[RESENHA #306] Fingidores, Por Rodrigo Rosp

ROSP, Rodrigo.​​ Fingidores. Não editora, 176 p ISBN 9788561249465

E se você descobrisse que sua morte​​ está mais próxima do que imagina? E se começasse a reviver todos os momentos em que passou discutindo a natureza das coisas para se dar conta que, na verdade, não sabia nada sobre coisa nenhuma — nem sobre si mesmo? Caio, um cara neurótico, sabotado pelas​​ próprias inseguranças, um cara com um jeito bem particular de ver as coisas e que adora uma boa polêmica, vai fazer você refletir. Talvez refletir tanto que você nunca mais precise de um polimento.


O que sabemos é que todos nós precisamos de polimento, seja no protocolo dos cerimoniais ou para se comportar como as mulheres esperam. Caio não é polido. No afã de posar como o dono da verdade, algumas lhe escapam pelas mãos. Caio, como todo bom ser humano, é um belo representante — preste atenção!, representante — dos fingidores.

zmU3CDD+3KA+yFGYjkxvm1WwmFObFVmNz3CmzkwG573W1w+t4KdfJ3vTH9CZ3wvZmo26ZZAAAAAElFTkSuQmCC - [RESENHA #306] Fingidores, Por Rodrigo Rosp

Este livro se finge o tempo todo, então faça como ele e finja que esta publicação trata-se de uma resenha, quando todos sabem – ou quase todos – que não é nada além da minha opinião.

Fingidores é uma comédia teatral escrita em nove cenas pelo autor ​​ Rodrigo Rosp. Rodrigo é escritor, editor da Não Editora e da Dublinense. É autor dos livros: inverossímil (2015); fora do lugar (2009); A virgem que​​ não conhecia Picasso (2007), dentre outras obras. Um fingidor nato com um potencial descritivo imenso, Rodrigo nos apresenta a seu personagem Caio, um protagonista muito curioso com posicionamentos e pensamentos muito reflexivos.

Em​​ Fingidores​​ iremos conhecer Caio, um escritor frustrado casado com Lucinha e melhor amigo de Julia Luciana. Eu​​ começaria dizendo que todos nós possuímos um pouco do Caio dentro de nós, ele é inconstante, repleto de posicionamentos claros e diretos com relação ao que pensa, aliás, ele não pensa, ele apenas diz, o que provoca estranhamento em algumas pessoas – o que​​ não é para menos. Caio possui um relacionamento muito maduro com Lucinha, porém, alguns impedimentos começam a surgir, então Caio começa a se debruçar em conversas cotidianas com amigos para falar sobre a vida, existência, e sobre assuntos aleatórios, todos repletos de muito bom humor e comentários nada apropriados.

“Se a morte for mesmo o fim? Bom, considero uma tremenda falta de imaginação.”

O livro tornou-se cativante desde o primeiro diálogo, as conversas são construídas de forma que os assuntos retratados de segundo plano tornem-se primários, e assim, despertem no leitor, ou melhor dizendo, na plateia, um sentimento de riso reflexivo, que é quando o telespectador busca uma reflexão em meio ao riso, até mesmo para balancear os comentários ​​ nada agradáveis de Caio.

“ora, a gravidez deveria ser recebida de preto, é mais uma pessoa que vai morrer.”

“Ah, mas a beleza causa mais mortes que o cigarro e a bebida juntos.”

Orteman é amigo de Caio, é através dele que temos a experiência da primeira epifania de​​ risos, principalmente quando Caio jura de pés juntos que seu amigo Orteman é a própria morte, o que provoca uma série de reflexões e teorias da conspiração acerca da morte e de sua existência.​​ 

“Perder-se é algo importante para quem quer se encontrar.”

