[RESENHA #767] Ponciá Vicêncio, de Conceição Evaristo


A história de Ponciá Vicêncio descreve os caminhos, as andanças, as marcas, os sonhos e os desencantos da protagonista. A autora traça a trajetória da personagem da infância à idade adulta, analisando seus afetos e desafetos e seu envolvimento com a família e os amigos. Discute a questão da identidade de Ponciá, centrada na herança identitária do avô e estabelece um diálogo entre o passado e o presente, entre a lembrança e a vivência, entre o real e o imaginado.

RESENHA


Ponciá Vicêncio é um romance que narra a trajetória de uma mulher negra, desde sua infância no interior do Brasil até sua vida adulta na cidade grande. A obra, publicada em 2003, é o primeiro romance de Conceição Evaristo, uma das principais escritoras da literatura afro-brasileira contemporânea.

O estilo da autora é marcado pela oralidade, pela poesia e pela memória. Conceição Evaristo utiliza a linguagem como uma forma de resistência e de afirmação da identidade negra e feminina. A narrativa é feita em terceira pessoa, mas com um foco intimista nos pensamentos e sentimentos da personagem principal, Ponciá Vicêncio.

Ponciá é uma mulher que carrega a herança do avô, um ex-escravo que se rebelou contra a opressão e se mutilou, cortando o próprio braço. Ela é a única da família que tem a aparência física e o comportamento semelhantes ao dele. Ponciá cresce na Vila Vicêncio, um lugar onde os descendentes de escravos vivem e trabalham nas terras da família Vicêncio, que lhes deu o sobrenome. Ela aprende com a mãe, Maria Vicêncio, a arte de modelar o barro e a sonhar com um futuro melhor.

Ponciá decide ir para a cidade grande em busca de oportunidades, mas se depara com o preconceito, a exploração e a perda de sua identidade cultural. Ela trabalha como empregada doméstica, mora em um barraco e tenta trazer a mãe e o irmão para junto dela. No entanto, ela não consegue se adaptar à vida urbana e nem se reconhecer no espelho. Ela se sente deslocada, solitária e angustiada.

A obra aborda temas como a escravidão, o racismo, o machismo, a violência, a migração, a alienação e a busca pela ancestralidade. A autora faz uma crítica à sociedade brasileira, que marginaliza e silencia os negros e as mulheres. Ao mesmo tempo, ela resgata a memória e a cultura afro-brasileiras, valorizando suas tradições, suas histórias e suas expressões artísticas.

Algumas citações da obra que ilustram esses aspectos são:

- "Ponciá carregava o vazio de um cotoco de memória. Um não ser" (p. 15).

- "Ela queria ser gente. Gente de verdade. Gente que nem seu pai, seu avô, seu bisavô. Gente que nem os Vicêncios. Gente que nem os brancos" (p. 21).

- "Na cidade grande, Ponciá descobriu que havia outras dores. Dores que ela desconhecia. Dores que não doíam no corpo, mas que machucavam fundo a alma" (p. 43).

- "Ponciá olhou-se no espelho e não se reconheceu. Quem era aquela mulher de cabelos alisados, rosto maquiado, vestido justo ao corpo?" (p. 63).

- "Ponciá sentia falta de alguma coisa que ela não sabia o que era. Talvez fosse falta de si mesma" (p. 77).

A obra também utiliza alguns símbolos, como o arco-íris, o barro, o braço cotó e o espelho, para representar as transformações, as origens, as marcas e as identidades da personagem. O arco-íris, por exemplo, é uma imagem que remete à infância de Ponciá, quando ela brincava de passar por debaixo dele e tinha medo de mudar de sexo. O arco-íris também simboliza a diversidade, a esperança e a beleza da vida.

A importância e a relevância cultural da obra estão em dar voz e visibilidade aos sujeitos negros e às suas experiências, que muitas vezes são ignoradas ou distorcidas pela literatura dominante. A obra também contribui para a valorização da literatura afro-brasileira, que é uma expressão de resistência, de criatividade e de afirmação da identidade negra.

A biografia da autora se relaciona com a obra, pois Conceição Evaristo também vivenciou a migração do interior de Minas Gerais para o Rio de Janeiro, onde trabalhou como empregada doméstica e enfrentou as dificuldades da vida na cidade grande. Ela também se formou em Letras e se tornou uma referência na literatura afro-brasileira, com obras premiadas e reconhecidas nacional e internacionalmente.

A crítica positiva que se pode fazer da obra é que ela é uma obra de grande sensibilidade, beleza e profundidade, que retrata com realismo e poesia a trajetória de uma mulher negra em busca de sua identidade e de seu lugar no mundo. A obra também é uma obra de denúncia, de reflexão e de conscientização sobre as questões sociais e históricas que afetam os negros e as mulheres no Brasil. A obra é, portanto, uma obra que merece ser lida, apreciada e discutida por todos os leitores.

Postar um comentário

Comentários