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[RESENHA #750] Navegação de Cabotagem, de Jorge Amado

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Uma bebedeira com Pablo Neruda, uma reunião política com Picasso, uma visita ao bordel ou ao terreiro de candomblé com Carybé ou Dorival Caymmi, os últimos dias de Glauber Rocha, o pedido de casamento de Miúcha feito em nome de João Gilberto - dezenas de cenas como essas são evocadas com ternura e humor por Jorge Amado, que escreveu Navegação de cabotagem (1992) às vésperas de completar oitenta anos. Com a serenidade e a sabedoria de quem viveu as maravilhas e os horrores do século XX, o escritor passa em revista momentos marcantes da sua vida, das paixões de juventude à glória literária mundial, da militância política apaixonada à desilusão com o sonho comunista, transformado em pesadelo totalitário. O exílio, as amizades, os amores, o aprendizado da cultura popular nas fazendas de cacau, nos prostíbulos e nos terreiros de candomblé, tudo isso se mistura nestas páginas vibrantes de humanidade. Este livro pode ser lido como uma sucessão de vívidas cenas de um filme ao mesmo tempo épico, lírico e cômico. Revendo com franqueza e fina autoironia sua trajetória de êxitos e tropeços, de acertos e equívocos, com Navegação de cabotagem Jorge Amado insere a si próprio, por fim, na sua rica galeria de personagens inesquecíveis. Edição limitada, com capa dura e 96 páginas de imagens.

RESENHA

Navegação de Cabotagem é um livro de memórias do escritor brasileiro Jorge Amado, publicado em 1992, quando o autor completou 80 anos de idade. O título faz referência à expressão que significa a navegação realizada entre portos ou pontos do território brasileiro, utilizando a via marítima ou vias fluviais interiores². O livro pode ser lido como uma sucessão de cenas vívidas de um filme épico, lírico e cômico, que retrata a trajetória de êxitos e tropeços, de acertos e equívocos, de encontros e desencontros de um dos maiores nomes da literatura brasileira.

O estilo de Jorge Amado é marcado pela valorização da cultura regional, pela crítica sociopolítica, pelo humor, pela sensualidade e pela oralidade. O autor pertence à Geração de 30 do modernismo brasileiro, que se caracteriza pela ficção regionalista, pela denúncia das injustiças sociais e pela busca de uma identidade nacional. Em Navegação de Cabotagem, Jorge Amado insere a si próprio em sua rica galeria de personagens inesquecíveis, misturando realidade e ficção, história e literatura, memória e imaginação.

O livro é dividido em quatro partes: \"Auricídia\", \"Bahia\", \"Brasil\" e \"Mundo\". Cada uma delas corresponde a uma fase da vida e da obra do escritor, desde sua infância na fazenda de cacau até suas viagens pelo mundo, passando por sua formação em Salvador, sua militância política no Rio de Janeiro, sua atuação como deputado federal, seu exílio na Europa, seu retorno ao Brasil e sua consagração internacional. O livro é repleto de ensinamentos e citações que revelam a sabedoria, a generosidade, a ironia e a paixão de Jorge Amado pela vida, pela literatura e pelo povo brasileiro. Algumas delas são:

- “A vida é um milagre, a vida é uma aventura, a vida é uma festa, a vida é uma luta, a vida é um sonho, a vida é uma dor, a vida é um amor, a vida é o que dela fazemos, cada um de nós, todos nós, a humanidade inteira.” (p. 9)

- “A literatura é uma forma de compreensão e de conhecimento, uma forma de amor e de participação, uma forma de intervenção e de transformação, uma forma de revelação e de criação.” (p. 13)

- “A Bahia é uma terra de encantamento e de magia, de mistério e de poesia, de alegria e de tristeza, de beleza e de horror, de fé e de rebeldia, de luta e de festa, de vida e de morte, de amor e de ódio, de tudo e de nada, de sim e de não, de ontem e de hoje, de sempre e de nunca.” (p. 87)

- “O Brasil é um país de contrastes e de contradições, de riqueza e de pobreza, de opressão e de libertação, de violência e de solidariedade, de exploração e de resistência, de conformismo e de utopia, de passado e de futuro, de esperança e de desespero, de sonho e de realidade.” (p. 189)

- “O mundo é um palco de diversidade e de pluralidade, de conflito e de diálogo, de guerra e de paz, de dominação e de emancipação, de intolerância e de tolerância, de exclusão e de inclusão, de injustiça e de justiça, de desigualdade e de igualdade, de liberdade e de escravidão.” (p. 291)

O livro também é um testemunho do período histórico em que Jorge Amado viveu, marcado por acontecimentos como a Revolução de 1930, a Era Vargas, a Segunda Guerra Mundial, o Estado Novo, o golpe de 1964, a ditadura militar, a redemocratização, a Constituinte de 1988, entre outros. O autor narra sua participação e sua opinião sobre esses fatos, bem como sua relação com personalidades históricas, políticas, culturais e artísticas, como Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek, Luís Carlos Prestes, Carlos Marighella, Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Rachel de Queiroz, Carlos Drummond de Andrade, Pablo Neruda, Gabriel García Márquez, Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Pablo Picasso, Dorival Caymmi, Vinicius de Moraes, Glauber Rocha, Zélia Gattai, entre muitos outros.

A importância e a relevância cultural de Navegação de Cabotagem são inegáveis, pois se trata de uma obra que resgata a memória de um dos maiores escritores brasileiros, que contribuiu para a divulgação e o reconhecimento da literatura nacional no mundo. Jorge Amado é autor de obras-primas como Capitães da Areia, Terras do Sem-Fim, Gabriela, Cravo e Canela, Dona Flor e Seus Dois Maridos, Tieta do Agreste, Tenda dos Milagres, entre outras, que foram traduzidas para mais de 30 idiomas e adaptadas para o cinema, a televisão e o teatro. Sua obra é um patrimônio cultural do Brasil e da humanidade, que merece ser lida, estudada e apreciada por todas as gerações.

Navegação de Cabotagem é, portanto, um livro imperdível para quem quer conhecer melhor a vida e a obra de Jorge Amado, bem como a história e a cultura do Brasil. É um livro que emociona, diverte, informa, provoca e encanta o leitor, que se sente navegando com o autor por suas memórias, suas histórias, seus personagens, seus lugares, seus amores, seus sonhos, seus ideais, seus valores, sua arte. É um livro que celebra a vida e a literatura, que são as duas grandes paixões de Jorge Amado.

Leia outras resenhas de livros do mesmo autor:

o gato malhado e a andorinha sinhá
Gabriela, Cravo e Canela
Tenda dos milagres
Terra do sem-fim
Cacau
Dona Flor e seus dois maridos
Tieta do Agreste
Jubiabá
Capitães da Areia
Tereza Batista cansada de guerra
ABC de Castro Alves
Bahia de todos os santos
O amor do soldado
Mar morto (romance)
Brandão entre o mar e o amor
A morte e a morte de Quincas Berro Dágua

O AUTOR
Jorge Amado (1912-2001) foi um escritor brasileiro, um dos maiores representantes da ficção regionalista que marcou o Segundo Tempo Modernista. Sua obra é baseada na exposição e análise realista dos cenários rurais e urbanos da Bahia. Traduzido para mais de trinta idiomas e detentor de inúmeros e importantes prêmios, o escritor teve vários de seus trabalhos adaptados para a televisão e o cinema, entre eles, "Dona Flor e Seus Dois Maridos" e "Gabriela Cravo e Canela".
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