[RESENHA #768] Canção para ninar menino grande, de Conceição Evaristo

Trata-se de um mosaico afetuoso de experiências negras, um canto amoroso e dolorido. Na figura do personagem Fio Jasmim, Conceição discute com maestria as contradições e complexidades em torno da masculinidade de homens negros e os efeitos nas relações com as mulheres negras. O livro é um mergulho na poética da escrevivência e ao mesmo tempo um tributo ao amor sob uma ótica poucas vezes vista na literatura brasileira.

RESENHA

Canção para ninar menino grande é um romance da escritora mineira Conceição Evaristo, publicado pela primeira vez em 2018 e relançado em 2022 pela editora Pallas. A obra é um retrato sensível e poético da vida de Fio Jasmin, um homem negro que trabalha como ferroviário e que se envolve com diversas mulheres ao longo de suas viagens pelo Brasil. Cada uma dessas mulheres tem uma história de amor, dor, prazer e maternidade, que se entrelaçam com a de Fio e formam um mosaico de experiências negras.

O estilo de Conceição Evaristo é marcado pela escrevivência, conceito que ela mesma criou para definir a escrita que nasce da vivência como mulher negra. Suas obras são repletas de memória, ancestralidade, oralidade e resistência, e Canção para ninar menino grande não é diferente. A autora utiliza uma linguagem simples, mas rica em imagens e metáforas, que aproxima o leitor dos personagens e dos cenários. A narrativa é feita em terceira pessoa, mas com alguns trechos em primeira pessoa, que revelam os pensamentos e sentimentos dos protagonistas. A estrutura do romance é dividida em capítulos curtos, que alternam entre as diferentes mulheres que se relacionam com Fio Jasmin, e que são apresentadas por seus nomes completos, como forma de resgatar suas identidades e origens.

Os principais personagens do romance são Fio Jasmin e as mulheres que ele ama, ou que o amam. Fio Jasmin é um homem negro, bonito, charmoso e sedutor, que tem uma única frustração na vida: não ter podido ser o príncipe na festa da escola por causa de sua cor. Ele cresce com a ideia de que os homens não devem chorar nem demonstrar fraqueza, e que seu papel é fecundar as mulheres e gerar filhos. Ele se casa com Pérola Maria, mas não se contenta com uma única mulher, e sai pelo país espalhando sua semente. As mulheres que ele encontra são Neide Paranhos da Silva, Juventina Maria Perpétua, Maria das Dores, Maria da Glória, Maria do Carmo, Maria da Conceição, Maria do Rosário e Maria da Paz. Cada uma delas tem uma personalidade, uma história e uma forma de lidar com o amor de Fio Jasmin. Algumas o aceitam como ele é, outras sofrem por sua ausência, outras ainda o rejeitam ou o perdoam. Todas elas são mulheres negras, fortes, independentes e que não têm medo do prazer. Elas também são mães, que criam seus filhos com carinho e orgulho, sem se importar com quem é o pai. Elas são unidas pela amizade, pela cumplicidade e pela solidariedade, e formam uma rede de apoio e afeto.

A obra ensina ao leitor sobre a cultura, a história e a realidade das pessoas negras no Brasil, especialmente das mulheres negras, que sofrem com o racismo, o machismo e a violência. A autora mostra como a negritude é diversa, complexa e rica, e como ela se manifesta na música, na religião, na culinária, na arte e na literatura. Ela também aborda temas como a sexualidade, a maternidade, a masculinidade, a identidade, a ancestralidade e a resistência, que são fundamentais para a compreensão da sociedade brasileira. Alguns trechos do romance ilustram esses temas, como por exemplo:

- "Fio Jasmin era um homem bonito. Negro, de olhos grandes e brilhantes, cabelos crespos e bem cortados, lábios grossos e dentes alvos. Tinha um corpo forte e bem torneado, resultado dos exercícios que fazia na academia. Andava sempre bem vestido, com roupas que valorizavam sua cor e seu porte. Era um homem que chamava a atenção por onde passava, e que despertava o desejo de muitas mulheres." (p. 11)

- "Neide Paranhos da Silva era uma moça bem-educada, filha de uma família tradicional da cidade. Seu pai era um advogado respeitado, e sua mãe uma dona de casa exemplar. Neide tinha estudado nos melhores colégios, e se formado em Pedagogia na universidade. Era professora na escola pública, e gostava muito do seu trabalho. Ela era uma mulher bonita, de pele clara, cabelos lisos e olhos castanhos. Tinha um corpo esbelto e elegante, que cuidava com esmero. Era uma mulher que atraía muitos olhares, e que recebia muitas propostas de namoro." (p. 13)

- "Juventina Maria Perpétua era uma mulher simples, que vivia da roça. Seu pai era um pequeno agricultor, e sua mãe uma quitandeira. Juventina tinha aprendido desde cedo a trabalhar na terra, a plantar, a colher, a cuidar dos animais. Ela era uma mulher forte, de pele escura, cabelos crespos e trançados, olhos negros e expressivos. Tinha um corpo robusto e firme, que denotava sua saúde e sua vitalidade. Era uma mulher que não se deixava levar por ilusões, e que sabia o que queria da vida." (p. 15)

O romance se passa em um período histórico não especificado, mas que pode ser situado entre as décadas de 1960 e 1980, tendo em vista alguns elementos como a construção da ferrovia, a ditadura militar, a migração do campo para a cidade, a ascensão da classe média, a urbanização, a industrialização, a modernização e a globalização. O cenário é o Brasil, em suas diversas regiões, cidades e paisagens, que são descritas com riqueza de detalhes pela autora. O leitor viaja com Fio Jasmin e suas mulheres por lugares como Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador, Recife, Fortaleza, Brasília, Manaus, Belém, Porto Alegre, Curitiba, entre outros. Cada lugar tem sua cultura, sua história, sua beleza e sua singularidade, que são retratadas pela autora com sensibilidade e respeito.

A obra tem uma simbologia que se revela nos nomes dos personagens, nas cores, nos objetos, nos animais, nas plantas, nas músicas, nas religiões e nas tradições. Por exemplo, o nome Fio Jasmin remete à ideia de um fio que liga, que atravessa, que penetra, que continua, e também à ideia de um jasmim que perfuma, que encanta, que seduz, que enfeita. As cores preta e branca são usadas para contrastar a pele, o cabelo, os dentes, as roupas, as flores, os lençóis, os sapatos, os carros, os animais, os objetos, os lugares, os sentimentos, os sonhos, os medos, os desejos, os pecados, as virtudes, os prazeres, as dores, as alegrias, as tristezas, as esperanças, as desilusões, as verdades, as mentiras, as luzes, as sombras, o dia, a noite, a vida, a morte. Os objetos, como o relógio, o anel, o colar, o brinco, o espelho, o livro, o rádio, o telefone, o disco, o violão, o tambor, o berimbau, o pandeiro, o cavaquinho, o apito, o trem, o carro, o ônibus, o avião, o barco, o fogão, a geladeira, a máquina de lavar, o ferro de passar, o ventilador, o liquidificador, o abridor de latas, o espremedor de frutas, o secador de cabelos, o chapinha, o batom, o esmalte, o perfume, o sabonete, o xampu, o condicionador, o creme, o desodorante, o absorvente, o preservativo, o anticoncepcional, o teste de gravidez, o ultrassom, o berço, o carrinho, a chupeta, a mamadeira, o babador, a fralda, o brinquedo, o caderno, o lápis, a borracha, a régua, o compasso, o transferidor, o esquadro, o livro, a mochila, o uniforme, o diploma, o troféu, o medalhão, o certificado,

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