O privilégio da quarentena

Z - O privilégio da quarentena

Foto: PortalG1

 

No dia 06 de fevereiro de 2020​​ iniciou-se o surto, há quem diga que resquícios do que estamos enfrentando já dava sinais em dezembro, porém, a quarentena que acometeu​​ à todo o mundo começou apenas ao término do carnaval, ​​ após a estranha sensação de que todos haviam voltado “gripados” das festividades. Uma amiga minha até chegou a criar um meme na época que dizia “é impressão minha ou todo mundo gripou neste carnaval?”,​​ pois é. Mal sabíamos o que nos esperava.

Com a decisão da quarentena por parte do governantes municipais, todas as cidades entraram em processo de isolamento.​​ No início ninguém entendia, mas o isolamento das pessoas serve para um achatamento na curva dos​​ contágios, em outras palavras, a diluição dos casos no tempo. Com ​​ o isolamento torna-se possível que um número menor de pessoas sofra o contágio, assim evitando o colapso do sistema de saúde. Ok, até ai, geral sabe.

No dia quatorze de março fui ao mercado, na porta havia uma mulher que estava pedindo ajuda, sem máscara. Até então estava “ok”, pois o uso da máscara ainda que indicado não era algo tão praticado quanto nos dias de hoje. Esta mulher, a quem parei para cumprimentar me olhou e perguntou “por quê todos estão de máscaras?”,​​ confesso que gelei com a pergunta, me sentei com ela em um meio-fio próximo e fui explicar tudo o que estava acontecendo no mundo, ela ficou pasma por não deter conhecimento, mas sua situação também não era favorável para que ela detivesse tal saber, afinal, estava pedindo ajuda na porta de um mercado para se alimentar. E o álcool em gel? E as máscaras? E o restante da família daquela mulher? Para minha sorte ela tinha casa e recebeu ajuda pouco tempo depois, mas​​ e quem não tem​​ casa, celular, tevê, computador ou acesso a qualquer meio de informação?​​ O​​ que dizer das pessoas que residem nas ruas e dependem do movimento para conseguir auxílio para alimentação, higiene pessoal e cuidado com os filhos? O que fazer ou dizer para pessoas que não tem acesso ao conhecimento e só assistem da parte debaixo, da pista, o “camarote elitizado” de quem tem máscaras, álcool e moradia?

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Foto: R7.COM

 

Só na cidade de São Paulo a população de rua saltou de​​ 15.905, em 2015, para​​ 24.344 em 2019​​ - um​​ aumento de 53% no período, segundo um censo realizado pela Prefeitura de São Paulo. O número é o maior desde que este levantamento é feito. O Brasil não conta com dados oficiais sobre a população em situação de rua. Esta ausência prejudica a implementação​​ de políticas públicas voltadas para este contingente e reproduz a invisibilidade social da população de rua no âmbito das políticas sociais. Por este motivo, os dados que encontramos em jornais e revistas sempre se voltam a uma cidade ou estado em específico, nunca ao país como um todo, mas somente os números da cidade de São Paulo nos mostram um quadro preocupante e agravante com relação aos desabrigados.

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Pessoas em situação de rua são 'alojadas' em estacionamento, nos EUA. Foto: UOL

 

O pior de tudo é que todo trabalho de apoio a estas pessoas estão sendo realizados unicamente por meio dos estados e seus governantes, sem nenhum tipo de auxílio ou apoio do presidente Jair Bolsonaro (sem partido). A ministra Damares ironizou as pessoas em situação de rua ao​​ dizer que “não há contágio, afinal, ninguém pega na mão”, mas é claro que por outro lado podemos observar a organização do povo em ajuda aos necessitamos, uma noticia animadora dentro deste quadro é a de um conjunto de amigos que se reuniram e​​ conseguiram distribuir cinco mil marmitas para pessoas em situação de rua​​ em quarenta dias.

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Amigos distribuem cinco mil marmitas em quarenta dias. Foto: Diário de Pernambuco.

 

No meio de toda esta problemática sempre surge a​​ questão: como lidar com as pessoas para quem o governo sempre ignorou durante este período de pandemia? O que podemos observar são os governos dos estados trabalhando distribuindo cestas, incentivando as pessoas ao isolamento social, promovendo ações publicitárias de conscientização, distribuindo cobertores, marmitas, dentre outros itens necessários para vida e higiene humana.

As ruas, os viadutos, as calçadas, as zonas pobres e periféricas não escondem seu quadro de pobreza e abandono, não somente agora nesta pandemia, mas sempre. O que irá ocorrer com todas as pessoas que estão recebendo alimentação, cobertores, itens de higiene, e até abrigos no pós-pandemia.​​ Será que a solução encontrada por muitos para minimizar o problema será o suficiente ou estas ações não perdurarão após o termino no tempo de isolamento?​​ Como podemos ignorar o fato de que por muito tempo se ignorou as pessoas que vivem em situação de rua, e agora, magicamente, há um movimento para ajudar essas pessoas que sempre foram esquecidas?​​ Como colaborar para que esta​​ vida digna que se formou para alguns, permaneça? Seguimos em frente acreditando que tudo irá melhorar para todos.

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Graduado em Língua Portuguesa, redação, literatura & Ciências sociais. Pós-graduado em literatura contemporânea e geopolítica. Blogueiro, ativista, pai, influenciador digital literário (@postliteral), fundador do @proximoparagrafo (proximoparagrafo.com.br), CEO majoritário do Post Literal (@postliteral), cinéfilo, fãs de gatos e apaixonado por filmes, séries e tudo o que tiver ligação com design.

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