[RESENHA #767] Beco da memória, de Conceição Evaristo


Becos da memória é um dos mais importantes romances memorialistas da literatura contemporânea brasileira. A autora traduz, a partir de seus muitos personagens, a complexidade humana e os sentimentos profundos dos que enfrentam cotidianamente o desamparo, o preconceito, a fome e a miséria; dos que a cada dia têm a vida por um fio. Sem perder o lirismo e a delicadeza, a autora discute, como poucos, questões profundas da sociedade brasileira.

RESENHA

Beco da memória, de Conceição Evaristo, é um livro que mistura memória e ficção para retratar a vida de uma comunidade negra em uma favela que está prestes a ser removida. A obra é narrada por diferentes vozes que revelam as histórias, os sonhos, as lutas e as dores dos moradores, que enfrentam o desamparo, o preconceito, a fome e a miséria.

O estilo de Conceição Evaristo é marcado pela oralidade, pela poesia e pela sensibilidade. A autora utiliza uma linguagem simples, mas rica em imagens e metáforas, para criar um retrato vivo e emocionante da realidade social brasileira. A autora também explora a questão da identidade negra, da resistência cultural e da memória coletiva, que são temas recorrentes em sua obra.

Os principais personagens do livro são Maria Nova, uma menina curiosa e inteligente que percorre os becos da favela e conhece as histórias dos moradores; Vó Rita, uma mulher sábia e bondosa que é a parteira e a conselheira da comunidade; Negro Alírio, um líder político que luta pelos direitos dos favelados; e a narradora onisciente, que intercala os relatos de Maria Nova com suas próprias reflexões e análises.

O livro traz vários ensinamentos, como a importância de valorizar a cultura e a história dos negros no Brasil, a necessidade de combater o racismo e a desigualdade social, a força da solidariedade e da esperança diante das adversidades, e o papel da literatura como forma de expressão e de resistência.

Algumas citações marcantes do livro são:

- "Nada que está narrado em Becos da memória é verdade, nada que está narrado em Becos da memória é mentira."

- "Como a vida acontecia simples e como tudo era e é complicado! Hoje, a recordação daquele mundo me traz lágrimas aos olhos. Como éramos pobres! Miseráveis talvez!"

- "Eu queria poder vasculhar com os olhos a sua imagem, mas ela percebia e fugia sempre. Será que ela, algum dia, conseguiu ver o mundo circundante, ali bem escondidinha por trás do portão?"

- "A favela era um mundo à parte, um mundo que não se misturava com o outro, um mundo que não se deixava invadir pelo outro. Um mundo que se defendia do outro."

- "A favela era um lugar de gente que não tinha vez nem voz. Gente que não tinha direito a nada. Gente que não tinha nada. Gente que não era gente."

O livro se passa em um período histórico não especificado, mas que pode ser situado entre as décadas de 1960 e 1980, quando ocorreram vários processos de remoção de favelas nas grandes cidades brasileiras, sob o pretexto de urbanização e higienização. O livro também faz referências a eventos históricos como a escravidão, a abolição, a ditadura militar e a redemocratização.

A simbologia do livro está presente nos elementos que compõem o cenário da favela, como os becos, os barracos, as torneiras, as roupas, os objetos, que representam a precariedade, a exclusão, a violência, mas também a criatividade, a diversidade, a resistência e a memória dos moradores. O livro também utiliza símbolos como o sol, a lua, o fogo, a água, a terra, o ar, que remetem aos elementos da natureza e à ancestralidade africana.

A importância e a relevância cultural do livro estão na sua capacidade de dar voz e visibilidade aos sujeitos marginalizados pela sociedade, de denunciar as injustiças e as opressões que eles sofrem, de valorizar a cultura e a história dos negros no Brasil, de contribuir para a formação de uma consciência crítica e de uma identidade coletiva, e de dialogar com outras obras da literatura afro-brasileira.

Conceição Evaristo é uma escritora, poetisa e professora brasileira, nascida em Belo Horizonte, Minas Gerais, em 1946. Cresceu em uma favela da capital mineira, onde teve contato com a oralidade e a cultura popular. Começou a escrever aos 25 anos, mas só publicou seu primeiro livro, Poemas da recordação e outros movimentos, em 1990. Desde então, publicou vários livros de poesia, contos e romances, como Ponciá Vicêncio (2003), Olhos d'água (2014) e Insubmissas lágrimas de mulheres (2016). É considerada uma das mais importantes escritoras brasileiras, tendo recebido diversos prêmios literários, como o Jabuti, o APCA, o Zumbi dos Palmares e o Prêmio Literário Biblioteca Nacional. É doutora em literatura comparada pela Universidade Federal Fluminense e professora aposentada da Universidade Federal de Minas Gerais. É também uma das fundadoras do Quilombhoje, um coletivo de escritores afro-brasileiros.

A minha crítica positiva sobre o livro é que se trata de uma obra emocionante, envolvente, profunda e necessária, que nos faz refletir sobre a realidade social brasileira, sobre a condição dos negros e das mulheres no país, sobre a importância da memória e da cultura para a construção da identidade e da cidadania, e sobre o papel da literatura como forma de expressão e de resistência. O livro é uma obra de arte que nos toca, nos ensina, nos inspira e nos transforma. Recomendo a leitura para todos que se interessam pela literatura brasileira, pela literatura afro-brasileira, pela história e pela cultura do nosso povo.

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