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[RESENHA #718] Helena, de Machado de Assis

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O conselheiro Vale morreu às sete horas da noite de 25 de abril de 1859. Morreu de apoplexia fulminante, pouco depois de cochilar a sesta segundo costumava dizer , e quando se preparava a ir jogar a usual partida de voltarete. Este poderia ser mais um anúncio comum de obituário, mas para a jovem Helena foi um terremoto que assolou sua vida e mudou seu mundo. Narrado em terceira pessoa, este romance machadiano ambientado durante o século XIX traduz as surpresas e desgraças de um amor proibido.

RESENHA


Helena é um romance publicado em 1876, que pertence à primeira fase da obra de Machado de Assis, considerada romântica. O livro narra a história de uma jovem que é reconhecida como filha legítima pelo Conselheiro Vale, um rico e respeitado senhor, após a sua morte. Helena sai do internato onde vivia e vai morar com a família do pai, composta pelo seu irmão Estácio, pela sua tia Úrsula e pelo amigo da família, o doutor Camargo. A chegada de Helena causa surpresa e desconfiança, mas ela logo conquista a simpatia e o afeto de todos com a sua beleza, inteligência e bondade. No entanto, ela também desperta sentimentos ambíguos e proibidos, especialmente em Estácio, que se vê dividido entre o amor fraterno e o amor carnal pela irmã. O romance se desenvolve em meio a intrigas, segredos e revelações, que colocam em xeque a origem e a identidade de Helena, bem como a moral e a honra dos personagens. O livro é narrado em terceira pessoa por um narrador onisciente, que conhece os pensamentos e as emoções dos personagens, mas também os critica e ironiza com sutileza. A linguagem é elegante e refinada, com um vocabulário rico e variado. O cenário é o Rio de Janeiro do século XIX, com destaque para o bairro do Andaraí, onde se situa a casa da família Vale. O livro também retrata os costumes, as convenções e os conflitos da sociedade da época, marcada pelo patriarcalismo, pelo escravismo e pelo conservadorismo. Helena é um livro que mostra a habilidade de Machado de Assis em criar uma trama envolvente e surpreendente, que explora os temas do amor, da família, da verdade e da hipocrisia.

Helena é um romance de Machado de Assis. Foi lançado em 1876. Aqui temos pouco da sutileza psicológica dos dois primeiros romances, verdadeiros retratos de mulheres, ou da sutileza filosófica dos romances da fase madura de Machado. Parece que Machado, depois das críticas negativas a A Mão e a Luva (veja o verbete), quis mostrar que ele também era capaz de escrever um texto tipicamente folhetinesco. Temos aqui o amor proibido (incestuoso, até que se prove o contrário), passado misterioso (de Helena antes de entrar na família do falecido Conselheiro), a força do destino (que faz de Salvador o eterno fracassado), o marido traído e abandonado (Salvador), a morte trágica de personagem jovem, etc. É em Helena que Machado é menos "machadiano", mais romântico. Por isso é considerado pela crítica moderna o mais "fraco" romance de Machado. "Que era, na verdade, o romance Helena? Nada mais que um folhetim ao gosto romântico, destinado a emocionar senhoras e moças de coração sensível. A intriga fora armada precisamente para provocar tal efeito e o autor se deu ao maior esforço para torná-la menos inverossímil, ou mais aceitável, sem todavia conseguir dissimular inteiramente o que tinha de artificial." "Era um típico folhetim de ficção, então cultuado pelas mulheres, a quem as publicações ilustradas mais e mais se dirigiam. [...] O romance tem poucos toques do Machado irônico e sutil do futuro." Mas aqui e ali a escrita elegante do bruxo do Cosme Velho atravessa pela trama rocambolesca, como na passagem a seguir que descreve a protagonista:

O romance se inicia com a morte do Conselheiro Vale, pai de Estácio e irmão de Dona Úrsula. O Conselheiro é descrito como homem de boas relações, relativa fortuna e certo gosto pela vida boêmia. Em seu testamento, ele reconhecia uma filha natural chamada Helena, pedindo para a família que a acolhesse assim que a menina saísse da escola. Como a existência da moça era até então desconhecida para Estácio e Dona Úrsula, eles a recebem com sentimentos diversos. Estácio logo recebe a nova irmã e lhe conquista a confiança, enquanto Dona Úrsula demora para aceitar a ideia de dividir seus afetos com uma desconhecida.

A vida segue tranquilamente para a família do Conselheiro. Dona Úrsula adoece por um momento. Ao notar o cuidado com que a nova parenta a cuidava, abandona todas as suspeitas a respeito de Helena. Logo o padre local (Padre Melquior) e outros amigos da família se afeiçoam por Helena e passam a tratá-la como alguém que sempre estivera na casa. Nesse meio tempo, Estácio se depara com as imposições sociais comuns a um jovem abastado no Brasil da época: ele tem que casar-se e assumir um cargo público, duas ideias contra que resiste por certo tempo. A noiva que lhe fora escolhida, a frívola Eugênia, por vezes lhe causa profundo desgosto; um cargo público parece não corresponder a seus interesses pelas matemáticas e ânsia por liberdade tipicamente romântica. Helena, por fim, é aquela que parece orientar Estácio para os rumos esperados pela sociedade que os rodeia; durante o romance nota-se a crescente influência da meia-irmã nas decisões do moço.


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