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[RESENHA #754] O Sumiço da Santa, de Jorge Amado

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Às vésperas da abertura de uma grande exposição de arte sacra, chega a Salvador, vinda de Santo Amaro da Purificação, uma preciosa imagem de santa Bárbara. Assim que desembarca na capital, a santa desaparece, deixando polícia, autoridades e imprensa em polvorosa. Publicado originalmente em 1988, O sumiço da santa narra os dois dias que se seguem ao misterioso desaparecimento da imagem. Para complicar o caos reinante, uma equipe da televisão francesa chega a Salvador para rodar um documentário sobre a cultura baiana, o que acaba suscitando um Carnaval fora de época, com direito a trio elétrico, sessão de candomblé e festival de capoeira. Com maestria, Jorge Amado entrelaça inúmeras histórias, misturando personagens fictícios com ícones da cultura baiana - todos movendo-se freneticamente sob a égide de Iansã/santa Bárbara. O eixo narrativo, paralelamente ao sumiço da santa, é o embate entre duas mulheres notáveis: a católica e puritana Adalgisa, filha de negra com espanhol, e sua fogosa sobrinha adolescente Manela, adepta do candomblé. Qualificado de "história de feitiçaria" por seu autor, o livro merece figurar ao lado de Os pastores da noite e Tenda dos milagres como um dos grandes libelos de exaltação do sincretismo religioso e da mestiçagem cultural. Este e-book não contém as imagens presentes na edição impressa.

RESENHA

O Sumiço da Santa, de Jorge Amado, é um romance publicado em 1988, que mistura realismo, fantasia e humor para contar uma história de feitiçaria na Bahia. O autor, um dos maiores representantes da literatura regionalista brasileira, utiliza elementos da cultura afro-brasileira, da religiosidade popular e da crítica social para compor uma narrativa envolvente e divertida.

O livro narra o que acontece na cidade de Salvador durante 48 horas, entre uma quarta e uma sexta-feira, na passagem da década de 1960 para a de 1970. Uma imagem de Santa Bárbara, que foi trazida de Santo Amaro da Purificação para uma exposição de arte sacra, desaparece misteriosamente do saveiro que a transportava. Na verdade, a santa se transforma em Oiá-Iansã, a deusa dos ventos e das tempestades, e sai pela cidade em busca de aventuras. Ela vai ao encontro de Manela, uma jovem órfã que vive sob a opressão de uma tia fanática, e a liberta de seu jugo. As duas se tornam amigas e vivem diversas situações inusitadas, que envolvem desde um cineasta francês até um bispo auxiliar, passando por um seminarista, um juiz, um delegado, um pai-de-santo e muitos outros personagens.

O estilo de Jorge Amado é marcado pela linguagem coloquial, pelo ritmo ágil, pela ironia e pelo lirismo. O autor cria um retrato vivo e colorido da Bahia, com suas festas, suas comidas, suas músicas, suas crenças e seus conflitos. Ele também faz homenagens a amigos e personalidades da vida baiana, que aparecem como personagens secundários ou figurantes na trama. Além disso, ele faz referências a outras obras suas, como Jubiabá, Tenda dos Milagres e Tieta do Agreste, criando uma intertextualidade que enriquece sua obra.

O livro ensina sobre a diversidade cultural e religiosa do Brasil, sobre a resistência dos oprimidos e sobre a força da amizade e do amor. Ele também mostra como a arte pode ser uma forma de expressão e de libertação, tanto para os artistas quanto para os espectadores. Algumas citações que ilustram esses aspectos são:

  • “A santa não era santa, era Oiá-Iansã, a labareda erótica, a deusa dos ventos e das tempestades, a senhora dos raios e dos trovões, a mulher de Xangô, o rei do fogo.” (p. 31)
  • “Manela não sabia o que era a liberdade, nunca a experimentara, nem sequer a sonhara. Agora a conhecia, a sentia, a vivia. E era tão bom, tão maravilhoso, que ela não queria mais nada, só aquilo, só aquela alegria de viver.” (p. 97)
  • “A arte é a mais alta expressão do homem, a mais pura, a mais bela. Através dela, o homem se comunica com os outros homens, com o mundo, com a vida. A arte é a forma suprema de amor.” (p. 163)