Não há como definir esta obra em palavras, ela necessita muito mais do que comentários acerca da construção de seu enredo, não importa o quanto tentem descrevê-lo, nunca será o suficiente. Rosp deu vida a um roteiro que​​ reflete sobre questões profundas de objeto de pensamento e reflexão humana. Este roteiro – quase que poético – flui entre diálogos breves, bem construídos e de recheados de muito humor, através de uma série de pensamentos niilistas alimentados pelo quase que hipocondríaco Caio.

Caio é um personagem esférico dentro desta narrativa, o que significa que é um protagonista carregado de densidade psicológica e sofre diversas alterações entre um momento e outro, isso pode ser notado na escolha de seus assuntos – quase que de forma aleatória – não há tempo ruim para dialogar, principalmente se a pedida for uma dose de ansiedade carregada de monólogos e breves reações de seus interlocutores. A construção de Caio é uma questão que deve ser levada a sério, afinal, o personagem principal carrega uma série de valores e dúvidas que são fomentadas durante o desenvolvimento do enredo, todas elas voltadas para suas vontades, desejos e momentos de puro êxtase.

Não se enganem, fingidores não é só um livro, muito menos um roteiro, talvez ele nem seja uma história, creio eu que fingidores seja uma forma de fingirmos que não nos importamos com as questões importantes, mas que no fundo nos perturbam e causam inquietações, a inquietação de Caio é uma forma de ilustrar o sentimento que qualquer um ficaria se se colocasse a pensar acerca da existência, em pura ansiedade e incerteza.​​ 

“Às vezes eu quero falar sobre o silêncio, mas não há nada a ser dito.”

Uma outra personagem – breve, eu diria – que merece um certo destaque é Lucinha. Ela é uma mulher inteligente, que possui um modo de pensar elevado e bem construído, é mulher carregada de ideais, apaixonada pelo seu casamento – posso dizer pelo diálogo maravilhoso que tiveram acerca do ciúmes que sentira por Caio -, e de sua forma desconstruída de pensar acerca de como Caio é, ela o entende, e isso é um atrativo que fomenta a literatura para o além, que desperta em nós um desejo de continuar lendo sobre o que se sucederá após, realmente, fogem-nos todas as palavras para descrever.

“E não existe coisa melhor do que conversar com alguém que vai me dizer que serei feliz e que tudo dará certo, mesmo que eu não acredite em uma palavra.”

A reflexão que resume toda a obra:

“O ponto não é a dor, mas o sentir. As pessoas estão fugindo disso.”

E a reflexão mais macabra/engraçada desta narrativa:

“Veja essas crianças correndo no parque sem ter a menor ideia que poderão ter câncer um dia.”

Enfim, o livro é muito além do que a descrição ou o conteúdo desta publicação pode dizer, ele é muito além daquilo o que qualquer pessoa seria capaz de traduzir em palavras, ele é mágico e transformador. Experimente, finja que também não se importe e leia.

 

SOBRE O AUTOR

Rodrigo Rosp nasceu em 1975 e vive em Porto Alegre. Fez pós-graduação em estudos linguísticos do texto na UFRGS e cursa mestrado em escrita criativa na PUC. É escritor e editor da​​ Não Editora​​ e da​​ Dublinense. Lançou os livros de contos "A virgem que não conhecia Picasso" (2007), "Fora do lugar" (2009) e "Fingidores' (2013) e organizou a antologia de contos cinematográficos "24 letras por segundo" (2011), todos pela Não Editora. É um dos organizadores da coletânea "Por que ler os contemporâneos?", publicado pela Dublinense em 2014.

Share

Graduado em Língua Portuguesa, redação, literatura & Ciências sociais. Pós-graduado em literatura contemporânea e geopolítica. Blogueiro, ativista, pai, influenciador digital literário (@postliteral), fundador do @proximoparagrafo (proximoparagrafo.com.br), CEO majoritário do Post Literal (@postliteral), cinéfilo, fãs de gatos e apaixonado por filmes, séries e tudo o que tiver ligação com design.

error: Content is protected !!
Site Protection is enabled by using WP Site Protector from Exattosoft.com