companhia das letras

O artifícios da comicidade de Quanto Mais Quente Melhor, a partir de conceitos de Henri Bergson

sexta-feira, 13 de agosto de 2021

/ by Vitor Zindacta

Este texto tem por objetivo analisar a construção cômica cinematográfica de Quanto Mais Quente Melhor (1959, Billy Wilder) a partir, especificamente, da cena Damn. Nesta cena, Jerry (personagem travestida em Dafne) está deitado na cama, embriagado, ainda com maracás de mambo nas mãos e revela a seu parceiro Joe que recebeu nesta noite um pedido de casamento de um milionário. Neste texto, é pretendido aplicar os conceitos de Bergson de modo a revelar quais artifícios são utilizados, nesta cena, para haver comicidade.


O livro: O Riso, de Henri Bergson , descreve, logo em seu primeiro parágrafo, a comicidade como algo essencialmente humano, sendo o homem “o único animal que ri”, e constrói ao longo do livro uma relação entre a humanidade e o papel do riso. Para tanto suas primeiras páginas relacionam a comédia aos brinquedos da infância e descreve alguns deles como artifícios básicos de produção do riso e afirma: “A comédia é um brinquedo. Brinquedo que imita a vida. (...) Quase sempre ignoramos o que há de infantil nos sentimentos alegres” (BERGSON, Henri)

O primeiro brinquedo citado na comparação é o boneco de mola, cujo mecanismo seria transformado num confronto de “um sentimento comprimido que se distende como uma mola, e uma ideia que se diverte em comprimir de novo o sentimento.”(BERGSON, Henri). A presença deste artifício está presente na cena escolhida e é evidente na insistência de Jerry em se casar com um milionário, convertido num “mecanismo de repetição montado pela ideia fixa” (BERGSON, Henri). Bergson argumenta: Imaginemos agora uma espécie de mola moral: certa ideia que se exprima e se reprima, uma vez mais se reprima, certo fluxo de falas que se arremesse, que se detenha e recomece sempre.”

Este movimento de bate e volta, que converte o caráter humano em algo autômato, ocorre durante toda a cena. A discussão entre as duas personagens envolve a transposição de um acontecimento pessoal e sentimental, como o casamento, em algo puramente impessoal e objetivo. Bergson defende o automatismo como condição essencial para se atingir a comicidade. De modo que é preciso haver certo distanciamento da vida, ou “anestesia sentimental”, em que os personagens sejam convertidos em “objetos”, ou que seus desejos sejam puramente objetivos, afastados da carga sentimental que estes carregam. O livro defende que a insensibilidade naturalmente acompanha o riso e que “o maior inimigo do riso é a emoção”.

A ideia de Jerry se mostra irredutível, apesar da tentativa constante de Joe em convencê-lo do absurdo de se casar com um homem sem revelá-lo que a mulher que recebeu a proposta de casamento, é, na verdade, outro homem. O diáliogo se inicia com:
JERRY
(beaming)
I'm engaged.
JOE
Congratulations. Who's the lucky girl?
JERRY
I am.
Um outro ingrediente fundamental da criação do cômico é o disfarce: “Risível será, pois, a imagem que nos surgirá à ideia de uma sociedade que se disfarce.” (BERGSON, Henri).Todo o filme segue esse preceito a partir do disfarce dos dois homens trasvestidos em mulheres: em que o “automatismo, rigidez, hábito adquirido e conservado causam o riso”. No caso, na figura feminina tratada de forma caricata.
Além disso, as gags específicas dessa cena se utilizam exatamente do que há de mais superficial no casamento: “Para uma cerimônia torna-se cômica, basta que nossa atenção se concentre no que ela tem de cerimonioso” (BERGSON, Henri). De modo que quando questionado por Joe a personagem Jerry se distrai completamente da questão humana envolvida na cerimônia da lua de mel e se concentra apenas a questão prática da escolha do destino.

Jerry -- there's another problem.
JERRY
Like what?
JOE
Like what are you going to do on
your honeymoon?
JERRY
We've been discussing that. He wants
to go to the Riviera -- but I sort
of lean toward Niagara Falls.

Há nessa cena também o uso da frases estereotipadas. Nesse caso a rigidez, além do corpo, ocorre na linguagem: “Dado que há fórmulas feitas e frases estereotipadas, um personagem que se exprima sempre nesse estilo seria invariavelmente cômico.” (BERGSON, HENRI). A frase utilizada está na resposta de Jerry quando questionado por Joe, já que obter segurança é um desejo comum e a resposta dada geralmente pelas mulheres que querem se casar com milionários que não amam.

JOE
And why would a guy want to marry a guy?
JERRY
Security.

A verossimilhança gerada é outro aspecto interessante a ser analizado. Acreditamos no discurso absurdo de Jerry, a partir da motivação que nos é dada: a bebida. A partir da embriaguez em que a personagem se encontra é possível acreditar na sua verdadeira crença e vontade em se casar com o milionário acreditando que essa insensatez possa dar certo.

Muitos dos artifícios cômicos citados por Bergson em seu livro, são utilizados na cena. Dentre eles a Inversão de papéis em que “uma situação de volva contra quem a criou” (BERGSON, Henri). Os papéis se invertem quando assistimos a Joy, que enxergava aquela situação como um enorme absurdo, tentando mantê-la, após encontrar o bracelete de diamantes. Joe insistia para que Jerry dissesse a verdade ao milionário, mas após ver a joia a própria personagem rompe o seu discurso, tornando a situação irônica e, invariavelmente cômica:
JOE
Hey -- these are real diamonds.
JERRY
Naturally. You think my fiancé is a
bum? Now I guess I'll have to give
it back.
JOE
Wait a minute -- lets not be hasty.
After all, we don't want to hurt poor Osgood's feelings.

Voltando a relação criada por Bergson entre o riso e os brinquedos da infância, outro brinquedo utilizado como mecanismo é o Fantoche a Cordões. Há na manipulação de outrem, algo cômico. As principais personagens manipuladas no filme são Sugar Cane (Marylin Monroe) e o milionário e: “é do lado dos trapaceiros que se põe o espectador” (BERGSON, Henri). Na cena escolhida, torcemos para que Jerry e Joe consigam se safar de alguma forma e vibramos com suas trapalhadas e enganações.

Este recurso também está ligado ao Efeito Bola de Neve: “O mecanismo fica mais engraçado quando se torna circular e os esforços do personagem conseguem reconduzi-lo pura e simplesmente ao mesmo lugar.” (BERGSON, Henri). É o acontece durante todo o filme, em que prestes a serem desmascarados, os dois músicos sempre retornam à mesma situação. Assim que Sugar bate à porta o espectador pode desconfiar que alguém tenha ouvido a conversa entre os dois companheiros e eles possam ser descobertos, mas a mentira vai se tornando cada vez maior e a quase descoberta volta à estaca zero: “A cada instante tudo entrará em confusão, e tudo se ajeita: isso é que faz rir.” (BERGSON, Henri).

Ao final da cena, quando Sugar Cane bate a porta, é bastante cômico ver a discussão dos dois companheiros sendo interrompida. O espectador oscila entre o desejo de que os dois não sejam descobertos e o prazer aos vê-los retornando à farsa, recolocando suas perucas, de modo a continuar sua manipulação com a personagem de Marilyn Monroe.
BIBLIOGRAFIA
Bergson, Henri . 1978. Ensaio sobre a significação do cômico. In: O Riso. Tradução: Nathanael C. Caixeiro. Rio de Janeiro: Zahar Editores

FILMOGRAFIA
Wilder, Billy. 1959. Quanto Mais Quente Melhor
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