[RESENHA #766] Olhos d'água, de Conceição Evaristo


Em Olhos d’água Conceição Evaristo ajusta o foco de seu interesse na população afro-brasileira abordando, sem meias palavras, a pobreza e a violência urbana que a acometem. Sem sentimentalismos, mas sempre incorporando a tessitura poética à ficção, seus contos apresentam uma significativa galeria de mulheres: Ana Davenga, a mendiga Duzu-Querença, Natalina, Luamanda, Cida, a menina Zaíta. Ou serão todas a mesma mulher, captada e recriada no caleidoscópio da literatura em variados instantâneos da vida? Elas diferem em idade e em conjunturas de experiências, mas compartilham da mesma vida de ferro, equilibrando-se na “frágil vara” que, lemos no conto “O Cooper de Cida”, é a “corda bamba do tempo”. Em Olhos d’água estão presentes mães, muitas mães. E também filhas, avós, amantes, homens e mulheres – todos evocados em seus vínculos e dilemas sociais, sexuais, existenciais, numa pluralidade e vulnerabilidade que constituem a humana condição. Sem quaisquer idealizações, são aqui recriadas com firmeza e talento as duras condições enfrentadas pela comunidade afro-brasileira.

RESENHA

Olhos d'água, de Conceição Evaristo, é um livro de contos que retrata a vida de personagens negras e negros que enfrentam as dificuldades impostas pelo racismo, pela pobreza e pela violência urbana. A autora, que é uma das principais vozes da literatura afro-brasileira contemporânea, utiliza uma linguagem poética e sensível para dar voz e visibilidade a essas histórias que muitas vezes são silenciadas ou ignoradas pela sociedade.

O livro é composto por quinze contos, que variam em extensão e estilo, mas que têm em comum o foco nas experiências de mulheres negras, que são as protagonistas de nove narrativas. As personagens são mães, filhas, irmãs, trabalhadoras, ex-prostitutas, que lutam pela sobrevivência, pela dignidade e pelo reconhecimento de sua identidade. Em alguns contos, como "Olhos d'água", "Quantos filhos Natalina teve?" e "Duzu-Querença", a autora aborda temas como a maternidade, a perda, a solidão e a esperança, mostrando a força e a resistência dessas mulheres que enfrentam as adversidades com coragem e amor.

Em outros contos, como "Ana Davenga", "Zaíta esqueceu de guardar os brinquedos" e "A gente combinamos de não morrer", a autora denuncia a violência e a marginalização que atingem os homens negros, que são vítimas de um sistema opressor e excludente. A autora mostra como o racismo, o preconceito e a falta de oportunidades levam esses personagens à morte precoce e brutal, deixando marcas profundas em suas famílias e comunidades.

A obra de Conceição Evaristo se destaca pela sua originalidade, pela sua beleza e pela sua relevância social e cultural. A autora, que nasceu em uma favela de Belo Horizonte, em 1946, e se tornou doutora em literatura comparada pela Universidade Federal Fluminense, em 2011, utiliza a sua própria trajetória como inspiração para as suas narrativas, que são marcadas pela oralidade, pela memória e pela ancestralidade. A autora também faz parte do movimento da escrita feminina negra, que busca afirmar a identidade e a história das mulheres negras, que foram historicamente silenciadas e invisibilizadas pela literatura hegemônica.

Olhos d'água é um livro que emociona, que provoca, que questiona e que ensina. É um livro que nos faz olhar para as realidades que muitas vezes não queremos ver, mas que precisamos conhecer e reconhecer. É um livro que nos faz refletir sobre as desigualdades e as injustiças que ainda persistem na nossa sociedade, mas que também nos faz celebrar a resistência e a esperança de quem luta por um mundo melhor. É um livro que nos faz admirar a arte e a sensibilidade de Conceição Evaristo, que é uma das maiores escritoras brasileiras da atualidade.

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