[RESENHA #771] Sentimento do mundo, de Carlos Drummond de Andrade


Os poemas sociais de Sentimento do mundo retornam em novo projeto, com posfácio de Ailton Krenak.

Sentimento do mundo, publicado em 1940, quando Carlos Drummond de Andrade tinha 38 anos, é seu terceiro livro de poemas, mas o primeiro escrito após a mudança para o Rio de Janeiro, então capital do país. O poema-título, que abre o volume, registra a abertura do poeta para uma visão mais ampla da humanidade. No conjunto de poemas aqui reunidos, há também uma atitude política mais participativa e empenhada (mesmo que ciente de seus limites) na transformação da realidade.

Os poemas sociais de Sentimento do mundo são alguns dos melhores já produzidos em nossa literatura. “O operário no mar”, “Os ombros suportam o mundo”, “Mundo grande” e a “Noite dissolve os homens”, entre outros, são exemplos de uma literatura engajada na qual, como escreveu o crítico Antonio Candido, referindo-se ao posicionamento político de Drummond na época, a “adesão ao socialismo e a negação do sistema capitalista” se fazem “em chave de lirismo, como alguma coisa que vem de dentro e existe antes de mais nada enquanto modo de ser”.

Esta nova amplitude, embora represente uma inflexão na obra de Drummond, não elimina, é claro, as fortes ligações que tinha com Minas Gerais e sua cidade natal. Os dois planos convivem, de forma mais ou menos tensa, ao longo do livro. Essa conexão decisiva com as origens fica evidente, por exemplo, no poema “Confidência do itabirano”: “Alguns anos vivi em Itabira. / Principalmente nasci em Itabira. / Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.”

As novas edições da obra de Carlos Drummond de Andrade têm seus textos fixados por especialistas, com acesso inédito ao acervo de exemplares anotados e manuscritos que ele deixou. Em Sentimento do mundo, o leitor encontrará o posfácio do líder indígena, ambientalista e autor Ailton Krenak, e também bibliografias selecionadas de e sobre Drummond; e a seção intitulada “Na época do lançamento”, uma cronologia dos três anos imediatamente anteriores e posteriores à primeira publicação do livro.

Bibliografias completas, uma cronologia de vida e obra do poeta e as variantes no processo de fixação dos textos encontram-se disponíveis por meio do código QR localizado na quarta capa deste volume.


RESENHA


Sentimento do Mundo é o terceiro livro de poemas de Carlos Drummond de Andrade, publicado em 1940. O livro reúne 28 poemas escritos entre 1935 e 1940, período marcado pela instabilidade política e social no Brasil e no mundo, com a iminência da Segunda Guerra Mundial. O autor expressa em sua poesia uma visão crítica e reflexiva da realidade, revelando sua solidariedade com os sofrimentos e as angústias da humanidade.


O estilo de Drummond é caracterizado pela linguagem coloquial, pela ironia, pelo humor e pela musicalidade. O poeta utiliza recursos como a repetição, a antítese, a metáfora e a aliteração para criar efeitos sonoros e de sentido. O eu lírico se apresenta como um sujeito que se sente pequeno e impotente diante do mundo, mas que ao mesmo tempo se identifica com ele e busca compreendê-lo. O poeta se mostra atento aos problemas sociais, políticos e existenciais de sua época, mas também aos aspectos pessoais, como a memória, o amor, a morte e a poesia.


O livro não possui personagens, mas sim vozes poéticas que expressam diferentes sentimentos e perspectivas sobre o mundo. O poeta dialoga com outros poetas, como Manuel Bandeira, Murilo Mendes e Fernando Pessoa, e com figuras históricas, como Tiradentes, Cristo e Napoleão. O poeta também se dirige ao leitor, convidando-o a participar de sua poesia e de sua visão de mundo.


A obra traz diversos ensinamentos, como a importância da consciência crítica, da solidariedade, da resistência e da esperança. O poeta nos mostra que o mundo é contraditório, complexo e desafiador, mas que também é belo, surpreendente e poético. O poeta nos ensina a valorizar a vida, a arte, a liberdade e a humanidade.


O livro contém várias citações marcantes, que se tornaram famosas na literatura brasileira. Algumas delas são:


- "Tenho apenas duas mãos / e o sentimento do mundo" (Sentimento do Mundo)


- "Mundo mundo vasto mundo / se eu me chamasse Raimundo / seria uma rima, não seria uma solução" (Poema de Sete Faces)


- "E agora, José? / A festa acabou, / a luz apagou, / o povo sumiu, / a noite esfriou, / e agora, José?" (José)


- "Lutar com palavras / é a luta mais vã. / Entanto lutamos / mal rompe a manhã" (Lutar com Palavras)


- "No meio do caminho tinha uma pedra / tinha uma pedra no meio do caminho" (No Meio do Caminho)


O livro também apresenta uma rica simbologia, que explora imagens e símbolos relacionados ao mundo, à noite, à pedra, ao mar, ao fogo, ao sangue, ao coração, entre outros. O poeta utiliza esses elementos para criar contrastes, analogias e metáforas que expressam sua visão poética. Por exemplo, o mundo pode ser visto como um lugar de dor, de guerra, de opressão, mas também de amor, de beleza, de poesia. A noite pode ser vista como uma metáfora da morte, do medo, da solidão, mas também do sonho, da esperança, da renovação. A pedra pode ser vista como um obstáculo, uma dificuldade, uma limitação, mas também como uma forma, uma estrutura, uma resistência.


A importância e a relevância cultural de Sentimento do Mundo são inquestionáveis. O livro é considerado uma das obras-primas da poesia brasileira e um dos expoentes da segunda geração modernista. O livro influenciou e continua influenciando gerações de poetas, escritores, artistas e leitores, que se identificam com a poesia de Drummond e com seu sentimento do mundo.


Carlos Drummond de Andrade foi um dos maiores poetas brasileiros do século XX. Nasceu em Itabira, Minas Gerais, em 1902, e faleceu no Rio de Janeiro, em 1987. Além de poeta, foi também contista, cronista, tradutor e funcionário público. Publicou mais de 30 livros de poesia, entre eles Alguma Poesia (1930), Brejo das Almas (1934), A Rosa do Povo (1945), Claro Enigma (1951), Lição de Coisas (1962), Boitempo (1968-1979) e Corpo (1984). Publicou também livros de contos, como Contos de Aprendiz (1951) e O Fazendeiro do Ar (1954), e de crônicas, como Passeios na Ilha (1952) e Cadeira de Balanço (1966). Recebeu diversos prêmios literários, como o Prêmio Jabuti, o Prêmio Eça de Queiroz e o Prêmio Camões.



Sentimento do Mundo é um livro que merece ser lido, relido e apreciado por todos os que amam a poesia e a literatura. O livro nos oferece uma poesia de alta qualidade, que combina forma e conteúdo, estética e ética, arte e vida. O livro nos revela um poeta que soube captar e expressar o sentimento do mundo de sua época, mas que também transcendeu o tempo e o espaço, criando uma poesia universal e atemporal. O livro nos convida a entrar em contato com o mundo, com o outro e com nós mesmos, por meio da palavra poética. O livro é, sem dúvida, um clássico da literatura brasileira e mundial.


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