. O autor destes contos busca um estilo ameno, oral-cultivado, em alguns momentos passadista, noutros impregnado de brasilidade. De todo modo, reconhece-se um contista herdeiro dos avanços efetuados pela Semana de Arte Moderna de 1922, principalmente no retrato pouco indulgente da classe média interiorana e no ouvido afiado para o diálogo realista. Algumas das histórias reunidas neste volume se tornariam verdadeiros clássicos da ficção moderna brasileira, como “A salvação da alma”, “O sorvete” e “O gerente”, cativando ainda hoje leitores de todas as idades. Outras merecem ser conhecidas ou revisitadas, pois atestam a maestria de um autor cujos maiores recursos sempre foram a razão e a sensibilidade.

RESENHA

Contos de aprendiz é um livro de Carlos Drummond de Andrade, um dos maiores poetas do modernismo brasileiro. Publicado em 1951, o livro reúne 15 histórias curtas que retratam o cotidiano de personagens simples e comuns, que vivem em um Brasil provinciano e em transição para a modernidade. O autor utiliza um estilo leve, irônico e melancólico, que revela sua sensibilidade e sua crítica social.

Os contos abordam temas como a infância, a religião, a loucura, a morte, o amor, a violência, a solidão, a ambição e a esperança. Os personagens são crianças, velhos, mulheres, trabalhadores, presos, doidos, que sofrem, sonham, se iludem e se decepcionam com a vida. Alguns dos contos mais conhecidos são: A salvação da alma, O sorvete, A doida, Presépio, Câmara e cadeia, Meu companheiro, Flor, telefone, moça, A baronesa e O gerente.

A obra é rica em ensinamentos sobre a condição humana, a sociedade brasileira e a arte de contar histórias. O autor utiliza uma linguagem simples, mas cheia de significados, que cria imagens e emoções no leitor. Algumas citações marcantes são:

- "A salvação da alma é uma coisa que não se pode deixar para depois." (A salvação da alma)

- "Sorvete é uma coisa que a gente toma para ficar alegre, e não para ficar triste." (O sorvete)

- "A doida era uma pessoa como as outras, só que tinha ficado doida." (A doida)

- "O presépio era a coisa mais bonita do mundo, e ela tinha que montá-lo sozinha, sem ajuda de ninguém." (Presépio)

- "Valdemar era um homem bom, que gostava de ajudar os outros, mas não sabia como." (Câmara e cadeia)

- "Pirulito era o seu companheiro, o seu amigo, o seu irmão. Pirulito era tudo para ele." (Meu companheiro)

- "Ela não sabia o que era aquela voz, nem o que queria dela. Só sabia que era uma voz triste, que lhe pedia uma flor." (Flor, telefone, moça)

- "A baronesa tinha morrido, mas as suas jóias estavam vivas, e brilhavam como estrelas." (A baronesa)

- "Samuel era o gerente, o homem que mandava em tudo, o homem que tinha o poder. Mas Samuel não era feliz." (O gerente)

O livro pode ser considerado um retrato do Brasil da primeira metade do século XX, um período de mudanças políticas, econômicas, sociais e culturais. O autor capta os contrastes entre o rural e o urbano, o tradicional e o moderno, o rico e o pobre, o sagrado e o profano, o real e o fantástico. O livro também pode ser visto como uma homenagem à literatura de Machado de Assis, um dos mestres do conto brasileiro, que influenciou Drummond.

Carlos Drummond de Andrade nasceu em 1902, em Itabira, Minas Gerais. Formou-se em farmácia, mas dedicou-se à literatura e ao jornalismo. Foi um dos principais nomes da segunda geração do modernismo brasileiro, ao lado de Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Manuel Bandeira, Cecília Meireles, entre outros. Sua obra poética é vasta e diversificada, abrangendo temas como o amor, a morte, a política, a história, a natureza, a linguagem e a própria poesia. Alguns de seus livros mais famosos são: Alguma poesia (1930), Sentimento do mundo (1940), A rosa do povo (1945), Claro enigma (1951), Lição de coisas (1962) e Boitempo (1968-1979). Drummond morreu em 1987, no Rio de Janeiro, no mesmo dia em que sua filha única.

Contos de aprendiz é uma obra que merece ser lida e apreciada por todos os que gostam de literatura. O autor demonstra sua habilidade de narrar histórias com humor, sensibilidade e profundidade, criando personagens e situações que nos fazem refletir sobre a vida e o mundo. O livro é um exemplo de como a prosa de ficção pode ser tão bela e poética quanto a poesia.

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