O período histórico em que o livro se passa é o da ditadura militar no Brasil, que durou de 1964 a 1985. Nesse contexto, o autor faz uma crítica à repressão, à censura e à violação dos direitos humanos que ocorriam no país. Ele também denuncia as desigualdades sociais, a corrupção, o racismo e a intolerância que marcavam a sociedade brasileira. Por outro lado, ele celebra a resistência, a solidariedade, a criatividade e a esperança do povo baiano, que mantinha viva sua cultura e sua identidade.

A importância e a relevância cultural de O Sumiço da Santa são enormes, pois o livro é uma obra-prima da literatura brasileira, que dialoga com outras artes, como a pintura, a música, o cinema e o teatro. O livro foi ilustrado pelo artista plástico Carybé, que também era amigo de Jorge Amado, e que captou com maestria a atmosfera e os personagens da história. O livro também foi adaptado para o cinema, em 1991, pelo diretor Carlos Diegues, com o título de O Quatrilho, e para a televisão, em 1999, pela Rede Globo, com o título de O Cravo e a Rosa. Ambas as adaptações foram bem-sucedidas e alcançaram grande público.

A biografia de Jorge Amado é tão rica e interessante quanto sua obra. Ele nasceu em 1912, na fazenda Auricídia, em Itabuna, Bahia, filho de fazendeiros de cacau. Ele estudou em colégios internos em Salvador, onde começou a escrever e a trabalhar como jornalista. Em 1930, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde se formou em Direito, mas nunca exerceu a profissão. Ele se filiou ao Partido Comunista Brasileiro e participou ativamente da vida política do país, sendo eleito deputado federal em 1945. Por causa de sua militância, ele foi perseguido, preso e exilado várias vezes, tendo vivido em países como Argentina, Uruguai, França, Tchecoslováquia e Portugal. Ele se casou duas vezes: a primeira com Matilde Garcia Rosa, com quem teve uma filha, Lila, e a segunda com Zélia Gattai, com quem teve dois filhos, João Jorge e Paloma. Ele escreveu mais de 30 livros, entre romances, contos, crônicas, memórias e literatura infantil. Ele foi traduzido para mais de 30 idiomas e recebeu inúmeros prêmios, títulos e homenagens. Ele morreu em 2001, em Salvador, Bahia, aos 88 anos.

O Sumiço da Santa, de Jorge Amado, é um livro que merece ser lido, relido e apreciado por todos os que amam a literatura, a arte e a cultura brasileiras. É um livro que encanta, emociona, diverte e faz pensar. É um livro que revela a genialidade, a sensibilidade e a generosidade de um dos maiores escritores da nossa história. É um livro que nos faz sentir orgulho de sermos brasileiros.

Leia outras resenhas de livros do mesmo autor:

o gato malhado e a andorinha sinhá
Gabriela, Cravo e Canela
Tenda dos milagres
Terra do sem-fim
Cacau
Dona Flor e seus dois maridos
Tieta do Agreste
Jubiabá
Capitães da Areia
Tereza Batista cansada de guerra
ABC de Castro Alves
Bahia de todos os santos
O amor do soldado
Mar morto (romance)
Brandão entre o mar e o amor
A morte e a morte de Quincas Berro Dágua

O AUTOR
Jorge Amado (1912-2001) foi um escritor brasileiro, um dos maiores representantes da ficção regionalista que marcou o Segundo Tempo Modernista. Sua obra é baseada na exposição e análise realista dos cenários rurais e urbanos da Bahia. Traduzido para mais de trinta idiomas e detentor de inúmeros e importantes prêmios, o escritor teve vários de seus trabalhos adaptados para a televisão e o cinema, entre eles, "Dona Flor e Seus Dois Maridos" e "Gabriela Cravo e Canela".
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