Diário de quarentena, 93º dia

2Q== - Diário de quarentena, 93º dia

Imagem: Behance / @vitorzindacta

 

Dias difíceis. A internet está cada vez mais instável, o chuveiro queimou​​ e não há nada de interessante na tevê. A alternativa​​ encontrada por​​ foi através de um livro, afinal, eles​​ nos​​ transformam e nos movem de uma realidade para outra, assim podemos nos esquecer por​​ um instante de que nossa vida é​​ chata e banal. Recentemente defini como meta de leitura orgulho​​ e preconceito, de Jane Austen, uma edição primorosa da Penguin.​​ Encontro-me​​ cada vez mais encantado com a capacidade de Austen em descrever os sentimentos de orgulho por parte de sua protagonista, Elizabeth Bennet, e o preconceito claro e evidente em Mr. Darcy. A história ambientada no século XIX me traz uma série de reflexões, principalmente sobre como eu jamais me debruçaria para alguém com tamanha prepotência, enfim, são considerações que não me levam a nada, mas me fazem refletir.

 

Por um instante quase me esqueci de que tenho que compartilhar os dias de quarentena com uma família tão barulhenta, eu os amo,​​ mas não os suporto. Hoje pela manhã ouviu-se ecoar por todos os cômodos da casa uma série de pratos quebrando, às seis da manhã, não, você não leu errado, eram exatamente seis horas da manhã quando alguém, afinal, não fui verificar quem, estava assaltando a geladeira, esta pessoa possivelmente esbarrou no armário onde estavam os pratos semi-lavados e derrubou tudo no chão, mas eu não ligo, sempre gostei de comer​​ qualquer tipo de comida naqueles vasilhames​​ resistentes de plástico fabricadas por aquela marca de famosa da​​ qual não me recordo o nome. Hoje eu tive uma surpresa interessante, acho que este tempo de isolamento está me permitindo me conhecer de forma mais profunda, mais única,​​ tenho criado um relacionamento duradouro comigo mesmo. Recentemente descobri que sei preparar todos os pratos que eu tive vontade de comer até hoje, só me faltava a iniciativa de tentar prepara-los, isso foi ótimo, e melhor ainda foi ouvir o marido de minha irmã dizer para minha mãe: o almoço da senhora de hoje estava uma delicia! Ela olha para mim, olha novamente para ele e diz: “mas quem fez o almoço hoje não fui eu, foi o Vitor”, ah! Que emoção, finalmente acho que aprendi a preparar algo. Realmente, aquilo o que dizem sobre só termos certeza de algo em nós através de um feedback​​ de terceiros, ​​ é verdadeiro, inclusive, preciso mudar isso em mim: isso, sabe? De querer me sentir aprovado apelas pela opinião pública, um homem deve ser cheio de certezas e poucas dúvidas – e estas dúvidas não devem estar relacionadas à coisas tão triviais quanto cozinha -.

 

Hoje comecei a participar de um programa de curadoria para pais, qualquer pessoa que tenha maturidade suficiente – e demonstre isso em uma entrevista -, pode se tornar um curador.​​ Fiquei encarregado de ajudar uma moça de 26 anos à encontrar o seu sentido na vida, o que ela não sabe é que eu também não sei, porém, esta experiência pode proporcionar para ambos uma série de descobertas, e realizar isso em meio a uma pandemia talvez seja encorajador e estimulador para que quando voltarmos ao cotidiano possamos entender mais sobre a vida​​ do que o simples ato de viver.​​ Talvez o maior ensinamento que este isolamento possa nos proporcionar seja o fato de que estamos aprendendo como de fato devemos viver: valorizando a presença alheia, os pequenos momentos e os sentimentos que nascem desta pequena aventura.

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Graduado em Língua Portuguesa, redação, literatura & Ciências sociais. Pós-graduado em literatura contemporânea e geopolítica. Blogueiro, ativista, pai, influenciador digital literário (@postliteral), fundador do @proximoparagrafo (proximoparagrafo.com.br), CEO majoritário do Post Literal (@postliteral), cinéfilo, fãs de gatos e apaixonado por filmes, séries e tudo o que tiver ligação com design.

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